quarta-feira, 5 de outubro de 2016
segunda-feira, 3 de outubro de 2016
VALIDADE E VERDADE
O termo “validade” tem em
filosofia e lógica um significado especializado, diferente do seu significado
popular. No dia-a-dia usa-se o termo “validade” para dizer que algo tem valor,
que é interessante, que deve ser tido em consideração; assim, é comum dizer que
uma dada afirmação é váliada. Contudo, do mesmo modo que “massa” em física não
quer dizer esparguete e que “altura” em música não quer dizer volume – porque
são termos especializados -, também em filosofia e lógica “validade” não quer
dizer que algo tem valor. A validade é uma propriedade exclusiva dos
argumentos; não se aplica, neste sentido especializado a afirmações. Por outro
lado, a verdade é uma propriedade exclusiva das afirmações que compõem s
argumentos – as premissas e a conclusão – mas não dos próprios argumentos. Não
se pode, pois, dizer que um argumento é verdadeiro nem que uma afirmação é
válida.
Como veremos, há dois tipos
principais de validade: a dedutiva e a não-dedutiva. Vamos para já deter-nos na
validade dedutiva, pois é a mais simples de compreender e a base para
compreender a validade não-dedutiva. A validade dedutiva define-se do seguinte
modo: um argumento dedutivo +e válido se, e só se, é impossível as suas
premissas serem verdadeiras e a sua conclusão falsa. Esta definição está
correcta, mas compreende-se melhor[1]
se se disser que num argumento dedutivo válido é impossível as premissas serem verdadeiras
e a conclusão falsa, e se ao mesmo tempo se apresentar exemplos relevantes:
1.
Sócrates e Aristóteles eram gregos.
Logo, Sócrates era
grego.
É intuitivamente óbvio que é
impossível a premissa ser verdadeira e a conclusão falsa. É por isso que este
argumento é dedutivamente válido. Claro que o tipo de argumentos dedutivamente
válidos que interessam na argumentação, filosófica ou outra, são mais complexos
do que este. E a validade não é uma condição suficiente para que um argumento
seja bom apesar de ser uma condição necessária.
Não é fácil compreender a
noção de validade porque esta implica a capacidade para pensar em probabilidades.
Para já, importa desfazer algumas ideias falsas sobre a validade.
Em primeiro lugar, não basta
que um argumento tenha premissas e conclusão verdadeiras para ser válido.
Vejamos o seguinte argumento:
- Sócrates era um
filósofo.
Logo, Kant era alemão. É
intuitivamente óbvio que este argumento é inválido, apesar de a premissa e a
conclusão serem verdadeiras. Intuitivamente, compreende-se porquê: porque não
há qualquer conexão entre a premissa e a conclusão; isto é, porque o facto de a
premissa ser verdadeira não tem qualquer relação com o faço da conclusão ser
verdadeira. Esta ideia intuitiva de conexão pode ser usada para clarificar a
noção de validade, recorrendo á referida analogia entre argumentos e correntes:
quando s argumentos são válidos as premissas estão conectadas cm a conclusão. É
por isso que o argumento acima é inválido: porque a premissa não está conectada
com a conclusão.
Esta ideia de conexão
torna-se real ao trabalhar com inspectores de circunstâncias. Em termos rigorosos,
exprime-se esta conexão do seguinte modo: um argumento dedutivamente válido não
há qualquer circunstância na qual as premissas sejam verdadeiras e a conclusão
falsa. O problema com o argumento acima é que a conclusão é de facto
verdadeira, mas não é verdadeira em todas as circunstâncias possíveis em que a
premissa é verdadeira.
Um teste intuitivo que é
imprescindível dominar é o seguinte: será possível imaginar uma circunstância
em que as premissas de um argumento sejam verdadeiras e a conclusão falsa? Se
for, o argumento é dedutivamente inválido; se não for, o argumento é válido.
Este exercício é estimulante e uma boa base para a compreensão correcta da
validade. Regressemos ao argumento 2; poderemos imaginar uma circunstância em
que a premissa é verdadeira e a conclusão falsa? Sem dúvida que sim: Imagine-se
que Kant tinha nascido em França; esta circunstância torna a conclusão falsa,
mas é perfeitamente compatível com a premissa. É por isso que o argumento é
inválido: é possível que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa –
apesar de serem ambas, de facto,
verdadeiras.
Outra propriedade dos argumentos
válidos que gera confusões é a seguinte: Um argumento válido pode ter premissas
e conclusões falsas. Vejamos um exemplo:
- Sócrates e
Aristóteles eram egípcios.
Logo,
Sócrates era egípcio.
Tanto a premissa como a
conclusão são, de facto, falsas; mas o argumento é válido. É válido porque apesar
de a premissa e a conclusão serem de facto falsas, é impossível que a premissa
seja verdadeira e a conclusão falsa – e é isso que conta na validade dedutiva.
Uma vez mais, levantam-se dificuldades porque a noção de validade exige que se
pense não apenas nas coisas tal como são, mas nas coisas tal como poderiam ter
sido. Ora, o argumento é válido precisamente porque as coisas não pod4eriam ter
sido de tal maneira que a premissas fosse verdadeira e a conclusão falsa. É
necessário procurar imaginar uma circunstância na qual a premissa seja verdadeira
e a conclusão falsa – e não se consegue imaginar tal circunstância, pois não
existe. Imagine-se que a premissa era verdadeira: que Sócrates e Aristóteles
eram egípcios. Nesta circunstância, também a conclusão é verdadeira. Logo, o
argumento é válido.
Em suma: um argumento
dedutivo pode ser válido apesar de ter premissas e conclusões falsas; e pode
ser inválido apesar de ter premissas e conclusões verdadeiras. Isto acontece porque
a validade é uma propriedade da conexão entre as premissas e a conclusão, e não
uma propriedade das próprias premissas e conclusões. Num argumento dedutivo
válido só não pode acontecer o seguinte: que as suas premissas sejam verdadeiras
e a conclusão falsa. Todas as outras hipóteses são possíveis. Por outro lado,
num argumento inválido, tudo pode acontecer – precisamente porque não há
qualquer conexão entre as premissas e a conclusão. Podemos assim elaborar a seguinte
tabela:
|
|
Premissas verdadeiras
|
Premissas falsas
|
|
Conclusão verdadeira
Conclusão falsa
|
Válido ou inválido
Inválido
|
Válido ou inválido
Válido ou inválido
|
Exercícios
- O que é a
validade dedutiva?
- Será que uma
afirmação pode ser válida? Porquê?
- Será que um
argumento pode ser verdadeiro? Porquê?
- Será que um
argumento inválido pode ter uma conclusão verdadeira? Porquê?
- Poderá um
argumento válido ter uma conclusão falsa? Porquê?
- Poderá um
argumento válido com uma premissa falsa ter uma conclusão verdadeira?
Porquê?
MURCHO,
Desidério, O Lugar da Lógica na Filosofia,
2003. Lisboa: Plátano Editora, pp. 14-18
[1] Nomeadamente, porque só
depois de estudar lógica proposicional se está em condições de compreender plenamente
o que significa a expressão que tipicamente se usa nas definições: “se, e só se”.
