domingo, 2 de outubro de 2011

A filosofia não é "adversarial"

Porque em filosofia argumentamos uns com os outros sobre questões filosóficas é natural pensar que a filosofia é um processo "adversarial" [antagónico] como dois advogados (o de acusação e o de defesa) que argumentam um contra o outro num tribunal. Contudo, há duas razões pelas quais esta comparação dos filósofos com os advogados não é boa. Em primeiro lugar, o objectivo de cada advogado é ganhar a causa do seu cliente — quer o seu cliente esteja inocente quer não. Pelo contrário, o objectivo de dois filósofos que se encontrem a argumentar um com o outro é chegar à verdade — seja ela qual for e seja quem for que tenha razão. Como um estudante afirmou, eloquentemente, o objectivo de cada advogado é ganhar a causa, quer ele tenha a verdade quer não, ao passo que o objectivo de cada filósofo é chegar à verdade, quer ele ganhe o argumento quer não. (Sendo os filósofos seres humanos, nem sempre são assim tão imparciais, mas o ideal é este.)
Em segundo lugar, num julgamento há uma autoridade (o juiz ou o júri) que os advogados tentam persuadir, e que em última análise determina se o acusado está ou não inocente. Em filosofia, pelo contrário, não há qualquer juiz ou júri com autoridade para tornar uma posição incorrecta e a outra correcta. Só existimos nós. Claro que alguns de nós sabem mais do que outros sobre questões filosóficas, e o mais sábio é ficar atento e aprender com quem sabe mais do que nós, mas quando chega o momento de tomar decisões relativamente a um tema filosófico somos todos igualmente responsáveis pelas nossas crenças e devemos por isso tomar, cada um de nós, as suas próprias decisões.
Richard E. Creel
Tradução de Desidério Murcho
Thinking Philosophically, Blackwell, Oxford, 2001, p. 88

1 comentário:

Cristiana, nº6, 11ºA disse...

É um bom texto na medida em que enaltece a Filosofia. O processo “adversarial”, que o texto aborda, retrata a ideia de que esta disciplina lida com as mais diversas opiniões, e, portanto, com a colisão de crenças. No entanto, hoje sabemos que é essa diversidade que enriquece a Filosofia. Tal como foi leccionado no 10º ano, o objectivo de um filósofo não é dizer “não” para marcar a diferença, é fazer justiça às suas crenças e obter uma afirmação das suas ideias. O texto prova isso mesmo através da comparação com os advogados. Prova que o alvo da filosofia é simplesmente a verdade. Uma verdade sem espectadores, sem profissões e interesses envolvidos. Como termina o texto, devemos tomar as nossas próprias decisões, que confere o saber lidar com as nossas crenças.