segunda-feira, 3 de outubro de 2016

VALIDADE E VERDADE

O termo “validade” tem em filosofia e lógica um significado especializado, diferente do seu significado popular. No dia-a-dia usa-se o termo “validade” para dizer que algo tem valor, que é interessante, que deve ser tido em consideração; assim, é comum dizer que uma dada afirmação é váliada. Contudo, do mesmo modo que “massa” em física não quer dizer esparguete e que “altura” em música não quer dizer volume – porque são termos especializados -, também em filosofia e lógica “validade” não quer dizer que algo tem valor. A validade é uma propriedade exclusiva dos argumentos; não se aplica, neste sentido especializado a afirmações. Por outro lado, a verdade é uma propriedade exclusiva das afirmações que compõem s argumentos – as premissas e a conclusão – mas não dos próprios argumentos. Não se pode, pois, dizer que um argumento é verdadeiro nem que uma afirmação é válida.
Como veremos, há dois tipos principais de validade: a dedutiva e a não-dedutiva. Vamos para já deter-nos na validade dedutiva, pois é a mais simples de compreender e a base para compreender a validade não-dedutiva. A validade dedutiva define-se do seguinte modo: um argumento dedutivo +e válido se, e só se, é impossível as suas premissas serem verdadeiras e a sua conclusão falsa. Esta definição está correcta, mas compreende-se melhor[1] se se disser que num argumento dedutivo válido é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa, e se ao mesmo tempo se apresentar exemplos relevantes:
1.    Sócrates e Aristóteles eram gregos.
Logo, Sócrates era grego.
É intuitivamente óbvio que é impossível a premissa ser verdadeira e a conclusão falsa. É por isso que este argumento é dedutivamente válido. Claro que o tipo de argumentos dedutivamente válidos que interessam na argumentação, filosófica ou outra, são mais complexos do que este. E a validade não é uma condição suficiente para que um argumento seja bom apesar de ser uma condição necessária.
Não é fácil compreender a noção de validade porque esta implica a capacidade para pensar em probabilidades. Para já, importa desfazer algumas ideias falsas sobre a validade.
Em primeiro lugar, não basta que um argumento tenha premissas e conclusão verdadeiras para ser válido. Vejamos o seguinte argumento:
  1. Sócrates era um filósofo.
Logo, Kant era alemão. É intuitivamente óbvio que este argumento é inválido, apesar de a premissa e a conclusão serem verdadeiras. Intuitivamente, compreende-se porquê: porque não há qualquer conexão entre a premissa e a conclusão; isto é, porque o facto de a premissa ser verdadeira não tem qualquer relação com o faço da conclusão ser verdadeira. Esta ideia intuitiva de conexão pode ser usada para clarificar a noção de validade, recorrendo á referida analogia entre argumentos e correntes: quando s argumentos são válidos as premissas estão conectadas cm a conclusão. É por isso que o argumento acima é inválido: porque a premissa não está conectada com a conclusão.
Esta ideia de conexão torna-se real ao trabalhar com inspectores de circunstâncias. Em termos rigorosos, exprime-se esta conexão do seguinte modo: um argumento dedutivamente válido não há qualquer circunstância na qual as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. O problema com o argumento acima é que a conclusão é de facto verdadeira, mas não é verdadeira em todas as circunstâncias possíveis em que a premissa é verdadeira.
Um teste intuitivo que é imprescindível dominar é o seguinte: será possível imaginar uma circunstância em que as premissas de um argumento sejam verdadeiras e a conclusão falsa? Se for, o argumento é dedutivamente inválido; se não for, o argumento é válido. Este exercício é estimulante e uma boa base para a compreensão correcta da validade. Regressemos ao argumento 2; poderemos imaginar uma circunstância em que a premissa é verdadeira e a conclusão falsa? Sem dúvida que sim: Imagine-se que Kant tinha nascido em França; esta circunstância torna a conclusão falsa, mas é perfeitamente compatível com a premissa. É por isso que o argumento é inválido: é possível que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa – apesar de serem ambas, de facto, verdadeiras.
Outra propriedade dos argumentos válidos que gera confusões é a seguinte: Um argumento válido pode ter premissas e conclusões falsas. Vejamos um exemplo:
  1. Sócrates e Aristóteles eram egípcios.
Logo, Sócrates era egípcio.
Tanto a premissa como a conclusão são, de facto, falsas; mas o argumento é válido. É válido porque apesar de a premissa e a conclusão serem de facto falsas, é impossível que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa – e é isso que conta na validade dedutiva. Uma vez mais, levantam-se dificuldades porque a noção de validade exige que se pense não apenas nas coisas tal como são, mas nas coisas tal como poderiam ter sido. Ora, o argumento é válido precisamente porque as coisas não pod4eriam ter sido de tal maneira que a premissas fosse verdadeira e a conclusão falsa. É necessário procurar imaginar uma circunstância na qual a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa – e não se consegue imaginar tal circunstância, pois não existe. Imagine-se que a premissa era verdadeira: que Sócrates e Aristóteles eram egípcios. Nesta circunstância, também a conclusão é verdadeira. Logo, o argumento é válido.
Em suma: um argumento dedutivo pode ser válido apesar de ter premissas e conclusões falsas; e pode ser inválido apesar de ter premissas e conclusões verdadeiras. Isto acontece porque a validade é uma propriedade da conexão entre as premissas e a conclusão, e não uma propriedade das próprias premissas e conclusões. Num argumento dedutivo válido só não pode acontecer o seguinte: que as suas premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Todas as outras hipóteses são possíveis. Por outro lado, num argumento inválido, tudo pode acontecer – precisamente porque não há qualquer conexão entre as premissas e a conclusão. Podemos assim elaborar a seguinte tabela:



Premissas verdadeiras
Premissas falsas
Conclusão verdadeira
Conclusão falsa
Válido ou inválido
Inválido
Válido ou inválido
Válido ou inválido

Exercícios
  1. O que é a validade dedutiva?
  2. Será que uma afirmação pode ser válida? Porquê?
  3. Será que um argumento pode ser verdadeiro? Porquê?
  4. Será que um argumento inválido pode ter uma conclusão verdadeira? Porquê?
  5. Poderá um argumento válido ter uma conclusão falsa? Porquê?
  6. Poderá um argumento válido com uma premissa falsa ter uma conclusão verdadeira? Porquê?
MURCHO, Desidério, O Lugar da Lógica na Filosofia, 2003. Lisboa: Plátano Editora, pp. 14-18



[1] Nomeadamente, porque só depois de estudar lógica proposicional se está em condições de compreender plenamente o que significa a expressão que tipicamente se usa nas definições: “se, e só se”.