Algumas noções de lógica
António Aníbal Padrão
Escola Secundária de Alberto Sampaio, Braga
Escola Secundária de Alberto Sampaio, Braga
Introdução
Todas
as disciplinas têm um objecto de estudo. O objecto de estudo de uma disciplina
é aquilo que essa disciplina estuda. Então, qual é o objecto de estudo da
lógica? O que é que a lógica estuda? A lógica estuda e sistematiza a validade
ou invalidade da argumentação. Também se diz que estuda inferências ou
raciocínios. Podes considerar que argumentos, inferências e raciocínios são
termos equivalentes.
Muito
bem, a lógica estuda argumentos. Mas qual é o interesse disso para a filosofia?
Bem, tenho de te lembrar que a argumentação é o coração da filosofia. Em
filosofia temos a liberdade de defender as nossas ideias, mas temos de
sustentar o que defendemos com bons argumentos e, é claro, também temos de
aceitar discutir os nossos argumentos.
Os
argumentos constituem um dos três elementos centrais da filosofia. Os outros
dois são os problemas e as teorias. Com efeito, ao longo dos séculos, os
filósofos têm procurado resolver problemas, criando teorias que se apoiam em
argumentos.
Estás
a ver por que é que o estudo dos argumentos é importante, isto é, por que é que
a lógica é importante. É importante, porque nos ajuda a distinguir os
argumentos válidos dos inválidos, permite-nos compreender por que razão uns são
válidos e outros não e ensina-nos a argumentar correctamente. E isto é
fundamental para a filosofia.
O que é um argumento?
Um
argumento é um conjunto de proposições que utilizamos para justificar (provar,
dar razão, suportar) algo. A proposição que queremos justificar tem o nome de
conclusão; as proposições que pretendem apoiar a conclusão ou a justificam têm
o nome de premissas.
Supõe
que queres pedir aos teus pais um aumento da "mesada". Como
justificas este aumento? Recorrendo a razões, não é? Dirás qualquer coisa como:
Os preços no
bar da escola subiram; como eu lancho no bar da escola, o lanche fica me mais
caro. Portanto, preciso de um aumento da "mesada".
Temos
aqui um argumento, cuja conclusão é: "preciso de um aumento da
'mesada'". E como justificas esta conclusão? Com a subida dos preços no
bar da escola e com o facto de lanchares no bar. Então, estas são as premissas
do teu argumento, são as razões que utilizas para defender a conclusão.
Este
exemplo permite-nos esclarecer outro aspecto dos argumentos, que é o seguinte:
embora um argumento seja um conjunto de proposições, nem todos os conjuntos de
proposições são argumentos. Por exemplo, o seguinte conjunto de proposições não
é um argumento:
Eu lancho no bar da escola, mas o João não.
A Joana come pipocas no cinema.
O Rui foi ao museu.
A Joana come pipocas no cinema.
O Rui foi ao museu.
Neste caso, não temos um
argumento, porque não há nenhuma pretensão de justificar uma proposição com
base nas outras. Nem há nenhuma pretensão de apresentar um conjunto de
proposições com alguma relação entre si. Há apenas uma sequência de afirmações.
E um argumento é, como já vimos, um conjunto de proposições em que se pretende
que uma delas seja sustentada ou justificada pelas outras — o que não acontece
no exemplo anterior.
Um argumento pode ter uma ou mais premissas, mas só pode ter uma conclusão.Exemplos de argumentos com uma só premissa:
Exemplo 1
Premissa: Todos os portugueses são europeus.
Conclusão: Logo, alguns europeus são portugueses.
Conclusão: Logo, alguns europeus são portugueses.
Exemplo 2
Premissa: O João e o José são alunos do 11.º ano.
Conclusão: Logo, o João é aluno do 11.º ano.
Exemplos de argumentos com duas premissas:Conclusão: Logo, o João é aluno do 11.º ano.
Exemplo 1
Premissa 1: Se o João é um aluno do 11.º ano, então estuda
filosofia.
Premissa 2: O João é um aluno do 11.º ano.
Conclusão: Logo, o João estuda filosofia.
Premissa 2: O João é um aluno do 11.º ano.
Conclusão: Logo, o João estuda filosofia.
Exemplo 2
Premissa 1: Se não houvesse vida para além da morte, então a
vida não faria sentido.
Premissa 2: Mas a vida faz sentido.
Conclusão: Logo, há vida para além da morte.
Premissa 2: Mas a vida faz sentido.
Conclusão: Logo, há vida para além da morte.
Exemplo 3:
Premissa 1: Todos os minhotos são portugueses.
Premissa 2: Todos os portugueses são europeus.
Conclusão: Todos os minhotos são europeus.
Premissa 2: Todos os portugueses são europeus.
Conclusão: Todos os minhotos são europeus.
É
claro que a maior parte das vezes os argumentos não se apresentam nesta forma.
Repara, por exemplo, no argumento de Kant a favor do valor objectivo da
felicidade, tal como é apresentado por Aires Almeida et al. (2003b) no site de
apoio ao manual A Arte de Pensar:
"De um
ponto de vista imparcial, cada pessoa é um fim em si. Mas se cada pessoa é
um fim em si, a felicidade de cada pessoa tem valor de um ponto de vista
imparcial e não apenas do ponto de vista de cada pessoa. Dado que cada pessoa é
realmente um fim em si, podemos concluir que a felicidade tem valor de um ponto
de vista imparcial."
Neste
argumento, a conclusão está claramente identificada ("podemos concluir
que…"), mas nem sempre isto acontece. Contudo, há certas expressões que
nos ajudam a perceber qual é a conclusão do argumento e quais são as premissas.
Repara, no argumento anterior, na expressão "dado que". Esta
expressão é um indicador de premissa: ficamos a saber que o que se segue a esta
expressão é uma premissa do argumento. Também há indicadores de conclusão: dois
dos mais utilizados são "logo" e "portanto".
Um indicador é um articulador do discurso, é uma
palavra ou expressão que utilizamos para introduzir uma razão (uma premissa) ou
uma conclusão. O quadro seguinte apresenta alguns indicadores de premissa e de
conclusão:
|
Indicadores de premissa
|
Indicadores de conclusão
|
|
pois
porque dado que como foi dito visto que devido a a razão é que admitindo que sabendo-se que assumindo que |
por isso
por conseguinte implica que logo portanto então daí que segue-se que pode-se inferir que consequentemente |
É
claro que nem sempre as premissas e a conclusão são precedidas por indicadores.
Por exemplo, no argumento:
O Mourinho é
treinador de futebol e ganha mais de 100000 euros por mês. Portanto, há
treinadores de futebol que ganham mais de 100000 euros por mês.
A
conclusão é precedida do indicador "Portanto", mas as premissas não
têm nenhum indicador.
Por
outro lado, aqueles indicadores (palavras e expressões) podem aparecer em
frases sem que essas frases sejam premissas ou conclusões de argumentos. Por
exemplo, se eu disser:
Depois de se
separar do dono, o cão nunca mais foi o mesmo. Então, um dia ele partiu e nunca
mais foi visto. Admitindo que não morreu, onde estará?
O
que se segue à palavra "Então" não é conclusão de nenhum argumento, e
o que segue a "Admitindo que" não é premissa, pois nem sequer tenho
aqui um argumento. Por isso, embora seja útil, deves usar a informação do
quadro de indicadores de premissa e de conclusão criticamente e não de forma
automática.
