terça-feira, 27 de setembro de 2016

LÓGICA E ARGUMENTAÇÃO

A argumentação é um instrumento sem o qual não podemos compreender melhor o mundo nem intervir nele de modo a alcançar os nossos objectivos; não podemos sequer determinar com rigor quais serão os melhores objectivos a ter em mente. Os seres humanos estão sós perante o universo; têm de resolver os seus problemas, enfrentar dificuldades, traçar planos de acção, fazer escolhas. Para fazer todas estas coisas precisamos de argumentos. Será que a Terra está imóvel no centro do universo? Que argumentos há a favor desta ideia? E que argumentos há contra ela? Será que Bin-Laden é responsável pelo atentado de 11 de Setembro? Que argumentos há a favor desta ideia? E que argumentos há contra? Será que foi o réu que incendiou propositadamente a mata? Será que o aborto é permissível? Será que Cristo era um deus? Será que criamos mais bem-estar se o Estado for o dono da maior parte da economia? Será possível curar o cancro? E a Sida? O que é a consciência? Será que alguma vez houve vida em Marte? Queremos respostas a todas estas perguntas, e a muitas mais. Mas as respostas não nascem nas árvores nem dos livros estrangeiros; temos de ser nós a procurar descobri-las. Para descobri-las temos de usar argumentos. E quando argumentamos podemos enganar-nos; podemos argumentar bem ou mal. É por isso que a lógica é importante. A lógica permite-nos fazer o seguinte:
1)    Distinguir os argumentos correctos dos incorrectos;
2)    Compreender por que razão uns são correctos e outros não; e
3)    Aprender a argumentar correctamente.
Os seres humanos eram. E não erram apenas no que respeita à informação de que dispõem. Eram também ao pensar sobre a informação de que dispõem, ao retirar consequências dessa informação, ao usar essa informação na argumentação. Muitos argumentos incorrectos não são enganadores: são obviamente incorrectos. Mas alguns argumentos incorrectos parecem correctos. Por exemplo, muitas pessoas sem formação lógica aceitariam o seguinte argumento:
Tem de haver uma causa para todas as coisas porque todas as coisas têm uma causa.
Contudo, este argumento é incorrecto. A lógica ajuda-nos a compreender por que razão este argumento é incorrecto, apesar de parecer correcto. Chama-se “válido” a um argumento correcto e “inválido” a um argumento incorrecto. Do ponto de vista estritamente lógico não há qualquer distinção entre argumentos inválidos que são enganadores porque parecem válidos, e argumentos inválidos que não são enganadores porque não parecem válidos. Mas esta distinção é importante, e por isso alguns autores reservam o termo “falácia” para os argumentos inválidos que parecem válidos.[i] Como é evidente, são as falácias que são particularmente perigosas. Os argumentos cuja invalidade é evidente não são enganadores e se todos os argumentos inválidos fossem assim, não seria necessário estudar lógica para saber evitar erros de argumentação.
Há muitos aspectos da argumentação que não são estudados pela lógica; por exemplo, alguns aspectos psicológicos. Algumas pessoas aceitam argumentos inválidos pensando que são válidos; outras, recusam argumentos válidos pensando que são inválidos. Há vários tipos de factores que explicam estas atitudes: factores psicológicos, sociológicos, históricos, patológicos, etc. A lógica não estuda estes aspectos da argumentação, que são estudados pela psicologia, sociologia, história e psiquiatria.
A lógica também não estuda o que as pessoas aceitam como argumentação válida, ta como a história não estuda o que as pessoas pensam sobre o passado. A história estuda o próprio passado e não o que as pessoas pensam dele, se bem que tenha em conta o que as pessoas pensam do passado – nomeadamente para determinar se o que as pessoas pensam do passado é ou não é verdade. Do mesmo modo, a lógica não estuda o que as pessoas aceitam como argumentação válida, mas a própria argumentação válida, se bem que tenha em conta o que as pessoas aceitam como argumentação válida – nomeadamente para determinar se o que as pessoas aceitam como argumentação válida é ou não efectivamente argumentação válida.
