sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O IMPERATIVO CATEGÓRICO

A ideia de que as regras se aplicam sem excepções é difícil de defender. É bastante simples explicar por que razão se deve aceitar excepções a uma regra – podemos simplesmente sublinhar que, em algumas circunstâncias, seguir a regra teria consequências terríveis. Mas como podemos explicar a razão pela qual não se deve fazer excepções à regra em tais circunstâncias? É uma missão intimidante. Uma explicação possível seria afirmar que as regras morais são os mandamentos invioláveis de Deus. Fora isso, que mais pode dizer-se?
Antes do século XX houve um grande filósofo que acreditava no carácter absoluto das regras morais, e que apresentou um argumento famoso para defender esta perspectiva. Immanuel Kant (1724-1804) foi uma das figuras fecundas do pensamento moderno. Defendeu, por exemplo, que mentir nunca é correcto, sejam quais forem as circunstâncias. Não apelou para considerações teológicas; defendeu, ao invés, que a razão exige que nunca mintamos. Para ver como chegou a esta conclusão notável, começaremos por ver a sua teoria geral da ética.
Kant assinalou que a palavra dever é frequentemente usada em sentido não moral. Por exemplo:
1.    Quem quiser tornar-se um jogador de xadrez melhor deve estudar os jogos de Gary Kasparov;
2.    Quem quiser ir para a faculdade de Direito deve inscrever-se nos exames de aceso.
Grande parte da nossa conduta é governada por tais “deves”. O padrão é: temos um determinado desejo (ser jogadores de xadrez melhores, ir para a faculdade de Direito); reconhecemos que um certo percurso nos ajudará a obter o que desejamos (estudar os jogos de Kasparov, fazer a inscrição para os exames de acesso); e por isso concluímos que devemos seguir o plano inclinado.
Kant chamou a isto “imperativos hipotéticos” porque nos dizem o que fazer desde que tenhamos os desejos relevantes. Uma pessoa que não quisesse melhorar o seu jogo de xadrez não teria qualquer razão para estudar os jogos de Kasparov; alguém que não quisesse ir para a faculdade de Direito não teria qualquer razão para fazer os exames de admissão. Uma vez que a força de obrigatoriedade do “deves” depende de termos ou não o desejo relevante, podemos escapar à sua força renunciando simplesmente ao desejo. Assim, se deixarmos de querer ir para a faculdade de Direito, podemos escapar à obrigação de fazer o exame.
Em contraste, as obrigações morais não dependem de desejos específicos que possamos ter. A forma de uma obrigação moral não é “Se queremos isto ou aquilo, então devemos fazer isto ou aquilo”. Os requisitos morais são, ao invés, categóricos: têm a forma, “Deves fazer isto e aquilo, sem mais”. A regra moral não é, por exemplo, que devemos ajudar as pessoas se nos importarmos com elas ou se temos outro objectivo que possamos alcançar ao auxiliá-las. A regra é, pelo contrário, que devemos ser prestáveis para as pessoas independentemente dos nossos desejos e necessidades particulares. É por isso que, ao contrário dos “deves” hipotéticos, não se pode evitar as exigências morais dizendo, simplesmente, “mas isso não me interessa”.
Os “deves” hipotéticos são fáceis de entender. Exigem apenas que adoptemos os meios necessários para alcançar os fins que procuramos. Por outro lado, os “deves” categóricos são misteriosos. Como podemos estar obrigados a comportarmo-nos de uma certa maneira independentemente dos fins que queremos atingir? Grande parte da filosofia moral de Kant é uma tentativa de explicar como isso é possível.
Kant defende que, assim como os “deves” hipotéticos são possíveis porque temos desejos, os “deves” categóricos são possíveis por que temos razão. Os “deves” categóricos são obrigatórios para os agentes racionais simplesmente porque são racionais. Como pode isto ser? Porque, afirma Kant, os deves categóricos derivam de um princípio que todos os seres racionais têm de aceitar. Kant chama a este princípio “imperativo categórico”. Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785), Kant exprime o imperativo categórico assim:
Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que se torne lei universal.
Este princípio resume um procedimento para decidir se um acto é moralmente permissível. Quando estamos a ponderar fazer uma determinada acção, temos de perguntar que regra estaríamos a seguir se realizássemos essa acção. (Esta será a “máxima” do acto.) Depois, temos de perguntar se estaríamos dispostos a que essa regra fosse seguida por todos e em todas as situações. (Isto transformá-la-ia numa “lei universal”, no sentido relevante.) A ser assim, a regra pode ser seguida, e o acto é permissível. No entanto, se não queremos que todas as pessoas obedeçam à regra, então não podemos seguir a regra, e o acto é moralmente proibido.
Kant dá vários exemplos para explicar como isto funciona. Suponhamos, diz Kant, que um homem precisa de pedir dinheiro emprestado, e sabe que ninguém lho emprestará a menos que prometa devolvê-lo. Mas ele sabe igualmente que será incapaz de o devolver. Enfrenta, pois, este problema: deverá prometer pagar a dívida, sabendo que não pode fazê-lo, de maneira a persuadir alguém a conceder-lhe o empréstimo? Se fizesse isso, a “máxima do acto” (a regra que estaria a seguir) seria: Sempre que precisares de um empréstimo, promete pagá-lo, independentemente de pensares ou não que podes de facto pagá-lo. Vejamos; poderia esta regra tornar-se uma lei universal? É óbvio que não, porque se derrotaria a si mesma. Uma vez transformada em prática universal, ninguém mais acreditaria em tais promessas, e por isso ninguém faria empréstimos. Na palavra do próprio Kant, “ninguém acreditaria no que lhe fosse prometido, limitando-se a rir perante tal asserção por ser vão fingimento”.
Outro dos exemplos de Kant tem de ver com o exercício da caridade. Imaginemos, diz Kant, que alguém recusa auxiliar os necessitados, dizendo para si: “Que tenho eu a ver com isso? Deixemos cada um ser feliz como os céus desejam, ou como cada um consegue por si. Nada tirarei ou invejarei ao próximo; mas não tenho qualquer desejo de contribuir para a sua riqueza ou para o seu auxílio quando disso tenha necessidade.” Trata-se, uma vez mais, de uma regra que não podemos querer ver transformada em lei universal. Pois algures, no futuro, esse próprio homem precisará da assistência dos outros, e não quererá que os outros sejam indiferentes ao seu problema.
RACHELS, James, Problemas da Filosofia, 1ª edição, 2009. Lisboa: Publicações Gradiva,, pp. 175-178

