
Um grande filósofo que exemplifica estas características foi o escocês David Hume. Nunca desempenhou quaisquer funções académicas (apesar de uma vez o ter tentado infrutiferamente); a maior parte dos seus escritos pertencia a esse tipo particularmente escocês, o ensaio; e os seus ensaios tratavam de vários temas sociais, políticos e económicos. Mas a sua grande obra filosófica, o Tratado da Natureza Humana, que ele terminou quando tinha apenas 26 anos, foi concebida para estabelecer os fundamentos de uma ciência empírica genuína da natureza humana. A partir destes fundamentos Hume esperava que se pudesse construir uma elucidação de todo o conhecimento humano, incluindo o conhecimento científico, e de toda a moral, incluindo a moral política. Aqui temos generalidade, e de facto uma enorme ambição explicativa.
Hume satisfaz também outro critério pelo qual medimos um verdadeiro filósofo: ocupava-se não apenas de apresentar as suas ideias, mas também de argumentar a seu favor. Esta atitude tem conduzido quase sempre, entre os filósofos, a um interesse apaixonado pelas ideias uns dos outros; e tem levado os filósofos a discordar, e se possível a refutar, os argumentos dos outros filósofos; e também a expor teorias por meio de diálogos, falados ou escritos. Por vezes, como no caso de Platão, Berkeley ou Hume, estes diálogos são ficcionais; por vezes são reais, e tomaram a forma de respostas a objecções, como no caso de Descartes, ou de troca de correspondência. Os filósofos são por natureza faladores e epistolares; só raramente preferem sentar-se e pensar, isolados dos seus pares.
Mary Warnock
Tradução de Desidério Murcho
Retirado de Mulheres Filosóficas (1996), pp. xxix-xxx.
Publicado em http://www.aartedepensar.com/
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