sábado, 7 de junho de 2008

A ORIGEM DA RELIGIÃO

Talvez o leitor ou a leitora acreditem que a sua religião passou a existir, quando a verdade fundamental foi revelada por Deus a alguém, que em seguida a transmitiu a outras pessoas. Continua a prosperar actualmente, porque o leitor ou a leitora e as outras pessoas da sua fé sabem que é a verdade e que Deus vos abençoa e anima a manterem a vossa fé. É tão simples como isso para si. E por que é que todas as religiões existem? Se estas pessoas estão simplesmente erradas, por que será que as suas crenças não se desmoronam tão prontamente como as falsas ideias sobre métodos de cultivo ou as práticas de construção obsoletas? Desmoronar-se-ão a seu tempo, pensa talvez, e deixarão de pé somente a verdadeira religião, a sua religião. Indubitavelmente, tem alguma razão em pensar assim. A acrescentar às principais religiões do mundo actual – aqueles cujos fiéis atingem as centenas ou milhares de milhões – existem milhares de religiões reconhecidas com um número inferior de fiéis. Surge duas ou três religiões todos os dias e o seu prazo de duração é, tipicamente, de menos de uma década. Não existe qualquer forma de saber quantas religiões distintas se desenvolveram durante algum tempo, nos últimos dez ou quinze mil anos, e cujos vestígios se perderam para sempre, mas talvez o seu número ascenda aos milhões.
A história confirmada de algumas religiões remonta a vários milénios – mas somente se formos generosos na definição de fronteira. A Igreja Mórmon tem menos de duzentos anos, como o seu nome oficial nos recorda: Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. O Protestantismo tem menos de quinhentos anos, a religião islâmica menos de mil e quinhentos, o Cristianismo menos de dois mil. O Judaísmo nem chega a ter o dobro dessa idade e os Judaísmos dos nossos dias sofreram uma evolução significativa desde o Judaísmo mais antigo identificável, embora as suas variedades não sejam nada, quando comparadas com o crescimento disparado de variações originadas pelo Cristianismo, nos dois últimos milénios.
Biologicamente falando, estes períodos de tempo são curtos. Nem sequer são longos, quando comparados com a idade de outras características da cultura humana. A escrita tem mais de cinco mil anos, a agricultura mais de dez mil e a linguagem – quem sabe? – talvez tenha “somente” quarenta mil anos ou seja dez ou vinte vezes mais velha do que isso. Será a linguagem mais antiga que a religião? Independentemente da forma como datemos o seu início, a linguagem é muito, muito mais antiga do que qualquer religião existente ou até mesmo do que qualquer religião da qual tenhamos qualquer conhecimento histórico ou arqueológico. Os indícios arqueológicos de religião mais antigos são os cemitérios Cro-Magnon na República Checa, altamente estruturados e com cerca de vinte e cinco mil anos.

DENNET, Daniel, Quebrar o Feitiço – a religião como fenómeno natural, 1ª edição, 2008. Lisboa: Esfera do Caos Editores, pp. 93-94

2 comentários:

isabel disse...

Julgo que a religião surge como mecanismo de defesa face às ameaças da natureza e à complexidade das relações sociais. Deus é assim concebido como o Protector, Ser Poderoso,onde o homem encontra alívio para a sua angústia e para o medo da realidade.
Como se explica a grande diversidade de religiões e seitas existentes no mundo?
Geralmente seguimos a religião que os nossos pais nos incutiram e acreditamos que essa é a única verdadeira. Se vivessemos na China possivelmente não seguiriamos a mesma religião, seguiriamos outra, e acreditariamos que essa era a única verdadeira.
Não será a religião uma ilusão como defendia Freud?
Isabel

Hermes disse...

Poucas coisas há que seja tão difícil de ter um discurso racional como a religião. (Se calhar só podemos encontrar paralelo com o futebol.) E porquê? Já coloquei um post deste livro de Dennet ("como estudar a religião?") e que explica isso. Quando falamos de religião nunca somos neutros.
Contudo, em parte concordo consigo. A religião nasceu com o Homo Sapiens, e nasceu da necessidade do Homem encontar resposta,não só para as suas angústias, mas uma resposta para as coisas mais elementares da sua vida. E essas respostas encontrou-as na religião, daí que os primeiros deuses fossem tão antropomorficamente caracterizados.
Hoje em dia há um peso cultural muito grande na religião que se professa. Mas essa razão não é suficiente para explicar a criação de tantas religiões hoje em dia, situação que se explica pela necessidade de acreditar que faz parte da natureza humana e da falta de escrúpulos de alguns que que se aproveitam de muitos.
Obrigado pelo seu comentário
António Paulo