O que Kant entende por imperativo categórico? (Deixa a tua resposta na caixa dos comentários.)

23 comentários:

Tiago Tojal disse...

"O imperativo categórico prescreve uma acção como absolutamente necessária, sem referência a nenhuma condição e sem a subordinar a nenhum outro fim. Age unicamente segundo a máxima que faz com que possas querer ao mesmo tempo que ela seja uma lei universal."

Cristiana / nº7 / 10ºA disse...

Existem regras morais universais que ninguém pode mudar, no entanto, dentro desses ditos "conceitos universais" existem muitas regras e leis que tanto são cumpridas como não são. A justiça, a a verdade, a amizade, etc, são exemplos de alguns conceitos morais universais, no entanto todos sabemos que há injustiças, mentiras e inimigos por todo o lado.
O hipotetismo é subjectivo, pois todos temos desejos diferentes, e mesmo sendo estes iguais, todos têm um carácter pessoal e uma estratégia para os conseguir distinta, e, por isso, os obstáculos do nosso caminho tornam-se pessoais. Desta forma Kant defende que os "deves" hipotéticos são possíveis porque temos desejos.
O imperativo categórico já se refere a algo objectivo e universal para todo o ser humano, para todos os que se submetem a tais pensamentos e, por isso, os obstáculos aos ultrapassar são inevitáveis, de modo que qualquer pessoa que queira alcançar esse desejo terá de o fazer, mesmo não querendo. Desta forma Kant defende que os "deves" categóricos são possíveis por que temos razão.
O princípio do imperatico categórico: "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que se torne lei universal" exprime sem dúvida toda sequência de pensamentos e acções. Ou seja, como refere o texto é fundamental, ao agirmos, enquadrarmos essa acção numa lei ou regra universal, e aí é de notar que nem todos poderão seguir inteiramente essa regra. Muitas das vezes seria desastroso para a humanidade, como exemplifica o texto. Essas excepções fariam de nós, ser humano, sempre duvidosos e falsos exteriormente. No exemplo da regra: Sempre que precisares de um empréstimo, promete pagá-lo, independentemente de pensares ou não que podes de facto pagá-lo. Isto faria de nós uns cobardes, e não haveria quase distinção entre as pessoas que pagariam de volta e as que não, porque mal se usa-se o termo "empréstimo" os boatos correriam e quanto a isso não haveria nada a fazer. De modo que cada um tem a sua forma de agir, de acordo com a cultura do seu país, o seu seio familiar, os seus amigos... Portanto apenas podemos seguir correctamente e sem nenhuma excepção as leis universais, pois todas as regras que as impliquem, existem quantas excepções quantas pessoas há no mundo. (desculpem a extensão do texto)

Ricardo Silva Nº18 10ºC. disse...