“Argumento”, “inferência”, e “raciocínio” são termos praticamente equivalentes. Fazer uma inferência é apresentar um argumento, e raciocinar é retirar conclusões a partir de premissas. Pensar é em grande parte raciocinar. Um argumento é um conjunto de afirmações de tal forma organizadas que se pretende que uma delas, a que se chama “conclusão”, seja apoiada pelas outras, a que se chamam “premissas”.[ii] O que se pretende num argumento válido é que As suas premissas estejam de tal forma organizadas que “arrastem” consigo a conclusão. Uma boa analogia é pensar nas premissas e na conclusão como elos de uma corrente; se o argumento for válido, “puxamos” as premissas e a conclusão vem “agarrada” a elas; se for inválido, “puxamos” as premissas mas a conclusão não vem “agarrada” a elas.
Eis alguns exemplos de argumentos:
1.    Não podemos permitir o aborto porque é o assassínio de um inocente.
2.    Dado que os artistas podem fazer o que muito bem entenderem, é impossível definir arte.
3.    Considerando que sem Deus tudo é permitido, é necessária a existência de Deus para fundamentar a moral e dar sentido à vida.
4.    Se Sócrates fosse um deus, seria imortal. Mas dado que Sócrates não era imortal, não era um deus.
Nem sempre é fácil determinar qual é a conclusão e quais são as premissas de um dado argumento; mas esse é o primeiro passo para que o argumento possa ser discutido. No caso do argumento 1 a conclusão é “Não podemos permitir o aborto” e a premissa é “O aborto é o assassínio de um inocente”: No caso do argumento 2 a conclusão é “É impossível definir a arte” e a premissa é “Os artistas podem fazer o que muito bem entenderem”. O argumento 3 é mais prolixo: a conclusão é “É necessária a existência de Deus para fundamentar a moral e dar sentido à vida” e a premissa é “Sem Deus tudo é permitido”.
Para tornar a discussão de argumentos mais fácil podemos reformulá-los, separando claramente cada uma das premissas da conclusão. Chama-se “representação canónica” a esta maneira de representar os argumentos. O argumento 4 pode ser canonicamente representado como se segue:
Se Sócrates fosse um deus, seria imortal.
Sócrates não era imortal.
Logo, Sócrates não era um deus.
É evidente que esta forma de representar argumentos é artificiosa. Mas é o primeiro passo para que se possa discutir argumentos, pois só assim se torna claro quais são as premissas e qual é a conclusão. Esta forma de representar argumentos é já fruto do trabalho de análise de argumentos.
Reformular argumentos, apresentando-os na sua forma canónica é um exercício imprescindível no estudo da lógica. Claro que os argumentos dados para reformular não poderão ser demasiado complexos, pois só um especialista ou alguém já familiarizado com a lógica poderá reformular argumentos cuja estrutura seja demasiado complexa. Mas não poderão ser tão simples que surjam como artificialismos sem qualquer relação com a argumentação real que se encontra nos ensaios dos filósofos. O objectivo do estudo da lógica é desenvolver as seguintes capacidades, face a um ensaio filosófico ou outro:
1.    Identificar conclusão ou conclusão principal;
2.    Identificar as premissas, incluindo eventuais premissas implícitas;
3.    Distinguir diferentes argumentos, explícitos ou aludidos, que o ensaio apresenta.
Estas capacidades permitem discutir as ideias dos filósofos e adoptar uma posição crítica. Sem ela, resta a paráfrase e o monólogo sem rumo, a que habitualmente se chama “comentário de texto” e “problematização”.
Nos parágrafos precedentes definiu-se e caracterizou-se a lógica, definindo a noção de argumento, apresentando vários exemplos, e dando uma ideia intuitiva de argumento válido e inválido. É desta forma que tem de se proceder. Definir a lógica através da raiz etimológica da palavra “lógica” nada esclarece.  E dar exemplos d quebra-cabeças, que muitas vezes não envolvem quaisquer argumentos, mas apenas truques e trocadilhos, ´+e enganador. A lógica deve ser apresentada como o que realmente é: o estudo de alguns aspectos importantes da argumentação, que nos permite distinguir os argumentos válidos dos inválidos. A lógica não é uma espécie de “jogo simbólico” nem de “quebra-cabeças”.
Finalmente, a lógica não é o estudo das “condições de coerência” do pensamento. A lógica estuda a validade e não a coerência da argumentação. Um argumento pode ser perfeitamente coerente e ser inválido, como no exemplo seguinte:
Se a vida não é sagrada, o aborto é permissível.
Mas a vida é sagrada.
Logo, o aborto não é permissível.
Exercícios
1.    Reformule o seguinte argumento na forma canónica: “Dado que os animais não têm deveres, não têm direitos. Como os touros são animais, podemos concluir que não têm direitos.”
2.    Será que todos os textos são argumentativos? Porquê?
3.    O que é um argumento Dê alguns exemplos.