Proposições e frases
Um
argumento é um conjunto de proposições. Quer as premissas quer a conclusão de
um argumento são proposições. Mas o que é uma proposição?
· Uma proposição é o pensamento que uma frase
declarativa exprime literalmente.
Não
deves confundir proposições com frases. Uma frase é uma entidade linguística, é
a unidade gramatical mínima de sentido. Por exemplo, o conjunto de palavras
"Braga é uma" não é uma frase. Mas o conjunto de palavras "Braga
é uma cidade" é uma frase, pois já se apresenta com sentido gramatical.
Há
vários tipos de frases: declarativas, interrogativas, imperativas e
exclamativas. Mas só as frases declarativas exprimem proposições. Uma frase só
exprime uma proposição quando o que ela afirma tem valor de verdade.
Por exemplo, as seguintes frases não exprimem proposições, porque não têm
valor de verdade, isto é, não são verdadeiras nem falsas:
1. Que horas são?
2. Traz o livro.
3. Prometo ir contigo ao cinema.
4. Quem me dera gostar de Matemática.
2. Traz o livro.
3. Prometo ir contigo ao cinema.
4. Quem me dera gostar de Matemática.
Mas as frases seguintes
exprimem proposições, porque têm valor de verdade, isto é, são verdadeiras ou
falsas, ainda que, acerca de algumas, não saibamos, neste momento, se são
verdadeiras ou falsas:
1. Braga é a capital de Portugal.
2. Braga é uma cidade minhota.
3. A neve é branca.
4. Há seres extraterrestres inteligentes.
2. Braga é uma cidade minhota.
3. A neve é branca.
4. Há seres extraterrestres inteligentes.
A frase 1 é falsa, a 2 e a 3 são verdadeiras. E a
4? Bem, não sabemos qual é o seu valor de verdade, não sabemos se é verdadeira
ou falsa, mas sabemos que tem de ser verdadeira ou falsa. Por isso, também
exprime uma proposição.
Uma proposição é
uma entidade abstracta, é o pensamento que uma frase declarativa exprime
literalmente. Ora, um mesmo pensamento pode ser expresso por diferentes frases.
Por isso, a mesma proposição pode ser expressa por diferentes frases. Por
exemplo, as frases "O governo demitiu o presidente da TAP" e "O
presidente da TAP foi demitido pelo governo" exprimem a mesma proposição.
As frases seguintes também exprimem a mesma proposição: "A neve é
branca" e "Snow is white".
Ambiguidade e vagueza
Para
além de podermos ter a mesma proposição expressa por diferentes frases, também
pode acontecer que a mesma frase exprima mais do que uma proposição. Neste caso
dizemos que a frase é ambígua. A frase "Em cada dez minutos, um homem
português pega numa mulher ao colo" é ambígua, porque exprime mais do que
uma proposição: tanto pode querer dizer que existe um homem português (sempre o
mesmo) que, em cada dez minutos, pega numa mulher ao colo, como pode querer
dizer que, em cada dez minutos, um homem português (diferente) pega numa mulher
ao colo (a sua).
Por
vezes, deparamo-nos com frases que não sabemos com exactidão o que significam.
São as frases vagas. Uma frase vaga é uma frase que dá origem a casos de
fronteira indecidíveis. Por exemplo, "O professor de Filosofia é
calvo" é uma frase vaga, porque não sabemos a partir de quantos cabelos é
que podemos considerar que alguém é calvo. Quinhentos? Cem? Dez? Outro exemplo
de frase vaga é o seguinte: "Muitos alunos tiveram negativa no teste de
Filosofia". Muitos, mas quantos? Dez? Vinte? Em filosofia devemos evitar
as frases vagas, pois, se não comunicarmos com exactidão o nosso pensamento,
como é que podemos esperar que os outros nos compreendam?
Validade e verdade
A
verdade é uma propriedade das proposições. A validade é uma propriedade dos
argumentos. É incorrecto falar em proposições válidas. As proposições não são
válidas nem inválidas. As proposições só podem ser verdadeiras ou falsas.
Também é incorrecto dizer que os argumentos são verdadeiros ou que são falsos.
Os argumentos não são verdadeiros nem falsos. Os argumentos dizem-se válidos ou
inválidos.
Quando
é que um argumento é válido? Por agora, referirei apenas a validade dedutiva.
Diz-se que um argumento dedutivo é válido quando é impossível que as suas
premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Repara que, para um argumento
ser válido, não basta que as premissas e a conclusão sejam verdadeiras. É
preciso que seja impossível que sendo as premissas verdadeiras, a conclusão
seja falsa.
Considera o seguinte argumento:
Premissa 1: Alguns treinadores de futebol ganham mais de
100000 euros por mês.
Premissa 2: O Mourinho é um treinador de futebol.
Conclusão: Logo, o Mourinho ganha mais de 100000 euros por mês.
Premissa 2: O Mourinho é um treinador de futebol.
Conclusão: Logo, o Mourinho ganha mais de 100000 euros por mês.
Neste momento (Julho de 2004),
em que o Mourinho é treinador do Chelsea e os jornais nos informam que ganha
muito acima de 100000 euros por mês, este argumento tem premissas verdadeiras e
conclusão verdadeira e, contudo, não é válido. Não é válido, porque não é
impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Podemos
perfeitamente imaginar uma circunstância em que o Mourinho ganhasse menos de
100000 euros por mês (por exemplo, o Mourinho como treinador de um clube do
campeonato regional de futebol, a ganhar 1000 euros por mês), e, neste caso, a
conclusão já seria falsa, apesar de as premissas serem verdadeiras. Portanto, o
argumento é inválido.
Considera, agora, o seguinte argumento, anteriormente apresentado:
Premissa: O João e o José são alunos do 11.º ano.
Conclusão: Logo, o João é aluno do 11.º ano.
Conclusão: Logo, o João é aluno do 11.º ano.
Este argumento é válido, pois
é impossível que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa. Ao contrário
do argumento que envolve o Mourinho, neste não podemos imaginar nenhuma
circunstância em que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa. Podes
imaginar o caso em que o João não é aluno do 11.º ano. Bem, isto significa que
a conclusão é falsa, mas a premissa também é falsa.
Repara, agora, no seguinte argumento:
Premissa 1: Todos os números primos são pares.
Premissa 2: Nove é um número primo.
Conclusão: Logo, nove é um número par.
Premissa 2: Nove é um número primo.
Conclusão: Logo, nove é um número par.
Este argumento é válido,
apesar de quer as premissas quer a conclusão serem falsas. Continua a
aplicar-se a noção de validade dedutiva anteriormente apresentada: é impossível
que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. A validade de um
argumento dedutivo depende da conexão lógica entre as premissas e a conclusão
do argumento e não do valor de verdade das proposições que constituem o
argumento. Como vês, a validade é uma propriedade diferente da verdade. A
verdade é uma propriedade das proposições que constituem os argumentos (mas não
dos argumentos) e a validade é uma propriedade dos argumentos (mas não das
proposições).