Kant entende que o imperativo categórico é o dever de toda pessoa de agir conforme os princípios que ela quer que todos os seres humanos sigam, que ela quer que seja uma lei da natureza humana ou universal.

Anónimo disse...

O princípio do imperatico categórico: "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que se torne lei universal" exprime sem dúvida toda sequência de pensamentos e acções. Ou seja, como refere o texto é fundamental, ao agirmos, enquadrarmos essa acção numa lei ou regra universal, e aí é de notar que nem todos poderão seguir inteiramente essa regra. Muitas das vezes seria desastroso para a humanidade, como exemplifica o texto. Essas excepções fariam de nós, ser humano, sempre duvidosos e falsos exteriormente. No exemplo da regra: Sempre que precisares de um empréstimo, promete pagá-lo, independentemente de pensares ou não que podes de facto pagá-lo. Isto faria de nós uns cobardes, e não haveria quase distinção entre as pessoas que pagariam de volta e as que não, porque mal se usa-se o termo "empréstimo" os boatos correriam e quanto a isso não haveria nada a fazer. De modo que cada um tem a sua forma de agir, de acordo com a cultura do seu país, o seu seio familiar, os seus amigos... Portanto apenas podemos seguir correctamente e sem nenhuma excepção as leis universais, pois todas as regras que as impliquem, existem quantas excepções quantas pessoas há no mundo.

André Martins nº3 10ºc

Bruno Francisco Lima Nº4 10ºC disse...

O que Kant entende por imperativo categórico é que uma pessoa, age de tal maneira que a máxima da sua vontade possa valer sempre, ao mesmo tempo, como princípio de legislação universal.

Nuno nº14 10ºC disse...

Para Kant, o imperativo categórico defende que um agente deve agir segundo uma regra, sendo que ele esteja disposto a que essa regra seja seguida por todos e em todas as situações (transformando-se, portanto, numa "lei universal"). Assim, se a regra pode ser seguida, o acto é permissível. No entanto, se não queremos que todas as pessoas obedeçam à regra, então não podemos seguir a regra, e o acto é moralmente proibido.

Paula Lopes Ѻ15 10ºC disse...

O imperativo catégorico, de acordo com Kant, diz que temos de respeitar certos deveres e que estes não resultam dos nossos desejos ou sentimentos, já que nos são impostos incondicionalmente pela razão. Estando assim a moral baseada num principio racional fundamental: o imperativo categorico.
Com isto, Kant defende a lei universal, isto é, age apenas segundo uma maxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne universal.

José Alexandre Teixeira nº11 10ºC disse...

O imperativo categórico defende que um agente deve agir segundo uma regra. Assim, se a regra pode ser seguida, o acto é permissível.
O imperativo categórico refere-se a algo concreto e universal para todos os que se devotam a tais pensamentos e desse modo os obstaculos a superar sao inevitáveis.

Luís Ramos disse...

Kant diz que o imperativo categórico é o dever de que todas as pessoas têm que agir conforme os seus princípios, quer sejam leis naturais ou humanas...

Tatiana disse...

Segundo Kant, o imperativo categórico defende que um agente A ou B deve agir conforme os princípios que quer que todos os seres humanos sigam, que quer que seja uma lei universal.
Kant entende por imperativo categórico uma regra, que enuncia o seguinte "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que se torne lei universal".
Assim se uma regra pode ser seguida, então é permissível que a ponhamos em pratica. Mas, se não queremos que toda a gente obedeça a regra definida, então não podemos seguir a regra e então o acto que a regra define torna-se moralmente errado e portanto proibido.

Tatiana Raquel Pereira nº22..10ºC

daniel ferreira disse...

O princípio do imperatico categórico: "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que se torne lei universal" exprime sem dúvida toda sequência de pensamentos e acções. Ou seja, como refere o texto é fundamental, ao agirmos, enquadrarmos essa acção numa lei ou regra universal, e aí é de notar que nem todos poderão seguir inteiramente essa regra.
daniel ferreira nº 10 10ºc

Carla Duarte disse...

o imperativo categórico, segundo Kant defende que temos de respeitar certos deveres e que estes não resultam dos nossos desejos ou sentimentos. nesta teoria tudo o que fazemos tem de ser por dever.

marcia disse...