Algumas noções de lógica

António Aníbal Padrão
Escola Secundária de Alberto Sampaio, Braga

Introdução

Todas as disciplinas têm um objecto de estudo. O objecto de estudo de uma disciplina é aquilo que essa disciplina estuda. Então, qual é o objecto de estudo da lógica? O que é que a lógica estuda? A lógica estuda e sistematiza a validade ou invalidade da argumentação. Também se diz que estuda inferências ou raciocínios. Podes considerar que argumentos, inferências e raciocínios são termos equivalentes.
Muito bem, a lógica estuda argumentos. Mas qual é o interesse disso para a filosofia? Bem, tenho de te lembrar que a argumentação é o coração da filosofia. Em filosofia temos a liberdade de defender as nossas ideias, mas temos de sustentar o que defendemos com bons argumentos e, é claro, também temos de aceitar discutir os nossos argumentos.
Os argumentos constituem um dos três elementos centrais da filosofia. Os outros dois são os problemas e as teorias. Com efeito, ao longo dos séculos, os filósofos têm procurado resolver problemas, criando teorias que se apoiam em argumentos.
Estás a ver por que é que o estudo dos argumentos é importante, isto é, por que é que a lógica é importante. É importante, porque nos ajuda a distinguir os argumentos válidos dos inválidos, permite-nos compreender por que razão uns são válidos e outros não e ensina-nos a argumentar correctamente. E isto é fundamental para a filosofia.

O que é um argumento?

Um argumento é um conjunto de proposições que utilizamos para justificar (provar, dar razão, suportar) algo. A proposição que queremos justificar tem o nome de conclusão; as proposições que pretendem apoiar a conclusão ou a justificam têm o nome de premissas.
Supõe que queres pedir aos teus pais um aumento da "mesada". Como justificas este aumento? Recorrendo a razões, não é? Dirás qualquer coisa como:
Os preços no bar da escola subiram; como eu lancho no bar da escola, o lanche fica me mais caro. Portanto, preciso de um aumento da "mesada".
Temos aqui um argumento, cuja conclusão é: "preciso de um aumento da 'mesada'". E como justificas esta conclusão? Com a subida dos preços no bar da escola e com o facto de lanchares no bar. Então, estas são as premissas do teu argumento, são as razões que utilizas para defender a conclusão.
Este exemplo permite-nos esclarecer outro aspecto dos argumentos, que é o seguinte: embora um argumento seja um conjunto de proposições, nem todos os conjuntos de proposições são argumentos. Por exemplo, o seguinte conjunto de proposições não é um argumento:

Eu lancho no bar da escola, mas o João não.
A Joana come pipocas no cinema.
O Rui foi ao museu.
Neste caso, não temos um argumento, porque não há nenhuma pretensão de justificar uma proposição com base nas outras. Nem há nenhuma pretensão de apresentar um conjunto de proposições com alguma relação entre si. Há apenas uma sequência de afirmações. E um argumento é, como já vimos, um conjunto de proposições em que se pretende que uma delas seja sustentada ou justificada pelas outras — o que não acontece no exemplo anterior.
Um argumento pode ter uma ou mais premissas, mas só pode ter uma conclusão.
Exemplos de argumentos com uma só premissa:
Exemplo 1
Premissa: Todos os portugueses são europeus.
Conclusão: Logo, alguns europeus são portugueses.
Exemplo 2
Premissa: O João e o José são alunos do 11.º ano.
Conclusão: Logo, o João é aluno do 11.º ano.
Exemplos de argumentos com duas premissas:
Exemplo 1
Premissa 1: Se o João é um aluno do 11.º ano, então estuda filosofia.
Premissa 2: O João é um aluno do 11.º ano.
Conclusão: Logo, o João estuda filosofia.
Exemplo 2
Premissa 1: Se não houvesse vida para além da morte, então a vida não faria sentido.
Premissa 2: Mas a vida faz sentido.
Conclusão: Logo, há vida para além da morte.
Exemplo 3:
Premissa 1: Todos os minhotos são portugueses.
Premissa 2: Todos os portugueses são europeus.
Conclusão: Todos os minhotos são europeus.

É claro que a maior parte das vezes os argumentos não se apresentam nesta forma. Repara, por exemplo, no argumento de Kant a favor do valor objectivo da felicidade, tal como é apresentado por Aires Almeida et al. (2003b) no site de apoio ao manual A Arte de Pensar:
"De um ponto de vista imparcial, cada pessoa é um fim em si. Mas se cada pessoa é um fim em si, a felicidade de cada pessoa tem valor de um ponto de vista imparcial e não apenas do ponto de vista de cada pessoa. Dado que cada pessoa é realmente um fim em si, podemos concluir que a felicidade tem valor de um ponto de vista imparcial."
Neste argumento, a conclusão está claramente identificada ("podemos concluir que…"), mas nem sempre isto acontece. Contudo, há certas expressões que nos ajudam a perceber qual é a conclusão do argumento e quais são as premissas. Repara, no argumento anterior, na expressão "dado que". Esta expressão é um indicador de premissa: ficamos a saber que o que se segue a esta expressão é uma premissa do argumento. Também há indicadores de conclusão: dois dos mais utilizados são "logo" e "portanto".
Um indicador é um articulador do discurso, é uma palavra ou expressão que utilizamos para introduzir uma razão (uma premissa) ou uma conclusão. O quadro seguinte apresenta alguns indicadores de premissa e de conclusão:
Indicadores de premissa
Indicadores de conclusão
pois
porque
dado que
como foi dito
visto que
devido a
a razão é que
admitindo que
sabendo-se que
assumindo que
por isso
por conseguinte
implica que
logo
portanto
então
daí que
segue-se que
pode-se inferir que
consequentemente

É claro que nem sempre as premissas e a conclusão são precedidas por indicadores. Por exemplo, no argumento:
O Mourinho é treinador de futebol e ganha mais de 100000 euros por mês. Portanto, há treinadores de futebol que ganham mais de 100000 euros por mês.
A conclusão é precedida do indicador "Portanto", mas as premissas não têm nenhum indicador.
Por outro lado, aqueles indicadores (palavras e expressões) podem aparecer em frases sem que essas frases sejam premissas ou conclusões de argumentos. Por exemplo, se eu disser:
Depois de se separar do dono, o cão nunca mais foi o mesmo. Então, um dia ele partiu e nunca mais foi visto. Admitindo que não morreu, onde estará?
O que se segue à palavra "Então" não é conclusão de nenhum argumento, e o que segue a "Admitindo que" não é premissa, pois nem sequer tenho aqui um argumento. Por isso, embora seja útil, deves usar a informação do quadro de indicadores de premissa e de conclusão criticamente e não de forma automática.