[i] Distingue-se por vezes falácias de sofismas, havendo no segundo caso intenção de enganar. Mas esta distinção é irrelevante para a compreensão da argumentação.
[ii] Um argumento só pode ter uma conclusão, mas pode ter várias premissas.


MURCHO, Desidério, O Lugar da Lógica na Filosofia, 2003. Lisboa: Plátano Editora, pp. 9-13

As disciplinas da filosofia

No que respeita à formulação de um programa de estudos, tanto para o ensino secundário como para o superior, exige-se, da parte do professor, uma visão abrangente das diferentes disciplinas da filosofia. Só essa visão permite hierarquizar quer as disciplinas quer as matérias obedecendo ao princípio simples de começar pelo mais central e intuitivo, avançando para o mais especializado e menos intuitivo. Evidentemente, tal hierarquização terá sempre um certo grau de vagueza ou oscilação, e estará sempre sujeita a revisão, de acordo com o progresso da investigação. Por exemplo, a filosofia da mente, secundária no princípio do séc. XX, assume cada vez mais importância hoje em dia. E a tese metodológica da prioridade da linguagem, que foi tão popular na filosofia de meados do séc. XX, e que tanta proeminência deu à filosofia da linguagem, é hoje recusada pela maior parte dos filósofos.
Em qualquer área de estudos, o estudante e o investigador carecem de orientação na selva luxuriante de livros e artigos existentes. Evidentemente, tal orientação, para ser de qualidade, deverá basear-se em ampla informação da parte dos professores1, e deverá ser tão objectiva quanto possível. Por exemplo, só porque a área de especialização de um professor é a metafísica da modalidade, ele não deve impor aos estudantes esta área de estudos nem os seus autores preferidos, como se fossem centrais e como se a sua disciplina favorita fosse a mais importante. Quando este tipo de falta de seriedade educativa acontece, os planos de estudos tornam-se batalhas campais, tentando cada professor, por todas as vias, impor as suas preferências. O resultado são planos de estudos aparentemente aleatórios, como acontece com os programas do ensino secundário, não obedecendo a quaisquer princípios científicos ou didácticos, mas apenas aos gostos pessoais dos seus autores, ou ao facto de alguém que é nosso amigo nos ter telefonado na véspera a «sugerir» que também o seu autor preferido, acabado de reeditar, fosse contemplado.
As disciplinas mais centrais e gerais da filosofia são as seguintes:
  • Metafísica
  • Epistemologia
  • Ética
  • Lógica
A filosofia é uma disciplina muito vasta e o espaço não permite que descrevamos, nem em geral, a maior parte dos problemas, teorias e argumentos das suas diferentes disciplinas. O que se segue é uma mera sinopse2.
A metafísica estuda problemas relacionados com os aspectos mais gerais da estrutura da realidade, nomeadamente os seguintes: a natureza da verdade; a independência do mundo relativamente à nossa experiência; a natureza da objectividade e da subjectividade; a identidade pessoal; o livre-arbítrio; o sentido da vida; a natureza da modalidade e a existência de mundos possíveis; a identidade, a persistência e a substância dos objectos; acontecimentos e substâncias; universais e particulares; a noção de causalidade e de lei da natureza; problemas conceptuais do espaço e do tempo. A ontologia é a parte da metafísica que estuda a existência ou o que há: que tipo de existência têm os números, ou os universais? Que tipo de existência tem um acontecimento ou uma proposição? Os temas introdutórios mais comuns3 no que respeita à metafísica são a identidade pessoal, o livre-arbítrio e a persistência dos objectos.
A epistemologia estuda problemas relacionados com o conhecimento em geral, nomeadamente os seguintes: a análise de conhecimento como crença verdadeira justificada; a estrutura da justificação cognitiva (fundacionalismo, coerentismo, externalismo, teorias causais, etc.); o problema do cepticismo; fontes de conhecimento (conhecimento a priori e a posteriori, indução, testemunho, etc.). Os temas introdutórios mais comuns no que respeita à epistemologia são a análise de conhecimento, as teorias da justificação (fundacionismo e coerentismo) e o problema do cepticismo.
A ética (ou a filosofia moral4) estuda problemas relacionados com o modo como devemos viver e com o que devemos valorizar. A ética abrange três áreas ou subdisciplinas distintas: a metaética, a ética normativa e a ética aplicada. A metaética estuda problemas mais abstractos, relacionados com a natureza da própria ética; a ética normativa estuda diferentes sistemas éticos; e a ética aplicada estuda problemas práticos, como o aborto ou a eutanásia. Eis alguns problemas da ética em geral: o egoísmo (ético e psicológico); a Regra de Ouro; a natureza da normatividade e da razão prática; a objectividade do juízo ético; responsabilidade moral, deliberação e decisão; acrasia; relativismo ou realismo éticos; a incomensurabilidade de valores. Algumas das teorias normativas mais importantes são a teoria das virtudes, o utilitarismo e a ética deontológica. Alguns dos problemas mais estudados em ética aplicada são os seguintes: o aborto, a eutanásia, o estatuto moral dos animais não humanos, a ética do meio ambiente e o problema ético da pobreza no mundo. A ética aplicada deu entretanto origem a várias subdisciplinas próprias, como a ética empresarial, a ética jornalística, a ética médica, a bioética em geral, a ética universitária, etc. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita à ética prática são o aborto, a eutanásia e os direitos dos animais; no que respeita à ética normativa, esses temas são o utilitarismo, a ética de Kant e o egoísmo; e no que respeita à metaética o tema mais comum é o relativismo ético.
A lógica estuda e sistematiza a argumentação válida. A lógica tornou-se uma disciplina praticamente autónoma em relação à filosofia, graças ao seu elevado grau de precisão e tecnicismo. Hoje em dia, é uma disciplina que recorre a métodos matemáticos, e os lógicos contemporâneos têm em geral formação matemática. Todavia, a lógica elementar que se costuma estudar nos cursos de filosofia é tão básica como a aritmética elementar e não tem elementos matemáticos. A lógica elementar é usada como instrumento pela filosofia, para garantir a validade da argumentação.
Quando a filosofia tem a lógica como objecto de estudo, entramos na área da filosofia da lógica, que estuda os fundamentos das teorias lógicas e os problemas não estritamente técnicos levantados pelas diferentes lógicas. Hoje em dia há muitas lógicas além da teoria clássica da dedução de Russell e Frege (como as lógicas livres, modais, temporais, paraconsistentes, difusas, intuicionistas, etc.), o que levanta novos problemas à filosofia da lógica.
A filosofia da lógica distingue-se da lógica filosófica, que não estuda problemas levantados por lógicas particulares, mas problemas filosóficos gerais, que se situam na intersecção da metafísica, da epistemologia e da lógica. São problemas centrais de grande abrangência, correspondendo à disciplina medieval conhecida por «Lógica & Metafísica», e abrangendo uma parte dos temas presentes na própria Metafísica, de Aristóteles: a identidade de objectos, a natureza da necessidade, a natureza da verdade, o conhecimento a priori, etc. Precisamente por ser uma «subdisciplina transdisciplinar», o domínio da lógica filosófica é ainda mais difuso do que o das outras disciplinas. Para agravar as incompreensões, alguns filósofos chamam «lógica filosófica» à filosofia da lógica (e vice-versa). Em qualquer caso, o importante é não pensar que a lógica filosófica é um género de lógica, a par da lógica clássica, mas «mais filosófica»; pelo contrário, e algo paradoxalmente, a lógica filosófica, não é uma lógica no sentido em que a lógica clássica é uma lógica, isto é, no sentido de uma articulação sistemática das regras da argumentação válida.
