terça-feira, 27 de maio de 2008

O QUE É UMA ACÇÃO?


Na linguagem ordinária, a acção não é um acontecimento, isto é, algo que acontece; entre fazer e acontecer, há uma diferença de dois jogos de linguagem; o que acontece é um movimento enquanto observável (físico ou fisiológico). Consideremos, efectivamente, as três proposições seguintes: os músculos do braço contraem-se; ele levanta o braço; ao levantar o braço, fez sinal que vai virar. Só no primeiro enunciado se refere a um acontecimento que ocorre na realidade; os outros dois designam uma acção, um nomeando-a, o outro explicando-a pela sua intenção: o hiato é entre o enunciado nº 1 e o enunciado nº 2: “a forma lógica de uma acção não pode derivar-se de nenhum conjunto de constatações que incidam em acontecimentos e nas suas propriedades”.
Aprende-se a abrir uma fechadura e pode perguntar-se: como se faz para abrir uma fechadura? Mas não se pode perguntar: como se faz para levantar o braço? O exercício de uma capacidade não pode resultar de um saber; não “sei” o meu corpo quando actuo, “posso”; e isto é assim porque os acontecimentos corporais que eu sei não são o que eu faço.
Ao examinar a pergunta – como sabemos que…-, Miss Anscombe imagina o caso de um arquitecto que dirigisse um projecto sem jamais ver a sua execução e o conhecesse apenas dando ordens; ou ainda o caso de alguém que escrevesse no quadro sem ver, sem olhar as letras traçadas. Em ambos os casos, temos o saber do gesto no gesto: “este conhecimento do que se faz é o conhecimento prático”; “um homem que sabe como fazer coisas tem um conhecimento prático”. É saber, já que se pode ensinar dando um exemplo do seu saber-fazer.
RICOEUR, Paul, O Discurso da Acção, 1988. Lisboa: Edições 70, pp. 30-34

2 comentários:

isabel disse...

Li as revistas Katarsis. Fiquei impressionada com a riqueza de todo esse trabalho. Não sei se na minha escola, poderíamos fazer algo semelhante. Há várias condicionantes: pouco domínio das novas tecnologias, (adorei o formato, virar as páginas...). Outra condicionante é o facto dos alunos não escreverem textos com este nível. Só poucos.
Nós às vezes pensamos que fazemos actividades interessantes com os alunos, afinal, ao ver estas revistas, encolho os ombros e questiono-me: "por onde eu andei que não aprendi nada?"
Parabéns!
Tive que mudar de computador. O outro por qualquer coisa irritante não deixa fazer comentários.

Hermes disse...

Obrigado Isabel pelas suas palavras simpáticas. O projecto Katarsis foi um projecto criado já há algum tempo pelo meu colega José Marques mas que este ano abraçámos juntos e demos-lhe novo impulso. Para o ano prometemos ainda mais novidadeds. A maioria dos textos são produzidos pelos alunos, mas nem todos: alguns são feitos por professoes. Mas os dos alunos são sempre identificados. É claro que corrigimos os textos antes de os publicar.
António Paulo