Proposições e frases

Um argumento é um conjunto de proposições. Quer as premissas quer a conclusão de um argumento são proposições. Mas o que é uma proposição?
·  Uma proposição é o pensamento que uma frase declarativa exprime literalmente.
Não deves confundir proposições com frases. Uma frase é uma entidade linguística, é a unidade gramatical mínima de sentido. Por exemplo, o conjunto de palavras "Braga é uma" não é uma frase. Mas o conjunto de palavras "Braga é uma cidade" é uma frase, pois já se apresenta com sentido gramatical.
Há vários tipos de frases: declarativas, interrogativas, imperativas e exclamativas. Mas só as frases declarativas exprimem proposições. Uma frase só exprime uma proposição quando o que ela afirma tem valor de verdade.
Por exemplo, as seguintes frases não exprimem proposições, porque não têm valor de verdade, isto é, não são verdadeiras nem falsas:
1. Que horas são?
2. Traz o livro.
3. Prometo ir contigo ao cinema.
4. Quem me dera gostar de Matemática.
Mas as frases seguintes exprimem proposições, porque têm valor de verdade, isto é, são verdadeiras ou falsas, ainda que, acerca de algumas, não saibamos, neste momento, se são verdadeiras ou falsas:
1. Braga é a capital de Portugal.
2. Braga é uma cidade minhota.
3. A neve é branca.
4. Há seres extraterrestres inteligentes.
A frase 1 é falsa, a 2 e a 3 são verdadeiras. E a 4? Bem, não sabemos qual é o seu valor de verdade, não sabemos se é verdadeira ou falsa, mas sabemos que tem de ser verdadeira ou falsa. Por isso, também exprime uma proposição.
Uma proposição é uma entidade abstracta, é o pensamento que uma frase declarativa exprime literalmente. Ora, um mesmo pensamento pode ser expresso por diferentes frases. Por isso, a mesma proposição pode ser expressa por diferentes frases. Por exemplo, as frases "O governo demitiu o presidente da TAP" e "O presidente da TAP foi demitido pelo governo" exprimem a mesma proposição. As frases seguintes também exprimem a mesma proposição: "A neve é branca" e "Snow is white".

Ambiguidade e vagueza

Para além de podermos ter a mesma proposição expressa por diferentes frases, também pode acontecer que a mesma frase exprima mais do que uma proposição. Neste caso dizemos que a frase é ambígua. A frase "Em cada dez minutos, um homem português pega numa mulher ao colo" é ambígua, porque exprime mais do que uma proposição: tanto pode querer dizer que existe um homem português (sempre o mesmo) que, em cada dez minutos, pega numa mulher ao colo, como pode querer dizer que, em cada dez minutos, um homem português (diferente) pega numa mulher ao colo (a sua).
Por vezes, deparamo-nos com frases que não sabemos com exactidão o que significam. São as frases vagas. Uma frase vaga é uma frase que dá origem a casos de fronteira indecidíveis. Por exemplo, "O professor de Filosofia é calvo" é uma frase vaga, porque não sabemos a partir de quantos cabelos é que podemos considerar que alguém é calvo. Quinhentos? Cem? Dez? Outro exemplo de frase vaga é o seguinte: "Muitos alunos tiveram negativa no teste de Filosofia". Muitos, mas quantos? Dez? Vinte? Em filosofia devemos evitar as frases vagas, pois, se não comunicarmos com exactidão o nosso pensamento, como é que podemos esperar que os outros nos compreendam?

Validade e verdade

A verdade é uma propriedade das proposições. A validade é uma propriedade dos argumentos. É incorrecto falar em proposições válidas. As proposições não são válidas nem inválidas. As proposições só podem ser verdadeiras ou falsas. Também é incorrecto dizer que os argumentos são verdadeiros ou que são falsos. Os argumentos não são verdadeiros nem falsos. Os argumentos dizem-se válidos ou inválidos.
Quando é que um argumento é válido? Por agora, referirei apenas a validade dedutiva. Diz-se que um argumento dedutivo é válido quando é impossível que as suas premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Repara que, para um argumento ser válido, não basta que as premissas e a conclusão sejam verdadeiras. É preciso que seja impossível que sendo as premissas verdadeiras, a conclusão seja falsa.
Considera o seguinte argumento:
Premissa 1: Alguns treinadores de futebol ganham mais de 100000 euros por mês.
Premissa 2: O Mourinho é um treinador de futebol.
Conclusão: Logo, o Mourinho ganha mais de 100000 euros por mês.
Neste momento (Julho de 2004), em que o Mourinho é treinador do Chelsea e os jornais nos informam que ganha muito acima de 100000 euros por mês, este argumento tem premissas verdadeiras e conclusão verdadeira e, contudo, não é válido. Não é válido, porque não é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Podemos perfeitamente imaginar uma circunstância em que o Mourinho ganhasse menos de 100000 euros por mês (por exemplo, o Mourinho como treinador de um clube do campeonato regional de futebol, a ganhar 1000 euros por mês), e, neste caso, a conclusão já seria falsa, apesar de as premissas serem verdadeiras. Portanto, o argumento é inválido.
Considera, agora, o seguinte argumento, anteriormente apresentado:
Premissa: O João e o José são alunos do 11.º ano.
Conclusão: Logo, o João é aluno do 11.º ano.
Este argumento é válido, pois é impossível que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa. Ao contrário do argumento que envolve o Mourinho, neste não podemos imaginar nenhuma circunstância em que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa. Podes imaginar o caso em que o João não é aluno do 11.º ano. Bem, isto significa que a conclusão é falsa, mas a premissa também é falsa.
Repara, agora, no seguinte argumento:
Premissa 1: Todos os números primos são pares.
Premissa 2: Nove é um número primo.
Conclusão: Logo, nove é um número par.
Este argumento é válido, apesar de quer as premissas quer a conclusão serem falsas. Continua a aplicar-se a noção de validade dedutiva anteriormente apresentada: é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. A validade de um argumento dedutivo depende da conexão lógica entre as premissas e a conclusão do argumento e não do valor de verdade das proposições que constituem o argumento. Como vês, a validade é uma propriedade diferente da verdade. A verdade é uma propriedade das proposições que constituem os argumentos (mas não dos argumentos) e a validade é uma propriedade dos argumentos (mas não das proposições).
Então, repara que podemos ter:
·  Argumentos válidos, com premissas verdadeiras e conclusão verdadeira;
·  Argumentos válidos, com premissas falsas e conclusão falsa;
·  Argumentos válidos, com premissas falsas e conclusão verdadeira;
·  Argumentos inválidos, com premissas verdadeiras e conclusão verdadeira;
·  Argumentos inválidos, com premissas verdadeiras e conclusão falsa;
·  Argumentos inválidos, com premissas falsas e conclusão falsa; e
·  Argumentos inválidos, com premissas falsas e conclusão verdadeira.
Mas não podemos ter:
·  Argumentos válidos, com premissas verdadeiras e conclusão falsa.
Como podes determinar se um argumento dedutivo é válido? Podes seguir esta regra:
Mesmo que as premissas do argumento não sejam verdadeiras, imagina que são verdadeiras. Consegues imaginar alguma circunstância em que, considerando as premissas verdadeiras, a conclusão é falsa? Se sim, então o argumento não é válido. Se não, então o argumento é válido.
Lembra-te: num argumento válido, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão não pode ser falsa.