A lógica informal estuda os aspectos da argumentação válida que não dependem exclusivamente da forma lógica. O tema introdutório mais comum no que respeita à lógica é a teoria clássica da dedução (lógica proposicional e de predicados, incluindo formalizações elementares da linguagem natural); a lógica aristotélica é por vezes ensinada, a nível universitário, como complemento histórico e não como alternativa à lógica clássica.
O grupo seguinte de disciplinas da filosofia são menos centrais do que as anteriores:
  • Filosofia da religião
  • Filosofia política
  • Estética e filosofia da arte
  • Filosofia da ciência
  • Filosofia da mente
  • Filosofia da linguagem
Afirma-se que uma disciplina como a ética, por exemplo, é mais central do que a filosofia política, por exemplo, porque de algum modo a filosofia política estuda problemas éticos específicos da vida numa sociedade politicamente organizada, tal como a filosofia da ciência estuda aspectos metafísicos, lógicos e epistemológicos da ciência. Evidentemente, a distinção entre estes dois grupos de disciplinas é algo vaga: não há critérios de diferenciação que permitam traçar uma fronteira nítida. Mas a ausência de fronteira clara não é a ausência clara de fronteira.
A filosofia da religião estuda temas como os seguintes: argumentos a favor e contra a existência de Deus, como os argumentos ontológico, do desígnio ou cosmológico, e o problema do mal; a racionalidade e a epistemologia da fé; a natureza de Deus e as suas propriedades; filosofia da linguagem religiosa; a ideia de alma e de imortalidade. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta disciplina são os argumentos a favor de Deus e as suas críticas, o problema do mal e o fideísmo.
A filosofia política estuda o modo como podemos viver em sociedade e o modo como devemos fazê-lo, o que levanta problemas como os seguintes: a justificação do estado e da obrigação política; a justificação do anarquismo; a natureza da justiça; a justificação da democracia; a igualdade; o liberalismo político, a liberdade e os mercados livres; a propriedade privada; os direitos naturais; o problema da punição. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta disciplina são o problema da justificação do estado, as teorias contratualistas e a liberdade.
A estética e a filosofia da arte são subtilmente distintas, mas hoje em dia estuda-se sobretudo a última. A estética estuda a natureza do juízo estético em geral; a filosofia da arte estuda problemas como a definição de obra de arte e o valor da arte. O tema introdutório mais comum no que respeita a esta disciplina é a definição de obra arte, estudando-se em geral as várias teorias que respondem a este problema.
A filosofia da ciência estuda aspectos epistemológicos, metafísicos e lógicos relacionados com as ciências em geral, incluindo as ciências da natureza e as ciências humanas. Eis alguns dos temas estudados nesta disciplina: a relação entre teoria e observação; a confirmação de teorias científicas; a interpretação da probabilidade; a noção de explicação científica e de leis da natureza; realismo e anti-realismo científicos; incomensurabilidade de teorias; o estatuto dos inobserváveis; unidade e diversidade das ciências. A filosofia das ciências tem dado origem a várias subdisciplinas especializadas: filosofia da biologia, filosofia da física, filosofia das ciências humanas e filosofia da história. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta disciplina são a relação entre observação e teoria, o problema da confirmação (indutivismo e falsificacionismo), realismo e anti-realismo científicos, e o problema da demarcação (entre ciências e não ciências).
A filosofia da mente estuda problemas metafísicos e epistemológicos relacionados com os fenómenos mentais. Eis alguns dos temas estudados nesta disciplina: a relação mente-corpo — fisicalismo, dualismo, funcionalismo; o problema da causalidade mental; a existência de mentes alheias (o problema do solipsismo); o valor da introspecção e a autoridade da primeira pessoa com respeito aos seus estados mentais; os fenómenos mentais: consciência e experiência, qualia, conteúdo perceptivo; intencionalidade e atitudes proposicionais; internalismo e externalismo mental; o papel e a natureza das emoções; a natureza da acção; acrasia. Tanto a filosofia da linguagem como a metafísica e a filosofia da psicologia estão intimamente relacionadas com a filosofia da mente. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta disciplina são as teorias fisicalistas, dualistas e funcionalistas sobre o problema da mente-corpo e o problema do solipsismo.
A filosofia da linguagem estuda todos os problemas relacionados com o funcionamento da linguagem e o fenómeno do significado linguístico. Eis alguns dos temas desta disciplina: a natureza do significado — significado, verdade e realismo, indeterminação; pragmática; a natureza do conhecimento do significado e das regras linguísticas; o problema da referência: indexicais e demonstrativos, nomes próprios, descrições definidas, quantificação e anáfora; atitudes proposicionais; sentido, força e modo; advérbios e quantificação sobre acontecimentos; a distinção entre diferentes línguas, linguagens e idiolectos; o significado das metáforas. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta disciplina são as teorias da referência e as descrições definidas.
Disciplinas decididamente menos centrais e mais especializadas, sendo muitas vezes subdisciplinas das anteriores, são as seguintes:
  • Filosofia da acção e filosofia da psicologia — Partes próprias da filosofia da mente, da filosofia da ciência e da metafísica.
  • Filosofia do direito — Parte própria da filosofia política e da ética.
  • Filosofia das ciências humanas — Parte própria da filosofia da ciência.
  • Filosofia da matemática — Parte própria da metafísica, epistemologia e filosofia da linguagem.
A história da filosofia está sempre presente no estudo das diferentes disciplinas filosóficas sumariamente apresentadas acima. Ao estudar as diferentes disciplinas filosóficas, verifica-se que muitos dos problemas, teorias e argumentos foram originalmente estudados por autores clássicos como Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes, Hume, Leibniz, Kant, Russell, Frege, Wittgenstein, etc. Por exemplo, ao estudar ética deontológica discutem-se ideias clássicas de Kant, mas também as contemporâneas; ao estudar o problema da definição de conhecimento discutem-se ideias de Platão, mas também as ideias contemporâneas.
No estudo directo da história da filosofia discute-se explicitamente o pensamento dos autores clássicos mais importantes, dos pré-socráticos à actualidade. O estudo introdutório da história da filosofia é também tematicamente orientado. Dado que não se pode ter a veleidade de estudar todos os aspectos do pensamento de todos os principais filósofos clássicos, é comum escolher as contribuições filosóficas mais significativas dos principais filósofos, estudando-se apenas esses aspectos. Isto, por sua vez, implica a capacidade para transmitir ao estudante os problemas, as teorias e os argumentos filosóficos que estão em causa e que tornam essas contribuições filosoficamente significativas. Por exemplo, para estudar o Teeteto, de Platão, é necessário explicar, tirando partido do entendimento que hoje temos das coisas, o que é o problema da definição de conhecimento. É por esta razão que não se pode estudar história da filosofia sem dominar a própria filosofia: a filosofia é prévia à sua história. E como deveria ser evidente, estudar um problema do ponto de vista do próprio autor implicaria nunca avançar na compreensão das coisas; seria como estudar a poesia de Camões da perspectiva de Camões, sem todo o conhecimento que entretanto ganhámos da poesia: um exercício fútil.