Então, repara que podemos ter:
· Argumentos válidos, com premissas verdadeiras
e conclusão verdadeira;
· Argumentos válidos, com premissas falsas e
conclusão falsa;
· Argumentos válidos, com premissas falsas e
conclusão verdadeira;
· Argumentos inválidos, com premissas
verdadeiras e conclusão verdadeira;
· Argumentos inválidos, com premissas
verdadeiras e conclusão falsa;
· Argumentos inválidos, com premissas falsas e
conclusão falsa; e
· Argumentos inválidos, com premissas falsas e
conclusão verdadeira.
Mas não podemos ter:
· Argumentos válidos, com premissas verdadeiras
e conclusão falsa.
Como podes determinar se um argumento dedutivo é válido? Podes seguir esta
regra:
Mesmo que as
premissas do argumento não sejam verdadeiras, imagina que são verdadeiras.
Consegues imaginar alguma circunstância em que, considerando as premissas
verdadeiras, a conclusão é falsa? Se sim, então o argumento não é válido. Se
não, então o argumento é válido.
Lembra-te: num
argumento válido, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão não pode ser
falsa.
Argumentos sólidos e argumentos bons
Em filosofia não é suficiente
termos argumentos válidos, pois, como viste, podemos ter argumentos válidos com
conclusão falsa (se pelo menos uma das premissas for falsa). Em filosofia
pretendemos chegar a conclusões verdadeiras. Por isso, precisamos de argumentos
sólidos.
· Um argumento sólido é um argumento válido com
premissas verdadeiras.
Um argumento sólido não pode
ter conclusão falsa, pois, por definição, é válido e tem premissas verdadeiras;
ora, a validade exclui a possibilidade de se ter premissas verdadeiras e
conclusão falsa.
O seguinte argumento é válido, mas não é sólido:
Todos os minhotos são alentejanos.
Todos os bracarenses são minhotos.
Logo, todos os bracarenses são alentejanos.
Todos os bracarenses são minhotos.
Logo, todos os bracarenses são alentejanos.
Este argumento não é sólido,
porque a primeira premissa é falsa (os minhotos não são alentejanos). E é
porque tem uma premissa falsa que a conclusão é falsa, apesar de o argumento
ser válido.
O seguinte argumento é sólido (é válido e tem premissas verdadeiras):
Todos os minhotos são portugueses.
Todos os bracarenses são minhotos.
Logo, todos os bracarenses são portugueses.
Todos os bracarenses são minhotos.
Logo, todos os bracarenses são portugueses.
Também podemos ter argumentos sólidos deste tipo:
Sócrates era grego.
Logo, Sócrates era grego.
Logo, Sócrates era grego.
(É
claro que me estou a referir ao Sócrates, filósofo grego e mestre de Platão, e
não ao Sócrates, candidato a secretário geral do Partido Socialista. Por isso,
a premissa e a conclusão são verdadeiras.)
Este
argumento é sólido, porque tem premissa verdadeira e é impossível que, sendo a
premissa verdadeira, a conclusão seja falsa. É sólido, mas não é um bom
argumento, porque a conclusão se limita a repetir a premissa.
· Um argumento bom (ou forte) é um argumento
válido persuasivo (persuasivo, do ponto de vista racional).
Fica
agora claro por que é que o argumento "Sócrates era grego; logo, Sócrates
era grego", apesar de sólido, não é um bom argumento: a razão que
apresentamos a favor da conclusão não é mais plausível do que a conclusão e,
por isso, o argumento não é persuasivo.
Talvez
recorras a argumentos deste tipo, isto é, argumentos que não são bons (apesar
de sólidos), mais vezes do que imaginas. Com certeza, já viveste situações
semelhantes a esta:
— Pai, preciso de um aumento da "mesada".
— Porquê?
— Porque sim.
O que temos aqui? O seguinte argumento:— Porquê?
— Porque sim.
Preciso de um aumento da "mesada".
Logo, preciso de um aumento da "mesada".
Logo, preciso de um aumento da "mesada".
Afinal,
querias justificar o aumento da "mesada" (conclusão) e não
conseguiste dar nenhuma razão plausível para esse aumento. Limitaste-te a dizer
"Porque sim", ou seja, "Preciso de um aumento da 'mesada',
porque preciso de um aumento da 'mesada'". Como vês, trata-se de um
argumento muito mau, pois com um argumento deste tipo não consegues persuadir
ninguém.
Mas
não penses que só os argumentos em que a conclusão repete a premissa é que são
maus. Um argumento é mau (ou fraco) se as premissas não forem mais plausíveis
do que a conclusão. É o que acontece com o seguinte argumento:
Se a vida não faz sentido, então Deus não existe.
Mas Deus existe.
Logo, a vida faz sentido.
Mas Deus existe.
Logo, a vida faz sentido.
Este
argumento é válido, mas não é um bom argumento, porque as premissas não são
menos discutíveis do que a conclusão.
Para
que um argumento seja bom (ou forte), as premissas têm de ser mais plausíveis
do que a conclusão, como acontece no seguinte exemplo:
Se não se aumentarem os níveis de
exigência de estudo e de trabalho dos alunos no ensino básico, então os alunos
continuarão a enfrentar dificuldades quando chegarem ao ensino secundário.
Ora, não se aumentaram os níveis
de exigência de estudo e de trabalho dos alunos no ensino básico.
Logo, os alunos continuarão a
enfrentar dificuldades quando chegarem ao ensino secundário.
Este
argumento pode ser considerado bom (ou forte), porque, além de ser válido, tem
premissas menos discutíveis do que a conclusão.
As
noções de lógica que acabei de apresentar são elementares, é certo, mas, se as
dominares, ajudar-te-ão a fazer um melhor trabalho na disciplina de Filosofia
e, porventura, noutras.
Nota
Agradeço a Desidério Murcho as sugestões e correcções feitas
à 1.ª versão deste trabalho.
Bibliografia
- Aires Almeida et al.
(2003a). A Arte de Pensar — 10.º ano. Lisboa: Didáctica Editora.
- Aires Almeida et al.
(2003b). A
Arte de Pensar: Capítulo 15 — acetato 2. In A arte de pensar —
Filosofia 10.º — 11.º ano. (24.07.2004)
- Aires Almeida et al.
(2004). A Arte de Pensar — 11.º ano. Lisboa: Didáctica Editora.
- Murcho, D. (2003). O
Lugar da Lógica na Filosofia. Lisboa: Plátano Edições Técnicas.
- Murcho, D. (2004).
Epistemologia da Argumentação. In Crítica: Revista de filosofia e
ensino. (24.07.2004)
- Newton-Smith, W. (1998). Lógica:
um curso introdutório. Lisboa: Gradiva.
- Rodrigues, L. et al.
(2004). Filosofia — 11.º ano. Lisboa: Plátano Editora.
Trabalho realizado no âmbito da Acção de Formação "Lógica e
Filosofia nos Programas de 10.º e 11.º Anos", leccionado por Desidério
Murcho (CEF-SPF) e organizado pelo Centro de
Formação da Associação de Escolas Braga/Sul.
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10º ANO,
11º ANO,
ABORDAGEM INTRODUTÓRIA À FILOSOFIA E AO FILOSOFAR,
ARGUMENTAÇÃO,
Argumentação e lógica formal,
LÓGICA
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
LÓGICA E FILOSOFIA
Pode pensar-se que a lógica
não tem qualquer interesse para a filosofia por ser “meramente formal”. Um
argumento pode ser válido, poderá alguém argumentar, mas isso não garante que a
conclusão seja verdadeira. Como o que interessa à filosofia são as conclusões
verdadeiras, a lógica não tem qualquer interesse, diria essa pessoa.