Argumentos sólidos e argumentos bons

Em filosofia não é suficiente termos argumentos válidos, pois, como viste, podemos ter argumentos válidos com conclusão falsa (se pelo menos uma das premissas for falsa). Em filosofia pretendemos chegar a conclusões verdadeiras. Por isso, precisamos de argumentos sólidos.
·  Um argumento sólido é um argumento válido com premissas verdadeiras.
Um argumento sólido não pode ter conclusão falsa, pois, por definição, é válido e tem premissas verdadeiras; ora, a validade exclui a possibilidade de se ter premissas verdadeiras e conclusão falsa.
O seguinte argumento é válido, mas não é sólido:
Todos os minhotos são alentejanos.
Todos os bracarenses são minhotos.
Logo, todos os bracarenses são alentejanos.
Este argumento não é sólido, porque a primeira premissa é falsa (os minhotos não são alentejanos). E é porque tem uma premissa falsa que a conclusão é falsa, apesar de o argumento ser válido.
O seguinte argumento é sólido (é válido e tem premissas verdadeiras):
Todos os minhotos são portugueses.
Todos os bracarenses são minhotos.
Logo, todos os bracarenses são portugueses.
Também podemos ter argumentos sólidos deste tipo:
Sócrates era grego.
Logo, Sócrates era grego.

(É claro que me estou a referir ao Sócrates, filósofo grego e mestre de Platão, e não ao Sócrates, candidato a secretário geral do Partido Socialista. Por isso, a premissa e a conclusão são verdadeiras.)
Este argumento é sólido, porque tem premissa verdadeira e é impossível que, sendo a premissa verdadeira, a conclusão seja falsa. É sólido, mas não é um bom argumento, porque a conclusão se limita a repetir a premissa.
·  Um argumento bom (ou forte) é um argumento válido persuasivo (persuasivo, do ponto de vista racional).
Fica agora claro por que é que o argumento "Sócrates era grego; logo, Sócrates era grego", apesar de sólido, não é um bom argumento: a razão que apresentamos a favor da conclusão não é mais plausível do que a conclusão e, por isso, o argumento não é persuasivo.
Talvez recorras a argumentos deste tipo, isto é, argumentos que não são bons (apesar de sólidos), mais vezes do que imaginas. Com certeza, já viveste situações semelhantes a esta:

— Pai, preciso de um aumento da "mesada".
— Porquê?
— Porque sim.
O que temos aqui? O seguinte argumento:
Preciso de um aumento da "mesada".
Logo, preciso de um aumento da "mesada".

Afinal, querias justificar o aumento da "mesada" (conclusão) e não conseguiste dar nenhuma razão plausível para esse aumento. Limitaste-te a dizer "Porque sim", ou seja, "Preciso de um aumento da 'mesada', porque preciso de um aumento da 'mesada'". Como vês, trata-se de um argumento muito mau, pois com um argumento deste tipo não consegues persuadir ninguém.
Mas não penses que só os argumentos em que a conclusão repete a premissa é que são maus. Um argumento é mau (ou fraco) se as premissas não forem mais plausíveis do que a conclusão. É o que acontece com o seguinte argumento:

Se a vida não faz sentido, então Deus não existe.
Mas Deus existe.
Logo, a vida faz sentido.
Este argumento é válido, mas não é um bom argumento, porque as premissas não são menos discutíveis do que a conclusão.
Para que um argumento seja bom (ou forte), as premissas têm de ser mais plausíveis do que a conclusão, como acontece no seguinte exemplo:

Se não se aumentarem os níveis de exigência de estudo e de trabalho dos alunos no ensino básico, então os alunos continuarão a enfrentar dificuldades quando chegarem ao ensino secundário.
Ora, não se aumentaram os níveis de exigência de estudo e de trabalho dos alunos no ensino básico.
Logo, os alunos continuarão a enfrentar dificuldades quando chegarem ao ensino secundário.

Este argumento pode ser considerado bom (ou forte), porque, além de ser válido, tem premissas menos discutíveis do que a conclusão.
As noções de lógica que acabei de apresentar são elementares, é certo, mas, se as dominares, ajudar-te-ão a fazer um melhor trabalho na disciplina de Filosofia e, porventura, noutras.

Nota

Agradeço a Desidério Murcho as sugestões e correcções feitas à 1.ª versão deste trabalho.

Bibliografia

  • Aires Almeida et al. (2003a). A Arte de Pensar — 10.º ano. Lisboa: Didáctica Editora.
  • Aires Almeida et al. (2003b). A Arte de Pensar: Capítulo 15 — acetato 2. In A arte de pensar — Filosofia 10.º — 11.º ano. (24.07.2004)
  • Aires Almeida et al. (2004). A Arte de Pensar — 11.º ano. Lisboa: Didáctica Editora.
  • Murcho, D. (2003). O Lugar da Lógica na Filosofia. Lisboa: Plátano Edições Técnicas.
  • Murcho, D. (2004). Epistemologia da Argumentação. In Crítica: Revista de filosofia e ensino. (24.07.2004)
  • Newton-Smith, W. (1998). Lógica: um curso introdutório. Lisboa: Gradiva.
  • Rodrigues, L. et al. (2004). Filosofia — 11.º ano. Lisboa: Plátano Editora.
Trabalho realizado no âmbito da Acção de Formação "Lógica e Filosofia nos Programas de 10.º e 11.º Anos", leccionado por Desidério Murcho (CEF-SPF) e organizado pelo Centro de Formação da Associação de Escolas Braga/Sul.

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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