Notas

1 O bom professor lê abundantemente, para poder escolher, do que leu, o que se adequa ao estudante e é central para a formação deste.
2 Para uma visão mais completa sugere-se a consulta de London Philosophy Study Guide, preparado colectivamente pelos departamentos de filosofia da Universidade de Londres (Londres, 2001), e disponível gratuitamente em
3 Isto é, os que costumam ser leccionados em cursos de licenciatura de algumas das melhores universidades, e os que surgem em alguns dos melhores livros introdutórios. A escolha destes temas introdutórios não é aleatória: corresponde ao facto de se tratar de temas centrais mais intuitivos, que o estudante que dá os primeiros passos na disciplina mais facilmente compreende, e que, por serem centrais, são estruturantes.
4 Faz-se por vezes uma distinção vaga e confusa entre ética e moral, que não tem qualquer relevância teórica ou didáctica, obscurecendo mais do que esclarecendo.
Retirado do livro Renovar o Ensino da Filosofia (Lisboa: Gradiva, 2003).

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O que é estudar filosofia?

A filosofia é diferente de muitas outras disciplinas das Letras porque para estudar filosofia é necessário fazer filosofia. Para ser um historiador de arte, não é necessário pintar; para estudar poesia, não é necessário ser um poeta; e podemos estudar música sem tocar um instrumento. Contudo, para estudar filosofia é necessário que nos entreguemos à argumentação filosófica (argumentar é apresentar razões ou indícios que conduzem a uma conclusão). Não se trata de operar ao nível dos grandes filósofos do passado; mas quando se estuda filosofia faz-se o mesmo tipo de coisa que eles fizeram. Podemos jogar futebol sem chegar ao nível do Pelé, e podemos obter muita satisfação intelectual filosofando sem a originalidade ou o brilhantismo de Wittgenstein. Mas em ambos os casos será necessário desenvolver algumas das competências usadas pelos grandes praticantes. Essa é uma das razões pelas quais a filosofia pode ser uma área de estudos imensamente compensadora.
A palavra "filosofia" deriva do grego "amor da sabedoria". Mas isto não é particularmente útil para a compreensão do modo como a palavra é agora usada. A filosofia é uma disciplina nuclear relativamente à maior parte dos cursos de humanidades. Centra-se em questões abstractas como "Será que Deus existe?", "Será o mundo realmente como nos parece que é?", "Como devemos viver?", "O que é a arte?", "Teremos uma liberdade de escolha genuína?", "O que é a mente?", e assim por diante.
Estas questões muito abstractas podem surgir na nossa experiência quotidiana. Algumas pessoas fazem uma caricatura da filosofia como se fosse uma disciplina sem relevância para a vida, uma disciplina para estudar em casa unicamente por satisfação intelectual, o equivalente académico de fazer palavras cruzadas. Mas isto é uma representação gravemente errada de grande parte da disciplina. Por exemplo, o caloroso debate sobre se o boxe deve ser proibido só pode responder-se enfrentando questões abstractas importantes. Quais são os limites aceitáveis da liberdade individual num país civilizado? Quais são as justificações para o paternalismo, para forçar as pessoas a comportar-se de uma certa forma para o seu próprio bem? Por outras palavras, este debate não é apenas sobre reacções emocionais ao boxe; depende antes de pressupostos filosóficos fundamentais (um pressuposto é uma afirmação a favor da qual não se avança qualquer argumento; uma afirmação que se aceita para permitir a argumentação).
A análise de razões e argumentos é uma área própria da filosofia. De facto, se a filosofia tem um método distintivo, é este: a construção, crítica e análise de argumentos. As competências filosóficas são aplicáveis em qualquer área em que os argumentos sejam importantes, e não apenas nos domínios da especulação abstracta. São particularmente úteis quando se escreve ensaios, dado que se espera habitualmente que se defenda conclusões, e não apenas que as afirmemos. Por esta razão, uma formação básica em filosofia é extremamente importante, seja qual for a disciplina académica que se tenha em mente seguir.
Nigel Warburton
Tradução de Desidério Murcho
Original: http://www.open.ac.uk/Arts/philos/whatis.html

A IMPORTÂNCIA DO RUÍDO

Quando os filósofos ou as pessoas em geral defendem ideias não apresentam os seus argumentos sob a forma canónica. Vejamos o seguinte exemplo:
É evidente que a vida é absurda. Nem se compreende como é possível pensar outra coisa. Se a vida não fosse absurda, não haveria tanto sofrimento. Pense-se só nos terramotos, cheias, secas, fome, doenças, etc. Por outro lado, se for tudo uma ilusão, a vida é absurda. Isto porque ou é verdade que o sofrimento existe ou então é tudo uma ilusão.
Uma formulação canónica do argumento é a seguinte:

Ou o sofrimento existe ou é tudo uma ilusão.
Se a vida não for absurda, não haverá sofrimento.
Se tudo for uma ilusão, a vida é absurda.
Logo, a vida é absurda.

Repare-se no “ruído” que acompanha o argumento tal como foi formulado originalmente. Por “ruído” entende-se todo o que não desempenha qualquer papel lógico no argumento, em nada contribuindo para a sua validade.[1] É muito importante dar atenção ao “ruído” no estudo da lógica, pois este está geralmente presente nos argumentos reais, e é necessário saber detectá-lo e eliminá-lo. Evidentemente, é necessário que os níveis de ruído a introduzir nos exercícios sejam progressivamente maiores, à medida que se aprende a analisar melhor a argumentação.
Não há receitas automáticas para determinar o que é ruído e o que não é. Mas a importância de saber distinguir o essencial do acessório não podia ser maior, sobretudo se queremos saber argumentar – condição sem a qual não poderemos intervir de forma rigorosa em qualquer tipo de discussão.
Exercício
1.    Formule o seguinte argumento na sua forma canónica, eliminando o ruído: “Será que devemos prender o inocente bode expiatório para acalmar uma multidão em fúria, que ameaça violência em massa? A resposta é evidente para qualquer pessoa sensata. Contudo se formos utilitaristas, termos de dizer que sim, pois feitas as contas as consequências de prender um inocente são preferíveis ao que pode fazer uma multidão em fúria. Isto é de tal modo absurdo que constitui, por si, uma refutação ao utilitarismo.

MURCHO, Desidério, O Lugar da Lógica na Filosofia, 2003. Lisboa: Plátano Editora, pp. 13-14


[1] Mas dando muitas vezes a impressão contrária – daí que seja necessário aprender a eliminar o ruído: para conseguir pensar quando o ruído é um convite para parar de pensar e aceitar o que o autor quer.