A resposta a este argumento
é chamar a atenção para duas coisas. Em primeiro lugar, como veremos, nem toda
a lógica é “meramente formal”. A lógica informal, precisamente, não é formal. A
lógica informal estuda muitos aspectos da argumentação que não são estudados pela
lógica formal. Todavia, não é possível dominar a lógica informal sem dominar os
aspectos elementares da lógica formal. A lógica formal é o alicerce a partir do
qual se pode erguer a lógica informal.
Em segundo lugar, o
argumento ignora que as conclusões verdadeiras ou plausíveis
Devem ser justificadas e as
suas consequências explicitadas. O papel da lógica na filosofia torna-se
manifesto quando se compreende que os filósofos procuram, implícita ou
explicitamente, bons argumentos para defender as suas ideias. Mas para que um
argumento seja bom é necessário que seja válido. E é a lógica que ajuda a
determinar se um dado argumento é ou não válido.
CLARIFICAÇÃO
E VALIDADE
A lógica desempenha dois
papéis na filosofia: clarifica o pensamento e ajuda a evitar eros de raciocínio.
A filosofia ocupa-se de um conjunto de problemas. Os filósofos, ao longo da
história, têm dado reposta a esses problemas, tentando solucioná-los. Para isso
apresentam teorias e argumentos. A lógica permite assumir uma posição crítica
perante os problemas, as teorias e os argumentos da filosofia:
1.
A lógica permite avaliar criticamente os
problemas da filosofia. Se alguém quiser reflectir sobre o problema de saber
por que razão a cor azul dos átomos verdes é tão estridente, o melhor a fazer é
mostrar que se trata de um falso problema. Por isso são necessários bons
argumentos; não basta afirmar que se trata de um falso problema.
2.
A lógica permite avaliar criticamente as
teorias dois filósofos. Será que uma dada teoria é plausível? Como poderemos
defendê-la? Quais são os seus pontos fracos e quais são os seus pontos fortes?
E porquê?
3.
A lógica permite avaliar criticamente os
argumentos dos filósofos. São esses argumentos bons? Ou são erros subtis de
raciocínio? Ou baseiam-se em premissas tão discutíveis quanto as suas conclusões?
A lógica representa para a
filosofia o que o laboratório representa para o cientista empírico: é o palco
onde as ideias se testam e avaliam criticamente. Sem esta atitude crítica não
há atitude filosófica. Logo, sem lógica não pode haver uma verdadeira atitude
filosófica.
Alguns filósofos não
apresentam muitos argumentos. Manifestam apenas as suas ideias inspiradas e
visões criativas do mundo. Mas o objectivo do estudo da filosofia não é
aprender a repetir acriticamente essas ideias. O objectivo do estudo da
filosofia é saber discutir essas ideias. Ora, não é possível discutir as ideias
dos filósofos e adoptar uma posição crítica sem dispor dos instrumentos lógicos
adequados. Pois discutir ideias é considerar os argumentos que se podem avançar
a favor dessas ideias e compará-los com os argumentos que se podem avançar
contra elas. E, como é evidente, para comparar a solidez dos diferentes
argumentos, a favor e contra uma dada ideia, é necessário dominar a lógica,
formal e informal.
MURCHO, Desidério, O
Lugar da Lógica na Filosofia, 2003. Lisboa: Plátano Editora, pp. 27-28
terça-feira, 27 de setembro de 2016
LÓGICA E ARGUMENTAÇÃO
A argumentação é um instrumento sem o qual
não podemos compreender melhor o mundo nem intervir nele de modo a alcançar os
nossos objectivos; não podemos sequer determinar com rigor quais serão os
melhores objectivos a ter em mente. Os seres humanos estão sós perante o
universo; têm de resolver os seus problemas, enfrentar dificuldades, traçar
planos de acção, fazer escolhas. Para fazer todas estas coisas precisamos de
argumentos. Será que a Terra está imóvel no centro do universo? Que argumentos
há a favor desta ideia? E que argumentos há contra ela? Será que Bin-Laden é
responsável pelo atentado de 11 de Setembro? Que argumentos há a favor desta ideia?
E que argumentos há contra? Será que foi o réu que incendiou propositadamente a
mata? Será que o aborto é permissível? Será que Cristo era um deus? Será que criamos
mais bem-estar se o Estado for o dono da maior parte da economia? Será possível
curar o cancro? E a Sida? O que é a consciência? Será que alguma vez houve vida
em Marte? Queremos respostas a todas estas perguntas, e a muitas mais. Mas as
respostas não nascem nas árvores nem dos livros estrangeiros; temos de ser nós
a procurar descobri-las. Para descobri-las temos de usar argumentos. E quando
argumentamos podemos enganar-nos; podemos argumentar bem ou mal. É por isso que
a lógica é importante. A lógica permite-nos fazer o seguinte:
1)
Distinguir os argumentos correctos dos
incorrectos;
2)
Compreender por que razão uns são correctos e
outros não; e
3)
Aprender a argumentar correctamente.
Os seres humanos eram. E não erram apenas no
que respeita à informação de que dispõem. Eram também ao pensar sobre a
informação de que dispõem, ao retirar consequências dessa informação, ao usar
essa informação na argumentação. Muitos argumentos incorrectos não são
enganadores: são obviamente incorrectos. Mas alguns argumentos incorrectos
parecem correctos. Por exemplo, muitas pessoas sem formação lógica aceitariam o
seguinte argumento:
Tem de haver uma causa para todas as coisas
porque todas as coisas têm uma causa.
Contudo, este argumento é incorrecto. A
lógica ajuda-nos a compreender por que razão este argumento é incorrecto,
apesar de parecer correcto. Chama-se “válido” a um argumento correcto e
“inválido” a um argumento incorrecto. Do ponto de vista estritamente lógico não
há qualquer distinção entre argumentos inválidos que são enganadores porque
parecem válidos, e argumentos inválidos que não são enganadores porque não
parecem válidos. Mas esta distinção é importante, e por isso alguns autores
reservam o termo “falácia” para os argumentos inválidos que parecem válidos.[i] Como é evidente, são as
falácias que são particularmente perigosas. Os argumentos cuja invalidade é
evidente não são enganadores e se todos os argumentos inválidos fossem assim,
não seria necessário estudar lógica para saber evitar erros de argumentação.
Há muitos aspectos da argumentação que não
são estudados pela lógica; por exemplo, alguns aspectos psicológicos. Algumas
pessoas aceitam argumentos inválidos pensando que são válidos; outras, recusam
argumentos válidos pensando que são inválidos. Há vários tipos de factores que
explicam estas atitudes: factores psicológicos, sociológicos, históricos,
patológicos, etc. A lógica não estuda estes aspectos da argumentação, que são
estudados pela psicologia, sociologia, história e psiquiatria.
A lógica também não estuda o que as pessoas
aceitam como argumentação válida, ta como a história não estuda o que as
pessoas pensam sobre o passado. A história estuda o próprio passado e não o que
as pessoas pensam dele, se bem que tenha em conta o que as pessoas pensam do
passado – nomeadamente para determinar se o que as pessoas pensam do passado é
ou não é verdade. Do mesmo modo, a lógica não estuda o que as pessoas aceitam
como argumentação válida, mas a própria argumentação válida, se bem que tenha
em conta o que as pessoas aceitam como argumentação válida – nomeadamente para
determinar se o que as pessoas aceitam como argumentação válida é ou não efectivamente
argumentação válida.