LÓGICA E FILOSOFIA

Pode pensar-se que a lógica não tem qualquer interesse para a filosofia por ser “meramente formal”. Um argumento pode ser válido, poderá alguém argumentar, mas isso não garante que a conclusão seja verdadeira. Como o que interessa à filosofia são as conclusões verdadeiras, a lógica não tem qualquer interesse, diria essa pessoa.
A resposta a este argumento é chamar a atenção para duas coisas. Em primeiro lugar, como veremos, nem toda a lógica é “meramente formal”. A lógica informal, precisamente, não é formal. A lógica informal estuda muitos aspectos da argumentação que não são estudados pela lógica formal. Todavia, não é possível dominar a lógica informal sem dominar os aspectos elementares da lógica formal. A lógica formal é o alicerce a partir do qual se pode erguer a lógica informal.
Em segundo lugar, o argumento ignora que as conclusões verdadeiras ou plausíveis
Devem ser justificadas e as suas consequências explicitadas. O papel da lógica na filosofia torna-se manifesto quando se compreende que os filósofos procuram, implícita ou explicitamente, bons argumentos para defender as suas ideias. Mas para que um argumento seja bom é necessário que seja válido. E é a lógica que ajuda a determinar se um dado argumento é ou não válido.
CLARIFICAÇÃO E VALIDADE
A lógica desempenha dois papéis na filosofia: clarifica o pensamento e ajuda a evitar eros de raciocínio. A filosofia ocupa-se de um conjunto de problemas. Os filósofos, ao longo da história, têm dado reposta a esses problemas, tentando solucioná-los. Para isso apresentam teorias e argumentos. A lógica permite assumir uma posição crítica perante os problemas, as teorias e os argumentos da filosofia:
1.    A lógica permite avaliar criticamente os problemas da filosofia. Se alguém quiser reflectir sobre o problema de saber por que razão a cor azul dos átomos verdes é tão estridente, o melhor a fazer é mostrar que se trata de um falso problema. Por isso são necessários bons argumentos; não basta afirmar que se trata de um falso problema.
2.    A lógica permite avaliar criticamente as teorias dois filósofos. Será que uma dada teoria é plausível? Como poderemos defendê-la? Quais são os seus pontos fracos e quais são os seus pontos fortes? E porquê?
3.    A lógica permite avaliar criticamente os argumentos dos filósofos. São esses argumentos bons? Ou são erros subtis de raciocínio? Ou baseiam-se em premissas tão discutíveis quanto as suas conclusões?
A lógica representa para a filosofia o que o laboratório representa para o cientista empírico: é o palco onde as ideias se testam e avaliam criticamente. Sem esta atitude crítica não há atitude filosófica. Logo, sem lógica não pode haver uma verdadeira atitude filosófica.
Alguns filósofos não apresentam muitos argumentos. Manifestam apenas as suas ideias inspiradas e visões criativas do mundo. Mas o objectivo do estudo da filosofia não é aprender a repetir acriticamente essas ideias. O objectivo do estudo da filosofia é saber discutir essas ideias. Ora, não é possível discutir as ideias dos filósofos e adoptar uma posição crítica sem dispor dos instrumentos lógicos adequados. Pois discutir ideias é considerar os argumentos que se podem avançar a favor dessas ideias e compará-los com os argumentos que se podem avançar contra elas. E, como é evidente, para comparar a solidez dos diferentes argumentos, a favor e contra uma dada ideia, é necessário dominar a lógica, formal e informal.
MURCHO, Desidério, O Lugar da Lógica na Filosofia, 2003. Lisboa: Plátano Editora, pp. 27-28