Kant entende que o imperativo categórico prescreve uma acção como absolutamente necessária, sem referência a nenhuma condição e sem a subordinar a nenhum outro fim. Que age unicamente segundo a máxima que faz com que possas querer ao mesmo tempo que ela seja uma lei universal.
Márcia nº13 10ºc

Sara Oliveira, nº21, 10ºC disse...

Para Kant, o imperativo categórico é o unico principio fundamental da moralidade.
A formula da lei universal diz-nos que devemos agir segundo máximas que possamos querer universalizar.
A formula do fim diz-nos que devemos tratar as pessoas como fins em si e nunca como meros meios.

Anónimo disse...

Kant defende o imperativo categorico no qual um agente age( é obrigado incondicionalmente, não há excepcoes ) apenas segundo uma maxima tal que possa ao mesmo tempo querer que esta maxima se torne universal, ou seja que esta maxima seja valida para todos.
anacruz 10ºc

Miguel Tomás Nº7 10ºC disse...

Kant defende que devemos fazer aquilo que queira-mos que seja uma lei universal... por exemplo, respeito as pessoas porque quero que todas as pessoas se respeitem umas às outras...

carina coelho disse...

Kant entende o imperativo categórico uma teoria que diz : "Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que se torne lei universal.". Depois esta divide-se em duas formulas: formula da lei universal, e formula do fim.

Anónimo disse...

"age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que se torne lei universal", esta é a teoria do imperativo categórico que kant defende.

Por exemplo, uma pesssoa age sobre a máxima que diz "devo torturar todos os idoso", se essa máxima poder ser seguida e universalizável, então é permissível fazê-lo.


Maria Corujo nº24 10ºC

Anónimo disse...

Para Kant, o imperativo categórico é a razão que nos fornece o princípio fundamental da moralidade a partir do qual derivam todos os outros deveres morais específicos.

Sara Fernandes n.º20 10.ºC

Carolina Silva nº8 10ºC disse...

O imperativo categórico é o dever das pessoas que têm de agir conforme os seus princípios. Deve agir segundo máximas. Apresenta-se como uma obrigação absoluta ou incondicional.

Roxanne, 10ºC, nº19 disse...

Kant entende por imperativo categórico o facto de devermos seguir regras mas que estas possam ser universalizáveis. O que ele quer dizer é que só somos morais se seguirmos uma regra universalizavel, isto é, que se possa aplicar a todo e qualquer individuo. Se essa regra for aplicável a todos, é porque ela é permissível e é correcto segui-la. Se não for aplicável a todos, então é moralmente errado, logo não a devemos seguir.

Anónimo disse...

com o imperativo categórico Kant diz que toda a moral se baseia num princípio racional fundamental, pois usamos unicamente a razão e porque é dele que derivam todos os nossos deveres morais específicos.

Ana Rita Almeida nº2 10ºC

inês antónia, nº11 10ºA disse...

No fundo, o imperativo categórico resume-se à ideia que toda a moral se baseia num principio racional fundamental; é uma obrigação absoluta e incondicional. Kant diz-nos que temos de respeitar determinados deveres que nos são impostos incondicionalmente pela razão.
O imperativo categórico pode ser expresso através de duas fórmulas: a fórmula do fim em si e a fórmula da lei universal.
A fórmula do fim em si, determina que devemos agir em conformidade com o nosso lado mais humano, e devemos utilizar os outros não apenas como meros meios mas também como fins. Já a fórmula da lei universal defende que devemos agir sempre segundo uma máxima que possamos universalizar.

Deste modo podemos afirmar que é sempre errado mentir, matar, roubar. Mas isto gera um grande conflito de deveres.
Imaginemos: o Miguel está no hospital muito doente, e deixa ao seu irmão uma carta com uma tarefa, que o obriga a prometer que fará depois deste morrer. A carta pede que mate um grande inimigo seu, assim que tenha oportunidade.
Que deverá o irmão do Miguel fazer ? Segundo Kant, é errado matar e é errado não cumprir uma promessa, ambas são obrigações que não estão sujeitas a excepções.
Então, neste caso, como deveríamos agir ?

É nestes exemplos que, na minha opinião, o imperativo categórico falha. Embora seja uma teoria que hipoteticamente represente as condições mais perfeitas de uma vida em sociedade, nem sempre é aplicável.