“Argumento”, “inferência”, e “raciocínio” são
termos praticamente equivalentes. Fazer uma inferência é apresentar um
argumento, e raciocinar é retirar conclusões a partir de premissas. Pensar é em
grande parte raciocinar. Um argumento é um conjunto de afirmações de tal forma organizadas
que se pretende que uma delas, a que se chama “conclusão”, seja apoiada pelas
outras, a que se chamam “premissas”.[ii] O que se pretende num
argumento válido é que As suas premissas estejam de tal forma organizadas que
“arrastem” consigo a conclusão. Uma boa analogia é pensar nas premissas e na
conclusão como elos de uma corrente; se o argumento for válido, “puxamos” as
premissas e a conclusão vem “agarrada” a elas; se for inválido, “puxamos” as
premissas mas a conclusão não vem “agarrada” a elas.
Eis alguns exemplos de argumentos:
1.
Não podemos permitir o aborto porque é o assassínio
de um inocente.
2.
Dado que os artistas podem fazer o que muito
bem entenderem, é impossível definir arte.
3.
Considerando que sem Deus tudo é permitido, é
necessária a existência de Deus para fundamentar a moral e dar sentido à vida.
4.
Se Sócrates fosse um deus, seria imortal. Mas
dado que Sócrates não era imortal, não era um deus.
Nem sempre é fácil determinar qual é a
conclusão e quais são as premissas de um dado argumento; mas esse é o primeiro
passo para que o argumento possa ser discutido. No caso do argumento 1 a
conclusão é “Não podemos permitir o aborto” e a premissa é “O aborto é o
assassínio de um inocente”: No caso do argumento 2 a conclusão é “É impossível
definir a arte” e a premissa é “Os artistas podem fazer o que muito bem
entenderem”. O argumento 3 é mais prolixo: a conclusão é “É necessária a
existência de Deus para fundamentar a moral e dar sentido à vida” e a premissa
é “Sem Deus tudo é permitido”.
Para tornar a discussão de argumentos mais
fácil podemos reformulá-los, separando claramente cada uma das premissas da
conclusão. Chama-se “representação canónica” a esta maneira de representar os
argumentos. O argumento 4 pode ser canonicamente representado como se segue:
Se Sócrates fosse um deus, seria imortal.
Sócrates não era imortal.
Logo, Sócrates não era um deus.
É evidente que esta forma de representar
argumentos é artificiosa. Mas é o primeiro passo para que se possa discutir
argumentos, pois só assim se torna claro quais são as premissas e qual é a
conclusão. Esta forma de representar argumentos é já fruto do trabalho de
análise de argumentos.
Reformular argumentos, apresentando-os na sua
forma canónica é um exercício imprescindível no estudo da lógica. Claro que os argumentos
dados para reformular não poderão ser demasiado complexos, pois só um especialista
ou alguém já familiarizado com a lógica poderá reformular argumentos cuja
estrutura seja demasiado complexa. Mas não poderão ser tão simples que surjam
como artificialismos sem qualquer relação com a argumentação real que se encontra
nos ensaios dos filósofos. O objectivo do estudo da lógica é desenvolver as
seguintes capacidades, face a um ensaio filosófico ou outro:
1.
Identificar conclusão ou conclusão principal;
2.
Identificar as premissas, incluindo eventuais
premissas implícitas;
3.
Distinguir diferentes argumentos, explícitos
ou aludidos, que o ensaio apresenta.
Estas capacidades permitem discutir as ideias
dos filósofos e adoptar uma posição crítica. Sem ela, resta a paráfrase e o
monólogo sem rumo, a que habitualmente se chama “comentário de texto” e
“problematização”.
Nos parágrafos precedentes definiu-se e
caracterizou-se a lógica, definindo a noção de argumento, apresentando vários
exemplos, e dando uma ideia intuitiva de argumento válido e inválido. É desta
forma que tem de se proceder. Definir a lógica através da raiz etimológica da
palavra “lógica” nada esclarece. E dar
exemplos d quebra-cabeças, que muitas vezes não envolvem quaisquer argumentos,
mas apenas truques e trocadilhos, ´+e enganador. A lógica deve ser apresentada
como o que realmente é: o estudo de alguns aspectos importantes da
argumentação, que nos permite distinguir os argumentos válidos dos inválidos. A
lógica não é uma espécie de “jogo simbólico” nem de “quebra-cabeças”.
Finalmente, a lógica não é o estudo das
“condições de coerência” do pensamento. A lógica estuda a validade e não a coerência
da argumentação. Um argumento pode ser perfeitamente coerente e ser inválido, como
no exemplo seguinte:
Se a vida não é sagrada, o aborto é
permissível.
Mas a vida é sagrada.
Logo, o aborto não é permissível.
Exercícios
1.
Reformule o seguinte argumento na forma
canónica: “Dado que os animais não têm deveres, não têm direitos. Como os touros
são animais, podemos concluir que não têm direitos.”
2.
Será que todos os textos são argumentativos?
Porquê?
3.
O que é um argumento Dê alguns exemplos.
[i] Distingue-se por vezes falácias de sofismas,
havendo no segundo caso intenção de enganar. Mas esta distinção é irrelevante
para a compreensão da argumentação.
[ii] Um argumento só pode ter uma conclusão, mas
pode ter várias premissas.
MURCHO, Desidério, O
Lugar da Lógica na Filosofia, 2003. Lisboa: Plátano Editora, pp. 9-13
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11º ANO,
ARGUMENTAÇÃO,
Argumentação e lógica formal,
LÓGICA,
Racionalidade argumentativa e filosofia
As disciplinas da filosofia
No que respeita à
formulação de um programa de estudos, tanto para o ensino secundário como para o
superior, exige-se, da parte do professor, uma visão abrangente das diferentes
disciplinas da filosofia. Só essa visão permite hierarquizar quer as
disciplinas quer as matérias obedecendo ao princípio simples de começar pelo
mais central e intuitivo, avançando para o mais especializado e menos
intuitivo. Evidentemente, tal hierarquização terá sempre um certo grau de
vagueza ou oscilação, e estará sempre sujeita a revisão, de acordo com o
progresso da investigação. Por exemplo, a filosofia da mente, secundária no
princípio do séc. XX, assume cada vez mais importância hoje em dia. E a tese
metodológica da prioridade da linguagem, que foi tão popular na filosofia de
meados do séc. XX, e que tanta proeminência deu à filosofia da linguagem, é
hoje recusada pela maior parte dos filósofos.