terça-feira, 27 de setembro de 2016

LÓGICA E ARGUMENTAÇÃO

A argumentação é um instrumento sem o qual não podemos compreender melhor o mundo nem intervir nele de modo a alcançar os nossos objectivos; não podemos sequer determinar com rigor quais serão os melhores objectivos a ter em mente. Os seres humanos estão sós perante o universo; têm de resolver os seus problemas, enfrentar dificuldades, traçar planos de acção, fazer escolhas. Para fazer todas estas coisas precisamos de argumentos. Será que a Terra está imóvel no centro do universo? Que argumentos há a favor desta ideia? E que argumentos há contra ela? Será que Bin-Laden é responsável pelo atentado de 11 de Setembro? Que argumentos há a favor desta ideia? E que argumentos há contra? Será que foi o réu que incendiou propositadamente a mata? Será que o aborto é permissível? Será que Cristo era um deus? Será que criamos mais bem-estar se o Estado for o dono da maior parte da economia? Será possível curar o cancro? E a Sida? O que é a consciência? Será que alguma vez houve vida em Marte? Queremos respostas a todas estas perguntas, e a muitas mais. Mas as respostas não nascem nas árvores nem dos livros estrangeiros; temos de ser nós a procurar descobri-las. Para descobri-las temos de usar argumentos. E quando argumentamos podemos enganar-nos; podemos argumentar bem ou mal. É por isso que a lógica é importante. A lógica permite-nos fazer o seguinte:
1)    Distinguir os argumentos correctos dos incorrectos;
2)    Compreender por que razão uns são correctos e outros não; e
3)    Aprender a argumentar correctamente.
Os seres humanos eram. E não erram apenas no que respeita à informação de que dispõem. Eram também ao pensar sobre a informação de que dispõem, ao retirar consequências dessa informação, ao usar essa informação na argumentação. Muitos argumentos incorrectos não são enganadores: são obviamente incorrectos. Mas alguns argumentos incorrectos parecem correctos. Por exemplo, muitas pessoas sem formação lógica aceitariam o seguinte argumento:
Tem de haver uma causa para todas as coisas porque todas as coisas têm uma causa.
Contudo, este argumento é incorrecto. A lógica ajuda-nos a compreender por que razão este argumento é incorrecto, apesar de parecer correcto. Chama-se “válido” a um argumento correcto e “inválido” a um argumento incorrecto. Do ponto de vista estritamente lógico não há qualquer distinção entre argumentos inválidos que são enganadores porque parecem válidos, e argumentos inválidos que não são enganadores porque não parecem válidos. Mas esta distinção é importante, e por isso alguns autores reservam o termo “falácia” para os argumentos inválidos que parecem válidos.[i] Como é evidente, são as falácias que são particularmente perigosas. Os argumentos cuja invalidade é evidente não são enganadores e se todos os argumentos inválidos fossem assim, não seria necessário estudar lógica para saber evitar erros de argumentação.
Há muitos aspectos da argumentação que não são estudados pela lógica; por exemplo, alguns aspectos psicológicos. Algumas pessoas aceitam argumentos inválidos pensando que são válidos; outras, recusam argumentos válidos pensando que são inválidos. Há vários tipos de factores que explicam estas atitudes: factores psicológicos, sociológicos, históricos, patológicos, etc. A lógica não estuda estes aspectos da argumentação, que são estudados pela psicologia, sociologia, história e psiquiatria.
A lógica também não estuda o que as pessoas aceitam como argumentação válida, ta como a história não estuda o que as pessoas pensam sobre o passado. A história estuda o próprio passado e não o que as pessoas pensam dele, se bem que tenha em conta o que as pessoas pensam do passado – nomeadamente para determinar se o que as pessoas pensam do passado é ou não é verdade. Do mesmo modo, a lógica não estuda o que as pessoas aceitam como argumentação válida, mas a própria argumentação válida, se bem que tenha em conta o que as pessoas aceitam como argumentação válida – nomeadamente para determinar se o que as pessoas aceitam como argumentação válida é ou não efectivamente argumentação válida.
“Argumento”, “inferência”, e “raciocínio” são termos praticamente equivalentes. Fazer uma inferência é apresentar um argumento, e raciocinar é retirar conclusões a partir de premissas. Pensar é em grande parte raciocinar. Um argumento é um conjunto de afirmações de tal forma organizadas que se pretende que uma delas, a que se chama “conclusão”, seja apoiada pelas outras, a que se chamam “premissas”.[ii] O que se pretende num argumento válido é que As suas premissas estejam de tal forma organizadas que “arrastem” consigo a conclusão. Uma boa analogia é pensar nas premissas e na conclusão como elos de uma corrente; se o argumento for válido, “puxamos” as premissas e a conclusão vem “agarrada” a elas; se for inválido, “puxamos” as premissas mas a conclusão não vem “agarrada” a elas.
Eis alguns exemplos de argumentos:
1.    Não podemos permitir o aborto porque é o assassínio de um inocente.
2.    Dado que os artistas podem fazer o que muito bem entenderem, é impossível definir arte.
3.    Considerando que sem Deus tudo é permitido, é necessária a existência de Deus para fundamentar a moral e dar sentido à vida.
4.    Se Sócrates fosse um deus, seria imortal. Mas dado que Sócrates não era imortal, não era um deus.
Nem sempre é fácil determinar qual é a conclusão e quais são as premissas de um dado argumento; mas esse é o primeiro passo para que o argumento possa ser discutido. No caso do argumento 1 a conclusão é “Não podemos permitir o aborto” e a premissa é “O aborto é o assassínio de um inocente”: No caso do argumento 2 a conclusão é “É impossível definir a arte” e a premissa é “Os artistas podem fazer o que muito bem entenderem”. O argumento 3 é mais prolixo: a conclusão é “É necessária a existência de Deus para fundamentar a moral e dar sentido à vida” e a premissa é “Sem Deus tudo é permitido”.
Para tornar a discussão de argumentos mais fácil podemos reformulá-los, separando claramente cada uma das premissas da conclusão. Chama-se “representação canónica” a esta maneira de representar os argumentos. O argumento 4 pode ser canonicamente representado como se segue:
Se Sócrates fosse um deus, seria imortal.
Sócrates não era imortal.
Logo, Sócrates não era um deus.
É evidente que esta forma de representar argumentos é artificiosa. Mas é o primeiro passo para que se possa discutir argumentos, pois só assim se torna claro quais são as premissas e qual é a conclusão. Esta forma de representar argumentos é já fruto do trabalho de análise de argumentos.
Reformular argumentos, apresentando-os na sua forma canónica é um exercício imprescindível no estudo da lógica. Claro que os argumentos dados para reformular não poderão ser demasiado complexos, pois só um especialista ou alguém já familiarizado com a lógica poderá reformular argumentos cuja estrutura seja demasiado complexa. Mas não poderão ser tão simples que surjam como artificialismos sem qualquer relação com a argumentação real que se encontra nos ensaios dos filósofos. O objectivo do estudo da lógica é desenvolver as seguintes capacidades, face a um ensaio filosófico ou outro:
1.    Identificar conclusão ou conclusão principal;
2.    Identificar as premissas, incluindo eventuais premissas implícitas;
3.    Distinguir diferentes argumentos, explícitos ou aludidos, que o ensaio apresenta.
Estas capacidades permitem discutir as ideias dos filósofos e adoptar uma posição crítica. Sem ela, resta a paráfrase e o monólogo sem rumo, a que habitualmente se chama “comentário de texto” e “problematização”.
Nos parágrafos precedentes definiu-se e caracterizou-se a lógica, definindo a noção de argumento, apresentando vários exemplos, e dando uma ideia intuitiva de argumento válido e inválido. É desta forma que tem de se proceder. Definir a lógica através da raiz etimológica da palavra “lógica” nada esclarece.  E dar exemplos d quebra-cabeças, que muitas vezes não envolvem quaisquer argumentos, mas apenas truques e trocadilhos, ´+e enganador. A lógica deve ser apresentada como o que realmente é: o estudo de alguns aspectos importantes da argumentação, que nos permite distinguir os argumentos válidos dos inválidos. A lógica não é uma espécie de “jogo simbólico” nem de “quebra-cabeças”.
Finalmente, a lógica não é o estudo das “condições de coerência” do pensamento. A lógica estuda a validade e não a coerência da argumentação. Um argumento pode ser perfeitamente coerente e ser inválido, como no exemplo seguinte:
Se a vida não é sagrada, o aborto é permissível.
Mas a vida é sagrada.
Logo, o aborto não é permissível.
Exercícios
1.    Reformule o seguinte argumento na forma canónica: “Dado que os animais não têm deveres, não têm direitos. Como os touros são animais, podemos concluir que não têm direitos.”
2.    Será que todos os textos são argumentativos? Porquê?
3.    O que é um argumento Dê alguns exemplos.



[i] Distingue-se por vezes falácias de sofismas, havendo no segundo caso intenção de enganar. Mas esta distinção é irrelevante para a compreensão da argumentação.
[ii] Um argumento só pode ter uma conclusão, mas pode ter várias premissas.


MURCHO, Desidério, O Lugar da Lógica na Filosofia, 2003. Lisboa: Plátano Editora, pp. 9-13