domingo, 25 de setembro de 2016

PROPOSIÇÕES

A lógica estuda a relação entre as premissas e a conclusão. Mas o que são exactamente as premissas e as conclusões? Usam-se frases para especificar as premissas e as conclusões, nos exemplos dados, mas a premissas e as conclusões não são frases. Isto acontece porque podemos tomar um argumento dos nossos exemplos, traduzi-lo para servo-croata e ficamos com o mesmo argumento expresso em línguas diferentes. Uma vez que o argumento é o mesmo, ao passo que as frases usadas para exprimir as premissas e a conclusão são diferentes, as premissas e a conclusão não podem ser frases; são antes o que é expresso pelas frases. Usaremos a noção de proposição para referir o que uma frase portuguesa e a sua tradução noutra língua têm em comum: diremos que ambas as frases exprimem a mesma proposição. Esta noção de proposição aplica-se também no domínio de uma mesma língua. Por exemplo, percebe-se que “Bruto apunhalou César” e “César foi apunhalado por Bruto” têm o mesmo significado e podemos transmitir esta ideia, dizendo que exprimem a mesma proposição.
As proposições são veículos para enunciar como as coisas são ou como poderiam ter sido. Assim, só as frases indicativas das quais faça sentido dizer que são verdadeiras ou falsas podem exprimir proposições. As frases interrogativas não enunciam como as coisas poderiam ter sido – perguntam antes como são as coisas; como tal, não exprimem proposições. O mesmo acontece com a s frases imperativas, que prescrevem que as coisas sejam de certa maneira.
As frases indicativas podem ser ambíguas. Considere-se a frase “as vacas não gostam de erva”. Esta frase poderia ser usada para exprimir a falsidade de as vacas não gostarem do que cresce nos campos. Ou poderia ser usada para exprimir a verdade de as vacas não gostarem de marijuana. Descreveremos como ambiguidade semântica o tipo de ambiguidade que resulta do facto de uma palavra de uma frase ter mais de um significado. Uma frase semanticamente ambígua pode ser usada para exprimir mais de uma proposição. Geralmente, percebe-se pelo contexto qual das proposições se pretende exprimir quando uma dessas frases é usada. Com o objectivo de investigar de forma rigorosa os argumentos, queremos usar uma frase que não seja ambígua para exprimir que o locutor queria dizer com a frase ambígua.
Considere-se esta frase: toda a gente gosta de um marinheiro. Nenhuma palavra desta frase é ambígua – no entanto, a frase é ambígua. Poderia ser usada para afirmar que toda a gente gosta de um marinheiro (não necessariamente o mesmo), ou que toda a gente gosta de marinheiros. Chamar-se-á a ambiguidades deste tipo ambiguidades sintácticas. Em geral, estas ambiguidades podem ser resolvidas reescrevendo a frase ambígua de maneira a originar duas frases com palavras ordenadas de forma diferente e, possivelmente, também com diferentes pontuações e/ou diferentes palavras. O exemplo acima pode ser desambiguado como se segue:

Toda a gente gosta de um marinheiro qualquer.
Toda a gente gosta de marinheiros.

Introduzimos as proposições como o que as frases exprimem e vimos que, no caso de frases ambíguas, não podemos dizer a partir da própria frase o que se está a exprimir. Temos de olhar para o contexto para determinar o que o locutor queria dizer. Se uma frase contém demonstrativos (isto, aquilo, etc.), pronomes pessoais (eu, ele, ela, etc.) ou palavras como aqui e agora, teremos de olhar para o contexto para determinar o que é expresso. Por exemplo, se o leitor usar a frase “Estou com dores” e eu usar a mesma frase, não exprimimos a mesma coisa. O leitor estará a dizer que uma certa pessoa, nomeadamente você, está com dores e eu direi que outra pessoa diferente, nomeadamente eu, está com dores. Captar a proposição expressa por uma frase exige não apenas que se capte os significados das palavras usadas, mas também o que é referido através das palavras como eu.
As proposições são itens abstractos. Os lógicos interessam-se pela relação entre umas proposição ou um conjunto de proposições – a(s) premissa(s) – e uma outra proposição – a conclusão – de um argumento. Isto é susceptível de fazer com que a sua profissão apareça divorciada da actividade humana pois lidam com coisas abstractas, como as proposições. Esta impressão é enganadora e uma maneira de o perceber é considerar o fenómeno da crença. Considere-se Icabod, que acredita que os reis têm o direito divino de governar. Podemos concentrar-nos no seu estado psicológico – o de acreditar em vez de, digamos, desejar que os reis tenham o direito divino de governar. Nesse caso, podemos perguntar há quanto tempo acredita Icabod nisso; talvez essa crença tenha emergido quando estudou história britânica em Oxford. Ou podemos concentrar-nos no conteúdo da sua crença – naquilo em ele acredita. O conteúdo da sua crença exprime-se através da frase “Os reis têm o direito divino de governar”. Podemos encarar a crença como uma relação entre uma pessoa e o que é expresso por uma frase – nomeadamente, uma proposição. Assim, aquilo em que acreditamos e aquilo de que tratamos em lógica são a mesma coisa: proposições.
Podemos levar esta conexão entre a lógica e a crença um pouco mais longe. Um argumento válido é um argumento no qual, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão será também verdadeira. Se alguém acreditar nas proposições que constituem as premissas de um argumento, estará obrigado a acreditar na sua conclusão. É claro que por vezes algumas pessoas não acreditarão na conclusão, ainda que acreditem nas premissas, por não perceberem que aquela se segue validamente destas. Temos, por isso, de reformular a conexão: não é racional acreditar nas premissas de um argumento válido e não acreditar na conclusão. A lógica está então relacionada com a muito humana actividade da crença, fornecendo um instrumento para avaliar um aspecto da racionalidade das crenças. Mas não se deve alimentar expectativas excessivamente altas. A lógica não é um instrumento para determinar aquilo em que é racional acreditar. Mas diz-nos, pelos menos, que outras crenças para determinar a racionalidade que devemos ter, se tivermos certas crenças.
NEWTON-SMITH, W. H., Lógica um Curso Introdutório, 2ª edição, 2005. Lisboa: Gradiva, pp. 22-25

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O QUE É A LÓGICA?

Tudo na natureza, tanto no mundo inanimado como no animado, acontece segundo regras, embora nem sempre conheçamos estas regras. – A chuva cai segundo leis da gravidade, e também segundo regras tem lugar nos animais o movimento do andar. Segundo regras se move o peixe na água e a ave no céu. A natureza inteira nada mais é, em geral, do que uma concatenação de fenómenos segundo regras; e em toda a parte não existe em geral irregularidade alguma. E se julgamos encontrá-la, podemos neste caso apenas dizer que as regras nos são desconhecidas.
Também o exercício das nossas faculdades decorre de acordo com certas regras que seguimos, primeiro delas inconscientemente, até que, pouco a pouco, mediante experiências e um longo uso das nossas faculdades, chegamos ao seu conhecimento, e das mesmas nos tornamos, por fim, tão familiares que nos é exigido um grande esforço para as pensar in abstracto. (…) Fala-se sem conhecer a gramática; e aquele que fala, sem a conhecer, tem realmente uma gramática e fala segundo regras, mas delas não é consciente. (…) Estas regras podem, pois, considerar-se também a priori, ou seja, independentemente de toda a experiência, porque contêm apenas, sem distinção dos objectos, as condições do uso do entendimento em geral, seja ele puro ou empírico. E daqui se segue, ao mesmo tempo, que as regras gerais e necessárias do pensar se podem referir unicamente à sua forma, e de nenhum modo à sua matéria. A ciência destas regras universais e necessárias é, pois, tão-pouco uma ciência da forma do nosso conhecimento intelectual ou do pensar. Podemos, por conseguinte, fazer para nós uma ideia da possibilidade de semelhante ciência, tal como a fazemos de uma gramática geral, que nada mais contém do que a simples forma da linguagem em geral, sem palavras, que pertencem à matéria da língua. A esta ciência das leis necessárias do entendimento e da razão em geral ou – o que é a mesma coisa – da simples forma do pensar em geral, chamamos lógica.

