sexta-feira, 27 de junho de 2008

A NOITE ESTRELADA (1889)

“ Experimento uma terrível clareza em momentos que a natureza é tão linda. Perco a consciência de mim e os quadros vêm como em sonho.”
Vincent Van Gogh

Há um quadro do pintor holandês Vicent Van Gogh que me fascina particularmente – “A Noite Estrelada.” É possivelmente um dos quadros mais famosos do artista, poderia mesmo dizer, uma das suas obras-primas.
O que é que Van Gogh imprimiu na tela? Um acontecimento cósmico. Duas enormes galáxias envolvem-se uma na outra, onze estrelas gigantes com as suas coroas de luz atravessam a noite, uma luz cor-de-laranja mais parecida com o sol, “meio lua meio sol” em fase de quarto decrescente, uma larga faixa de luz atravessa-se pelo horizonte, o céu profundamente azul, parece mover-se num turbilhão de energia cósmica.
Contemplo o quadro e observo as formas curvas contínuas, serpenteadas e ondulantes e a textura de linhas nítidas, tracejadas e aos ziguezagues. As formas são dotadas de vida, cheias de tensão, revelando um estilo de pintura cheio de comoção pelo acontecimento cósmico. Mas o artista não fixa apenas na tela o movimento cósmico, “essa natureza tão linda”. Experimenta “uma terrível clareza” e pinta a cidade adormecida. Esta surge em primeiro plano em traços curtos e rectilíneos. Reparo nas luzes quadradas e amarelas das casas adormecidas em contraste com a circularidade das estrelas. O amarelo…”Oh, como é lindo o amarelo!” diria Van Gogh numa das cartas ao seu irmão Theo.
Observo a aguçada torre da igreja elevando-se a pique com as montanhas ao fundo. As montanhas, essa porta para os Alpes no vale do Ródano aparecem como vida transmitida pelo universo.
Olho para os ciprestes que cortam o horizonte, poderosos, flamejantes, que se agigantam como agulhas querendo penetrar a sua verticalidade na circularidade do firmamento. Reparo no contraste do quadro: as curvas contínuas ondulantes do céu, opostas às linhas rectilíneas da paisagem terrestre.
Os ciprestes com a sua verticalidade fascinavam o pintor. Van Gogh escreveria ao seu irmão, no Verão de 1889: “Os ciprestes ocupam-me continuamente. Gostaria de fazer algo semelhante às minhas pinturas de girassóis, pois me admira que nunca tivessem sido pintados como eu os vejo. São tão bonitos em linha e proporção como um obelisco egípcio.”
A “Noite Estrelada”, pode significar o desejo do homem querer alcançar as estrelas, captar-lhes o sentido, a grandeza, o mistério. Quem não olhou o céu num Junho de noites estreladas e luminosas e não quis recolher nas mãos uma estrela? O artista prendeu na tela um momento fugidio, imortalizou essas noites. Mas o significado mais profundo da obra é a libertação das emoções poderosas, a tentativa do pintor expressar em imagem a sua saudade do infinito.
O quadro é um dos mais representativos do período final do pintor o que, segundo alguns críticos da arte exprime um total estado de alucinação, -“perco a consciência de mim” – o momento em que o génio e a loucura se encontram produzindo a derradeira obra-prima.
A visão que muitos críticos de arte nos dão das pinturas de Van Gogh como “ uma invenção imaginária”, “uma visão submersa no misticismo”, falando de um homem em
“ comunhão extática com as forças celestes”, é hoje posta em causa. O próprio Van Gogh, nas suas cartas ao irmão, sempre se revoltou contra “esse misticismo.”
A análise dos aspectos celestes presentes na pintura sugere um artista com preocupações científicas, sociais e filosóficas de acordo com a época e padrões de representação bem conscientes.
A “Noite Estrelada” foi concluída em 19 de Junho de 1889, da janela do asilo de Saint-Rémy-en-Provence, onde o artista tinha entrado em Maio do mesmo ano, após um período de conturbação metal.
O historiador de Arte Albert Boime, professor de História de Arte na Universidade da Califórnia, recriou o céu pintado por Van Gogh, e concluiu haver mais realismo e reflexão na famosa obra do que muitos críticos têm apontado. Este historiador de Arte conseguiu determinar o momento a que se refere a pintura: são as quatro da madrugada da noite de 18 para 19 de Junho. Diz o historiador: “verifica-se que o pintor nunca se baseou unicamente na imaginação mas partiu sempre da Natureza, pois era da natureza que Van Gogh gostava e era esse apego que queria transmitir.”
Em carta ao irmão, Van Gogh diria: “ É a emoção, a sinceridade do sentir a natureza que nos conduz a mão”.Quer a Obra de Arte – “A Noite Estrelada” tenha sido concebida num momento de alucinação, de loucura, de sonho, quer num momento consciente, de sinceridade, ela é fascinante, misteriosa, estranha e bela. Apela ao regresso à origem, ao refluxo do cosmos.

Isabel Laranjeira, docente de Filosofia da Escola Frei Rosa Viterbo - Sátão

4 comentários:

Anónimo disse...

Realmente esse obra-prima é muito fascinante!

Elisabete Tessari disse...

perfeito,nos remete a uma viagem no tempo...através das estrelas do gênio...

Tamy Monteiro disse...

Para uma obra fantástica, um belo texto!

Gilson Paiva disse...

Ótimo texto, parabéns