As disciplinas da filosofia

No que respeita à formulação de um programa de estudos, tanto para o ensino secundário como para o superior, exige-se, da parte do professor, uma visão abrangente das diferentes disciplinas da filosofia. Só essa visão permite hierarquizar quer as disciplinas quer as matérias obedecendo ao princípio simples de começar pelo mais central e intuitivo, avançando para o mais especializado e menos intuitivo. Evidentemente, tal hierarquização terá sempre um certo grau de vagueza ou oscilação, e estará sempre sujeita a revisão, de acordo com o progresso da investigação. Por exemplo, a filosofia da mente, secundária no princípio do séc. XX, assume cada vez mais importância hoje em dia. E a tese metodológica da prioridade da linguagem, que foi tão popular na filosofia de meados do séc. XX, e que tanta proeminência deu à filosofia da linguagem, é hoje recusada pela maior parte dos filósofos.
Em qualquer área de estudos, o estudante e o investigador carecem de orientação na selva luxuriante de livros e artigos existentes. Evidentemente, tal orientação, para ser de qualidade, deverá basear-se em ampla informação da parte dos professores1, e deverá ser tão objectiva quanto possível. Por exemplo, só porque a área de especialização de um professor é a metafísica da modalidade, ele não deve impor aos estudantes esta área de estudos nem os seus autores preferidos, como se fossem centrais e como se a sua disciplina favorita fosse a mais importante. Quando este tipo de falta de seriedade educativa acontece, os planos de estudos tornam-se batalhas campais, tentando cada professor, por todas as vias, impor as suas preferências. O resultado são planos de estudos aparentemente aleatórios, como acontece com os programas do ensino secundário, não obedecendo a quaisquer princípios científicos ou didácticos, mas apenas aos gostos pessoais dos seus autores, ou ao facto de alguém que é nosso amigo nos ter telefonado na véspera a «sugerir» que também o seu autor preferido, acabado de reeditar, fosse contemplado.
As disciplinas mais centrais e gerais da filosofia são as seguintes:
  • Metafísica
  • Epistemologia
  • Ética
  • Lógica
A filosofia é uma disciplina muito vasta e o espaço não permite que descrevamos, nem em geral, a maior parte dos problemas, teorias e argumentos das suas diferentes disciplinas. O que se segue é uma mera sinopse2.
A metafísica estuda problemas relacionados com os aspectos mais gerais da estrutura da realidade, nomeadamente os seguintes: a natureza da verdade; a independência do mundo relativamente à nossa experiência; a natureza da objectividade e da subjectividade; a identidade pessoal; o livre-arbítrio; o sentido da vida; a natureza da modalidade e a existência de mundos possíveis; a identidade, a persistência e a substância dos objectos; acontecimentos e substâncias; universais e particulares; a noção de causalidade e de lei da natureza; problemas conceptuais do espaço e do tempo. A ontologia é a parte da metafísica que estuda a existência ou o que há: que tipo de existência têm os números, ou os universais? Que tipo de existência tem um acontecimento ou uma proposição? Os temas introdutórios mais comuns3 no que respeita à metafísica são a identidade pessoal, o livre-arbítrio e a persistência dos objectos.
A epistemologia estuda problemas relacionados com o conhecimento em geral, nomeadamente os seguintes: a análise de conhecimento como crença verdadeira justificada; a estrutura da justificação cognitiva (fundacionalismo, coerentismo, externalismo, teorias causais, etc.); o problema do cepticismo; fontes de conhecimento (conhecimento a priori e a posteriori, indução, testemunho, etc.). Os temas introdutórios mais comuns no que respeita à epistemologia são a análise de conhecimento, as teorias da justificação (fundacionismo e coerentismo) e o problema do cepticismo.
A ética (ou a filosofia moral4) estuda problemas relacionados com o modo como devemos viver e com o que devemos valorizar. A ética abrange três áreas ou subdisciplinas distintas: a metaética, a ética normativa e a ética aplicada. A metaética estuda problemas mais abstractos, relacionados com a natureza da própria ética; a ética normativa estuda diferentes sistemas éticos; e a ética aplicada estuda problemas práticos, como o aborto ou a eutanásia. Eis alguns problemas da ética em geral: o egoísmo (ético e psicológico); a Regra de Ouro; a natureza da normatividade e da razão prática; a objectividade do juízo ético; responsabilidade moral, deliberação e decisão; acrasia; relativismo ou realismo éticos; a incomensurabilidade de valores. Algumas das teorias normativas mais importantes são a teoria das virtudes, o utilitarismo e a ética deontológica. Alguns dos problemas mais estudados em ética aplicada são os seguintes: o aborto, a eutanásia, o estatuto moral dos animais não humanos, a ética do meio ambiente e o problema ético da pobreza no mundo. A ética aplicada deu entretanto origem a várias subdisciplinas próprias, como a ética empresarial, a ética jornalística, a ética médica, a bioética em geral, a ética universitária, etc. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita à ética prática são o aborto, a eutanásia e os direitos dos animais; no que respeita à ética normativa, esses temas são o utilitarismo, a ética de Kant e o egoísmo; e no que respeita à metaética o tema mais comum é o relativismo ético.
A lógica estuda e sistematiza a argumentação válida. A lógica tornou-se uma disciplina praticamente autónoma em relação à filosofia, graças ao seu elevado grau de precisão e tecnicismo. Hoje em dia, é uma disciplina que recorre a métodos matemáticos, e os lógicos contemporâneos têm em geral formação matemática. Todavia, a lógica elementar que se costuma estudar nos cursos de filosofia é tão básica como a aritmética elementar e não tem elementos matemáticos. A lógica elementar é usada como instrumento pela filosofia, para garantir a validade da argumentação.
Quando a filosofia tem a lógica como objecto de estudo, entramos na área da filosofia da lógica, que estuda os fundamentos das teorias lógicas e os problemas não estritamente técnicos levantados pelas diferentes lógicas. Hoje em dia há muitas lógicas além da teoria clássica da dedução de Russell e Frege (como as lógicas livres, modais, temporais, paraconsistentes, difusas, intuicionistas, etc.), o que levanta novos problemas à filosofia da lógica.
A filosofia da lógica distingue-se da lógica filosófica, que não estuda problemas levantados por lógicas particulares, mas problemas filosóficos gerais, que se situam na intersecção da metafísica, da epistemologia e da lógica. São problemas centrais de grande abrangência, correspondendo à disciplina medieval conhecida por «Lógica & Metafísica», e abrangendo uma parte dos temas presentes na própria Metafísica, de Aristóteles: a identidade de objectos, a natureza da necessidade, a natureza da verdade, o conhecimento a priori, etc. Precisamente por ser uma «subdisciplina transdisciplinar», o domínio da lógica filosófica é ainda mais difuso do que o das outras disciplinas. Para agravar as incompreensões, alguns filósofos chamam «lógica filosófica» à filosofia da lógica (e vice-versa). Em qualquer caso, o importante é não pensar que a lógica filosófica é um género de lógica, a par da lógica clássica, mas «mais filosófica»; pelo contrário, e algo paradoxalmente, a lógica filosófica, não é uma lógica no sentido em que a lógica clássica é uma lógica, isto é, no sentido de uma articulação sistemática das regras da argumentação válida.
A lógica informal estuda os aspectos da argumentação válida que não dependem exclusivamente da forma lógica. O tema introdutório mais comum no que respeita à lógica é a teoria clássica da dedução (lógica proposicional e de predicados, incluindo formalizações elementares da linguagem natural); a lógica aristotélica é por vezes ensinada, a nível universitário, como complemento histórico e não como alternativa à lógica clássica.
O grupo seguinte de disciplinas da filosofia são menos centrais do que as anteriores:
  • Filosofia da religião
  • Filosofia política
  • Estética e filosofia da arte
  • Filosofia da ciência
  • Filosofia da mente