Em qualquer área de
estudos, o estudante e o investigador carecem de orientação na selva luxuriante
de livros e artigos existentes. Evidentemente, tal orientação, para ser de
qualidade, deverá basear-se em ampla informação da parte dos professores1, e deverá ser tão objectiva quanto
possível. Por exemplo, só porque a área de especialização de um professor é a
metafísica da modalidade, ele não deve impor aos estudantes esta área de
estudos nem os seus autores preferidos, como se fossem centrais e como se a sua
disciplina favorita fosse a mais importante. Quando este tipo de falta de
seriedade educativa acontece, os planos de estudos tornam-se batalhas campais,
tentando cada professor, por todas as vias, impor as suas preferências. O
resultado são planos de estudos aparentemente aleatórios, como acontece com os
programas do ensino secundário, não obedecendo a quaisquer princípios
científicos ou didácticos, mas apenas aos gostos pessoais dos seus autores, ou
ao facto de alguém que é nosso amigo nos ter telefonado na véspera a «sugerir»
que também o seu autor preferido, acabado de reeditar, fosse contemplado.
As disciplinas mais
centrais e gerais da filosofia são as seguintes:
- Metafísica
- Epistemologia
- Ética
- Lógica
A filosofia é uma
disciplina muito vasta e o espaço não permite que descrevamos, nem em geral, a
maior parte dos problemas, teorias e argumentos das suas diferentes
disciplinas. O que se segue é uma mera sinopse2.
A metafísica
estuda problemas relacionados com os aspectos mais gerais da estrutura da
realidade, nomeadamente os seguintes: a natureza da verdade; a independência do
mundo relativamente à nossa experiência; a natureza da objectividade e da
subjectividade; a identidade pessoal; o livre-arbítrio; o sentido da vida; a
natureza da modalidade e a existência de mundos possíveis; a identidade, a
persistência e a substância dos objectos; acontecimentos e substâncias;
universais e particulares; a noção de causalidade e de lei da natureza;
problemas conceptuais do espaço e do tempo. A ontologia é a parte da
metafísica que estuda a existência ou o que há: que tipo de existência têm os
números, ou os universais? Que tipo de existência tem um acontecimento ou uma
proposição? Os temas introdutórios mais comuns3 no que respeita à metafísica são a
identidade pessoal, o livre-arbítrio e a persistência dos objectos.
A epistemologia
estuda problemas relacionados com o conhecimento em geral, nomeadamente os
seguintes: a análise de conhecimento como crença verdadeira justificada; a
estrutura da justificação cognitiva (fundacionalismo, coerentismo,
externalismo, teorias causais, etc.); o problema do cepticismo; fontes de
conhecimento (conhecimento a priori e a posteriori, indução,
testemunho, etc.). Os temas introdutórios mais comuns no que respeita à
epistemologia são a análise de conhecimento, as teorias da justificação
(fundacionismo e coerentismo) e o problema do cepticismo.
A ética (ou a
filosofia moral4) estuda problemas
relacionados com o modo como devemos viver e com o que devemos valorizar. A
ética abrange três áreas ou subdisciplinas distintas: a metaética, a ética
normativa e a ética aplicada. A metaética estuda problemas mais abstractos,
relacionados com a natureza da própria ética; a ética normativa estuda
diferentes sistemas éticos; e a ética aplicada estuda problemas práticos, como
o aborto ou a eutanásia. Eis alguns problemas da ética em geral: o egoísmo
(ético e psicológico); a Regra de Ouro; a natureza da normatividade e da razão
prática; a objectividade do juízo ético; responsabilidade moral, deliberação e
decisão; acrasia; relativismo ou realismo éticos; a incomensurabilidade de
valores. Algumas das teorias normativas mais importantes são a teoria das
virtudes, o utilitarismo e a ética deontológica. Alguns dos problemas mais
estudados em ética aplicada são os seguintes: o aborto, a eutanásia, o estatuto
moral dos animais não humanos, a ética do meio ambiente e o problema ético da
pobreza no mundo. A ética aplicada deu entretanto origem a várias
subdisciplinas próprias, como a ética empresarial, a ética jornalística, a
ética médica, a bioética em geral, a ética universitária, etc. Os temas
introdutórios mais comuns no que respeita à ética prática são o aborto, a
eutanásia e os direitos dos animais; no que respeita à ética normativa, esses
temas são o utilitarismo, a ética de Kant e o egoísmo; e no que respeita à
metaética o tema mais comum é o relativismo ético.
A lógica
estuda e sistematiza a argumentação válida. A lógica tornou-se uma disciplina
praticamente autónoma em relação à filosofia, graças ao seu elevado grau de
precisão e tecnicismo. Hoje em dia, é uma disciplina que recorre a métodos
matemáticos, e os lógicos contemporâneos têm em geral formação matemática.
Todavia, a lógica elementar que se costuma estudar nos cursos de filosofia é
tão básica como a aritmética elementar e não tem elementos matemáticos. A
lógica elementar é usada como instrumento pela filosofia, para garantir
a validade da argumentação.
Quando a filosofia
tem a lógica como objecto de estudo, entramos na área da filosofia da
lógica, que estuda os fundamentos das teorias lógicas e os problemas não
estritamente técnicos levantados pelas diferentes lógicas. Hoje em dia há muitas
lógicas além da teoria clássica da dedução de Russell e Frege (como as lógicas
livres, modais, temporais, paraconsistentes, difusas, intuicionistas, etc.), o
que levanta novos problemas à filosofia da lógica.
A filosofia da lógica
distingue-se da lógica filosófica, que não estuda problemas levantados
por lógicas particulares, mas problemas filosóficos gerais, que se situam na
intersecção da metafísica, da epistemologia e da lógica. São problemas centrais
de grande abrangência, correspondendo à disciplina medieval conhecida por
«Lógica & Metafísica», e abrangendo uma parte dos temas presentes na
própria Metafísica, de Aristóteles: a identidade de objectos, a natureza
da necessidade, a natureza da verdade, o conhecimento a priori, etc.
Precisamente por ser uma «subdisciplina transdisciplinar», o domínio da lógica
filosófica é ainda mais difuso do que o das outras disciplinas. Para agravar as
incompreensões, alguns filósofos chamam «lógica filosófica» à filosofia da
lógica (e vice-versa). Em qualquer caso, o importante é não pensar que a lógica
filosófica é um género de lógica, a par da lógica clássica, mas «mais
filosófica»; pelo contrário, e algo paradoxalmente, a lógica filosófica, não é
uma lógica no sentido em que a lógica clássica é uma lógica, isto é, no sentido
de uma articulação sistemática das regras da argumentação válida.
A lógica informal
estuda os aspectos da argumentação válida que não dependem exclusivamente da
forma lógica. O tema introdutório mais comum no que respeita à lógica é a
teoria clássica da dedução (lógica proposicional e de predicados, incluindo
formalizações elementares da linguagem natural); a lógica aristotélica é por
vezes ensinada, a nível universitário, como complemento histórico e não como
alternativa à lógica clássica.
O grupo seguinte de
disciplinas da filosofia são menos centrais do que as anteriores:
- Filosofia da religião
- Filosofia política
- Estética e filosofia da arte
- Filosofia da ciência
- Filosofia da mente
- Filosofia da linguagem
Afirma-se que uma
disciplina como a ética, por exemplo, é mais central do que a filosofia
política, por exemplo, porque de algum modo a filosofia política estuda
problemas éticos específicos da vida numa sociedade politicamente organizada,
tal como a filosofia da ciência estuda aspectos metafísicos, lógicos e
epistemológicos da ciência. Evidentemente, a distinção entre estes dois grupos
de disciplinas é algo vaga: não há critérios de diferenciação que permitam
traçar uma fronteira nítida. Mas a ausência de fronteira clara não é a ausência
clara de fronteira.