KANT, I. Lógica, trad. Artur Morão, in www.lusosofia.net

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O PODER LÓGICO DA RAZÃO

Não imaginam o poder lógico da razão. Vejamos alguns exemplos desse poder.
Será que podemos provar racionalmente a existência de Deus?
S. Anselmo, um filósofo e teólogo medieval (século XI) legou-nos uma prova racional da existência de Deus, que ficou conhecido por Argumento Ontológico. O seu argumento diz-nos mais ou menos o seguinte: Deus é (por definição) o maior ser concebível – ou, numa famosa expressão de malabarismo mental, o Ser maior do que o qual nada pode ser concebido. Mas entre as perfeições que o maior Ser concebível teria de ter está a existência, visto que, se Deus carecesse de existência não seria o Ser maior do que o qual nada pode ser concebido, mas essa é a definição de Deus e, por consequência, Deus tem de existir.
Parece que realmente podemos provar a existência de Deus. E será que podemos provar a existência do mundo exterior?
Imagina uma situação em que as coisas que vês não correspondem a objectos tridimensionais, onde não existe, não obstante a sua crença irresistível, nenhum mundo físico mobilado de coisas tangíveis, como o Sol, como as rãs verdes ou as escovas de dentes. Imagina, por exemplo, que és um cérebro flutuando numa cuba. Não um cérebro morto num frasco de formol, mas um cérebro mantido em estado de funcionamento, graças a uma solução química. Um cientista louco extraiu-te o cérebro da caixa craniana sem o teu conhecimento, e o resto do corpo foi incinerado. Para te criar a ilusão de que nada mudou, o cientista louco ligou o teu cérebro a um computador que lhe envia impulsos eléctricos via eléctrodos ligados às suas terminações nervosas, que o teu cérebro, como se nada se passasse, se apressa a traduzir em imagens, sons, odores, impressões tácteis e gustativas. O processo é interactivo, tu tens a impressão de poder continuar a agir sobre o mundo. Do teu ponto de vista, continuas a ter a mesma vida, as tuas actividades e percepções são as mesmas, sem que nada destas actividades e percepções corresponda à realidade, no sentido que habitualmente damos a esta palavra. Poderás ir dar uma volta, se assim o desejares, regar as plantas, dar de comer ao gato, aproveitar as férias para se banhar na água azul, de bronzear-se enquanto lê uma obra filosófica contemporânea que descreve a hipótese de um cérebro numa cuba. O supercomputador-prótese funciona às mil maravilhas: tu és mais um homem entre os homens, pelo menos um ser vivo, uma coisa do mundo entre as coisas do mundo.
Pensávamos que a existência de Deus era racionalmente questionável mas que a existência do mundo exterior era algo sólido como uma pedra, contudo a razão parece-nos dizer que podemos estar mais seguros da existência de Deus do que da existência do nosso vizinho. As divindades são mais certas do que as mesas e as cadeiras!
Será mesmo assim?

FERRET, Stéphane, Aprender com as Coisas – uma iniciação à filosofia, 1ª edição, 2007. Lisboa: Edições Asa, pp. 17-18 

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A ética de John Stuart Mill



1. O princípio da maior felicidade

O utilitarismo é um tipo de ética consequencialista. O seu princípio básico, conhecido como o Princípio da Utilidade ou da Maior Felicidade, é o seguinte: a acção moralmente certa é aquela que maximiza a felicidade para o maior número. E deve fazê-lo de uma forma imparcial: a tua felicidade não conta mais do que a felicidade de qualquer outra pessoa. Saber por quem se distribui a felicidade é indiferente. O que realmente conta e não é indiferente é saber se uma determinada acção maximiza a felicidade. Saber se a avaliação moral de uma acção a partir do Princípio da Maior Felicidade depende das consequências que de facto tem ou das consequências esperadas é um aspecto da ética de Mill que permanece em aberto.

O que é a ciência?



A ciência tem de envolver mais do que a mera catalogação de factos e do que a descoberta, através da tentativa e erro, de maneiras de proceder que funcionam. O que é crucial na verdadeira ciência é o facto de envolver a descoberta de princípios que subjazem e conectam os fenómenos naturais.
Apesar de concordar completamente que devemos respeitar a visão do mundo de povos indígenas não europeus, não penso que coisas como a astronomia maia, a acupunctura chinesa, etc., obedeçam à minha definição. O sistema ptolemaico de epiciclos alcançou uma precisão razoável ao descrever o movimento dos corpos celestes, mas não havia qualquer teoria propriamente dita subjacente ao sistema. A mecânica newtoniana, pelo contrário, não apenas descrevia os movimentos dos planetas de modo mais simples, conectava o movimento da Lua com a queda da maçã. Isto é verdadeira ciência, pois revela coisas que não podemos saber de nenhuma outra maneira.

sábado, 26 de janeiro de 2013

A tese céptica de Hume acerca da indução



A todo o momento formas expectativas acerca de como será o futuro ou sobre que generalizações (afirmações com a forma "Todos os As são B") são verdadeiras com base em dados que não são dedutivamente conclusivos. As tuas crenças acerca do futuro baseiam-se na percepção e na memória, mas não podes deduzir como será o futuro de premissas que descrevem o presente e o passado.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Dois egoísmos



De acordo com a teoria do egoísmo psicológico, as pessoas agem sempre apenas em função do seu interesse pessoal. Segundo a teoria do egoísmo ético, as pessoas devem agir sempre apenas em função do seu interesse pessoal. Enquanto que o egoísmo psicológico é uma teoria puramente descritiva sobre o comportamento humano, o egoísmo ético é uma teoria normativa.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A POSSIBILIDADE DO CONHECIMENTO



Será que sabemos o que julgamos saber? Muitas vezes descobrimos que uma coisa que pensávamos que sabíamos afinal era uma ilusão ou um engano nosso. Por exemplo, pensávamos que eram cinco horas da tarde quando afinal já eram seis e meia. Como poderemos então distinguir o que sabemos realmente do que apenas pensamos – erradamente – que sabemos? Para mostrar que uma crença, além de verdadeira, é realmente conhecimento, é necessário mostrar que essa crença está justificada. E este é o problema da possibilidade do conhecimento. Será possível justificar as crenças que pensamos que constituem conhecimento?