  • Filosofia da linguagem
Afirma-se que uma disciplina como a ética, por exemplo, é mais central do que a filosofia política, por exemplo, porque de algum modo a filosofia política estuda problemas éticos específicos da vida numa sociedade politicamente organizada, tal como a filosofia da ciência estuda aspectos metafísicos, lógicos e epistemológicos da ciência. Evidentemente, a distinção entre estes dois grupos de disciplinas é algo vaga: não há critérios de diferenciação que permitam traçar uma fronteira nítida. Mas a ausência de fronteira clara não é a ausência clara de fronteira.
A filosofia da religião estuda temas como os seguintes: argumentos a favor e contra a existência de Deus, como os argumentos ontológico, do desígnio ou cosmológico, e o problema do mal; a racionalidade e a epistemologia da fé; a natureza de Deus e as suas propriedades; filosofia da linguagem religiosa; a ideia de alma e de imortalidade. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta disciplina são os argumentos a favor de Deus e as suas críticas, o problema do mal e o fideísmo.
A filosofia política estuda o modo como podemos viver em sociedade e o modo como devemos fazê-lo, o que levanta problemas como os seguintes: a justificação do estado e da obrigação política; a justificação do anarquismo; a natureza da justiça; a justificação da democracia; a igualdade; o liberalismo político, a liberdade e os mercados livres; a propriedade privada; os direitos naturais; o problema da punição. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta disciplina são o problema da justificação do estado, as teorias contratualistas e a liberdade.
A estética e a filosofia da arte são subtilmente distintas, mas hoje em dia estuda-se sobretudo a última. A estética estuda a natureza do juízo estético em geral; a filosofia da arte estuda problemas como a definição de obra de arte e o valor da arte. O tema introdutório mais comum no que respeita a esta disciplina é a definição de obra arte, estudando-se em geral as várias teorias que respondem a este problema.
A filosofia da ciência estuda aspectos epistemológicos, metafísicos e lógicos relacionados com as ciências em geral, incluindo as ciências da natureza e as ciências humanas. Eis alguns dos temas estudados nesta disciplina: a relação entre teoria e observação; a confirmação de teorias científicas; a interpretação da probabilidade; a noção de explicação científica e de leis da natureza; realismo e anti-realismo científicos; incomensurabilidade de teorias; o estatuto dos inobserváveis; unidade e diversidade das ciências. A filosofia das ciências tem dado origem a várias subdisciplinas especializadas: filosofia da biologia, filosofia da física, filosofia das ciências humanas e filosofia da história. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta disciplina são a relação entre observação e teoria, o problema da confirmação (indutivismo e falsificacionismo), realismo e anti-realismo científicos, e o problema da demarcação (entre ciências e não ciências).
A filosofia da mente estuda problemas metafísicos e epistemológicos relacionados com os fenómenos mentais. Eis alguns dos temas estudados nesta disciplina: a relação mente-corpo — fisicalismo, dualismo, funcionalismo; o problema da causalidade mental; a existência de mentes alheias (o problema do solipsismo); o valor da introspecção e a autoridade da primeira pessoa com respeito aos seus estados mentais; os fenómenos mentais: consciência e experiência, qualia, conteúdo perceptivo; intencionalidade e atitudes proposicionais; internalismo e externalismo mental; o papel e a natureza das emoções; a natureza da acção; acrasia. Tanto a filosofia da linguagem como a metafísica e a filosofia da psicologia estão intimamente relacionadas com a filosofia da mente. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta disciplina são as teorias fisicalistas, dualistas e funcionalistas sobre o problema da mente-corpo e o problema do solipsismo.
A filosofia da linguagem estuda todos os problemas relacionados com o funcionamento da linguagem e o fenómeno do significado linguístico. Eis alguns dos temas desta disciplina: a natureza do significado — significado, verdade e realismo, indeterminação; pragmática; a natureza do conhecimento do significado e das regras linguísticas; o problema da referência: indexicais e demonstrativos, nomes próprios, descrições definidas, quantificação e anáfora; atitudes proposicionais; sentido, força e modo; advérbios e quantificação sobre acontecimentos; a distinção entre diferentes línguas, linguagens e idiolectos; o significado das metáforas. Os temas introdutórios mais comuns no que respeita a esta disciplina são as teorias da referência e as descrições definidas.
Disciplinas decididamente menos centrais e mais especializadas, sendo muitas vezes subdisciplinas das anteriores, são as seguintes:
  • Filosofia da acção e filosofia da psicologia — Partes próprias da filosofia da mente, da filosofia da ciência e da metafísica.
  • Filosofia do direito — Parte própria da filosofia política e da ética.
  • Filosofia das ciências humanas — Parte própria da filosofia da ciência.
  • Filosofia da matemática — Parte própria da metafísica, epistemologia e filosofia da linguagem.
A história da filosofia está sempre presente no estudo das diferentes disciplinas filosóficas sumariamente apresentadas acima. Ao estudar as diferentes disciplinas filosóficas, verifica-se que muitos dos problemas, teorias e argumentos foram originalmente estudados por autores clássicos como Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Descartes, Hume, Leibniz, Kant, Russell, Frege, Wittgenstein, etc. Por exemplo, ao estudar ética deontológica discutem-se ideias clássicas de Kant, mas também as contemporâneas; ao estudar o problema da definição de conhecimento discutem-se ideias de Platão, mas também as ideias contemporâneas.
No estudo directo da história da filosofia discute-se explicitamente o pensamento dos autores clássicos mais importantes, dos pré-socráticos à actualidade. O estudo introdutório da história da filosofia é também tematicamente orientado. Dado que não se pode ter a veleidade de estudar todos os aspectos do pensamento de todos os principais filósofos clássicos, é comum escolher as contribuições filosóficas mais significativas dos principais filósofos, estudando-se apenas esses aspectos. Isto, por sua vez, implica a capacidade para transmitir ao estudante os problemas, as teorias e os argumentos filosóficos que estão em causa e que tornam essas contribuições filosoficamente significativas. Por exemplo, para estudar o Teeteto, de Platão, é necessário explicar, tirando partido do entendimento que hoje temos das coisas, o que é o problema da definição de conhecimento. É por esta razão que não se pode estudar história da filosofia sem dominar a própria filosofia: a filosofia é prévia à sua história. E como deveria ser evidente, estudar um problema do ponto de vista do próprio autor implicaria nunca avançar na compreensão das coisas; seria como estudar a poesia de Camões da perspectiva de Camões, sem todo o conhecimento que entretanto ganhámos da poesia: um exercício fútil.

Notas

1 O bom professor lê abundantemente, para poder escolher, do que leu, o que se adequa ao estudante e é central para a formação deste.
2 Para uma visão mais completa sugere-se a consulta de London Philosophy Study Guide, preparado colectivamente pelos departamentos de filosofia da Universidade de Londres (Londres, 2001), e disponível gratuitamente em
3 Isto é, os que costumam ser leccionados em cursos de licenciatura de algumas das melhores universidades, e os que surgem em alguns dos melhores livros introdutórios. A escolha destes temas introdutórios não é aleatória: corresponde ao facto de se tratar de temas centrais mais intuitivos, que o estudante que dá os primeiros passos na disciplina mais facilmente compreende, e que, por serem centrais, são estruturantes.
4 Faz-se por vezes uma distinção vaga e confusa entre ética e moral, que não tem qualquer relevância teórica ou didáctica, obscurecendo mais do que esclarecendo.
Retirado do livro Renovar o Ensino da Filosofia (Lisboa: Gradiva, 2003).