A filosofia da
religião estuda temas como os seguintes: argumentos a favor e contra a
existência de Deus, como os argumentos ontológico, do desígnio ou cosmológico,
e o problema do mal; a racionalidade e a epistemologia da fé; a natureza de
Deus e as suas propriedades; filosofia da linguagem religiosa; a ideia de alma
e de imortalidade. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta
disciplina são os argumentos a favor de Deus e as suas críticas, o problema do
mal e o fideísmo.
A filosofia
política estuda o modo como podemos viver em sociedade e o modo como
devemos fazê-lo, o que levanta problemas como os seguintes: a justificação do
estado e da obrigação política; a justificação do anarquismo; a natureza da
justiça; a justificação da democracia; a igualdade; o liberalismo político, a
liberdade e os mercados livres; a propriedade privada; os direitos naturais; o
problema da punição. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta
disciplina são o problema da justificação do estado, as teorias contratualistas
e a liberdade.
A estética e a
filosofia da arte são subtilmente distintas, mas hoje em dia estuda-se
sobretudo a última. A estética estuda a natureza do juízo estético em geral; a
filosofia da arte estuda problemas como a definição de obra de arte e o valor
da arte. O tema introdutório mais comum no que respeita a esta disciplina é a
definição de obra arte, estudando-se em geral as várias teorias que respondem a
este problema.
A filosofia da
ciência estuda aspectos epistemológicos, metafísicos e lógicos relacionados
com as ciências em geral, incluindo as ciências da natureza e as ciências
humanas. Eis alguns dos temas estudados nesta disciplina: a relação entre
teoria e observação; a confirmação de teorias científicas; a interpretação da
probabilidade; a noção de explicação científica e de leis da natureza; realismo
e anti-realismo científicos; incomensurabilidade de teorias; o estatuto dos
inobserváveis; unidade e diversidade das ciências. A filosofia das ciências tem
dado origem a várias subdisciplinas especializadas: filosofia da biologia,
filosofia da física, filosofia das ciências humanas e filosofia da história. Os
temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta disciplina são a relação
entre observação e teoria, o problema da confirmação (indutivismo e
falsificacionismo), realismo e anti-realismo científicos, e o problema da
demarcação (entre ciências e não ciências).
A filosofia da
mente estuda problemas metafísicos e epistemológicos relacionados com os
fenómenos mentais. Eis alguns dos temas estudados nesta disciplina: a relação
mente-corpo — fisicalismo, dualismo, funcionalismo; o problema da causalidade
mental; a existência de mentes alheias (o problema do solipsismo); o valor da
introspecção e a autoridade da primeira pessoa com respeito aos seus estados
mentais; os fenómenos mentais: consciência e experiência, qualia,
conteúdo perceptivo; intencionalidade e atitudes proposicionais; internalismo e
externalismo mental; o papel e a natureza das emoções; a natureza da acção;
acrasia. Tanto a filosofia da linguagem como a metafísica e a filosofia da
psicologia estão intimamente relacionadas com a filosofia da mente. Os temas
introdutórios mais comuns no que respeita a esta disciplina são as teorias fisicalistas,
dualistas e funcionalistas sobre o problema da mente-corpo e o problema do
solipsismo.
A filosofia da
linguagem estuda todos os problemas relacionados com o funcionamento da
linguagem e o fenómeno do significado linguístico. Eis alguns dos temas desta
disciplina: a natureza do significado — significado, verdade e realismo,
indeterminação; pragmática; a natureza do conhecimento do significado e das
regras linguísticas; o problema da referência: indexicais e demonstrativos,
nomes próprios, descrições definidas, quantificação e anáfora; atitudes
proposicionais; sentido, força e modo; advérbios e quantificação sobre
acontecimentos; a distinção entre diferentes línguas, linguagens e idiolectos;
o significado das metáforas. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita
a esta disciplina são as teorias da referência e as descrições definidas.
Disciplinas
decididamente menos centrais e mais especializadas, sendo muitas vezes
subdisciplinas das anteriores, são as seguintes:
- Filosofia da acção e filosofia da psicologia — Partes
próprias da filosofia da mente, da filosofia da ciência e da metafísica.
- Filosofia do direito — Parte própria da
filosofia política e da ética.
- Filosofia das ciências humanas — Parte
própria da filosofia da ciência.
- Filosofia da matemática — Parte própria da
metafísica, epistemologia e filosofia da linguagem.
A história da
filosofia está sempre presente no estudo das diferentes disciplinas
filosóficas sumariamente apresentadas acima. Ao estudar as diferentes
disciplinas filosóficas, verifica-se que muitos dos problemas, teorias e
argumentos foram originalmente estudados por autores clássicos como Platão,
Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes, Hume, Leibniz, Kant, Russell, Frege,
Wittgenstein, etc. Por exemplo, ao estudar ética deontológica discutem-se
ideias clássicas de Kant, mas também as contemporâneas; ao estudar o problema
da definição de conhecimento discutem-se ideias de Platão, mas também as ideias
contemporâneas.
No estudo directo da
história da filosofia discute-se explicitamente o pensamento dos autores
clássicos mais importantes, dos pré-socráticos à actualidade. O estudo
introdutório da história da filosofia é também tematicamente orientado. Dado
que não se pode ter a veleidade de estudar todos os aspectos do pensamento de
todos os principais filósofos clássicos, é comum escolher as contribuições
filosóficas mais significativas dos principais filósofos, estudando-se apenas
esses aspectos. Isto, por sua vez, implica a capacidade para transmitir ao
estudante os problemas, as teorias e os argumentos filosóficos que estão em
causa e que tornam essas contribuições filosoficamente significativas. Por
exemplo, para estudar o Teeteto, de Platão, é necessário explicar,
tirando partido do entendimento que hoje temos das coisas, o que é o
problema da definição de conhecimento. É por esta razão que não se pode estudar
história da filosofia sem dominar a própria filosofia: a filosofia é prévia à
sua história. E como deveria ser evidente, estudar um problema do ponto de
vista do próprio autor implicaria nunca avançar na compreensão das coisas;
seria como estudar a poesia de Camões da perspectiva de Camões, sem todo o
conhecimento que entretanto ganhámos da poesia: um exercício fútil.
Notas
1 O bom professor lê abundantemente, para poder
escolher, do que leu, o que se adequa ao estudante e é central para a formação
deste.
2 Para uma visão mais completa sugere-se a
consulta de London Philosophy Study Guide, preparado colectivamente
pelos departamentos de filosofia da Universidade de Londres (Londres, 2001), e
disponível gratuitamente em
3 Isto é, os que costumam ser leccionados em
cursos de licenciatura de algumas das melhores universidades, e os que surgem
em alguns dos melhores livros introdutórios. A escolha destes temas
introdutórios não é aleatória: corresponde ao facto de se tratar de temas
centrais mais intuitivos, que o estudante que dá os primeiros passos na
disciplina mais facilmente compreende, e que, por serem centrais, são
estruturantes.
4 Faz-se por vezes uma distinção vaga e confusa
entre ética e moral, que não tem qualquer relevância teórica ou didáctica,
obscurecendo mais do que esclarecendo.
Retirado do livro Renovar
o Ensino da Filosofia (Lisboa: Gradiva, 2003).
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