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O RELATIVISMO CULTURAL



O meu nome é Ana Relativista. Aderi ao relativismo cultural ao compreender a profunda base cultural que suporta a moralidade.
Fui educada para acreditar que a moral se refere a factos objetivos. Tal como a neve é branca, também o infanticídio é um mal. Mas as atitudes variam em função do espaço e do tempo. As normas que aprendi são as normas da minha própria sociedade; outras sociedades possuem diferentes normas. A moral é uma construção social. Tal como as sociedades criam diversos estilos culinários e de vestuário, também criam códigos morais distintos. Aprendi-o ao estudar antropologia e vivi-o no México quando estive lá a estudar.
Considere a minha crença de que o infanticídio é um mal. Ensinaram-me isto como se se tratasse de um padrão objetivo. Mas não é; é apenas aquilo que defende a sociedade a que pertenço. Quando afirmo "O infanticídio é um mal" quero dizer que a minha sociedade desaprova essa prática e nada mais. Para os antigos romanos, por exemplo, o infanticídio era um bem. Não tem sentido perguntar qual das perspetivas é "correta". Cada um dos pontos de vista é relativo à sua cultura, e o nosso é relativo à nossa. Não existem verdades objetivas acerca do bem ou do mal. Quando dizemos o contrário, limitamo-nos a impor a nossas atitudes culturalmente adquiridas como se se tratassem de "verdades objetivas".

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

CONHECIMENTO A PRIORI



O conhecimento a posteriori e a priori são modalidades epistémicas. Uma proposição é conhecível a priori se, e só se, pode ser conhecida sem o concurso da experiência empírica. Assim, 2 + 2 = 4 é uma proposição conhecível a priori porque posso conhecê-la recorrendo unicamente ao pensamento. Mas para saber que a água é H2O tenho de me socorrer da experiência empírica – não posso fazê-lo recorrendo unicamente ao pensamento. Dada a definição de analiticidade, é fácil perceber que todas as frases analíticas exprime proposições conhecíveis a priori. Pois se para saber o valor de verdade de uma frase analítica basta reflectir sobre o significado das palavras e a sintaxe da frase, isso significa que não é necessário recorrer à experiência empírica para identificar como verdadeira a proposição expressa.

sábado, 5 de janeiro de 2013

CONHECIMENTO



O leitor tem várias crenças. Mas quais das suas crenças é conhecimento, se é que alguma o é?
O que é o conhecimento?
O conhecimento não é mera crença. Se o leitor acreditar e afirmar que sabe algo e alguém acreditar e afirmar que sabe o oposto, então pelo menos um de vós tem de estar enganado. Quando duas pessoas acreditam em coisas contraditórias não podem ambas saber aquilo que afirmam saber. Pois uma das duas crenças tem de ser falsa. Acreditar meramente em algo, não importa quão ardentemente, não faz disso uma verdade. Para que se saiba algo, não temos somente de acreditar nisso; isso também tem de ser verdade. Mas será isto tudo o que é requerido? É o conhecimento mera crença verdadeira?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

ÉTICA E SUBJETIVISMO



Chamo-me Ana Subjetivista; mas, dado a minha colega também se chamar "Ana", habitualmente tratam-me por "Sub". Adotei o subjetivismo ao compreender que a moral é profundamente emocional e pessoal.
O ano passado frequentei com alguns amigos um curso de antropologia. Acabámos por aceitar o relativismo cultural – a perspetiva de que o bem e o mal são relativos a cada cultura, que "bem" significa "socialmente aprovado". Mais tarde, descobri que o relativismo cultural enfrenta um problema, nomeadamente o de nos negar a liberdade para formarmos os nossos próprios juízos morais. Sucede que a liberdade moral é algo a que atribuo muita importância.
O relativismo cultural obriga-me a aceitar todos os valores da sociedade. Admitamos que descobri que a maior parte das pessoas aprova ações racistas; terei então de concluir que o racismo é um bem. Estaria a contradizer-me se dissesse "O racismo é socialmente aprovado embora não seja um bem". Como o relativismo cultural impõe as respostas do exterior, negando a liberdade de pensamento em questões morais, passei a considerá-lo repulsivo.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

QUEM PRECISA DA ÉTICA?



Porque é que não basta seguirmos os nossos sentimentos, ou “seguir o instinto”, quando pensamos no que deveríamos fazer, ou como deveríamos viver?
Os sentimentos são essenciais, como é evidente. Uma vida sem amor, agitação e até mesmo dor não é vida. Nenhuma ética em consonância com a vida é capaz de o negar. Só que os sentimentos não são tudo. Podem ser o começo, mas não são o fim. Também deve haver um cerro tipo de pensamento.
Vejamos o caso do preconceito. Ser preconceituoso é ter um forte sentimento negativo em relação a alguém pertencente a uma diferente etnia, sexo, idade, classe social, etc. Se a ética fosse apenas uma questão de sentimentos, nada haveria a dizer contra tais preconceito. Seria perfeitamente moral discriminar pessoas das quais não gostássemos.
O instinto diz que sim. A ética diz que não. Em contrapartida, a ética pode desafiar estes mesmos sentimentos. “Preconceito” quer literalmente dizer “pré-conceito”: é uma forma de não prestar realmente atenção. Mas é preciso prestar atenção. É preciso perguntarmo-nos porque é que nos sentimos de determinada maneira, se as nossas convicções e sentimentos são verdadeiros ou justos, como nos sentiríamos na pele de outra pessoa, e assim por diante. Em resumo, precisamos de nos perguntar se os nossos sentimentos se justificam e, quando não, que sentimentos alternativos os deveriam substituir.
Assim, a ética pede para pensarmos cuidadosamente, até mesmo sobre sentimentos que podem ser muito fortes. A ética pede para vivermos atentamente: preocuparmo-nos com o modo como agimos e até mesmo como sentimos.
WESTON, Anthony, Ética para o dia-a-dia, 1ª edição, Lisboa, Ésquilo, 2002, pp. 15-16