domingo, 30 de outubro de 2011

O que é uma acção?

A teoria causal da acção
Um bom modo para começar a nossa investigação acerca da natureza da acção é a partir da questão levantada por Wittgenstein: "O que sobra se eu subtrair o facto de o meu braço se ter erguido ao facto de eu ter erguido o meu braço?" (1953: §621). Evidentemente, o teu braço pode ter-se erguido sem que o tenhas feito intencionalmente subir; talvez o teu cotovelo se tenha mexido, alguém puxe por fios amarrados ao teu pulso ou alguém esteja a dar choques eléctricos aos músculos do teu braço. Nem todas as ocasiões em que o teu braço se ergue são ocasiões em que tu agiste: por isso o que marca a diferença entre o erguer do braço que corresponde a acções genuínas das que não o são?

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Lógica informal

A lógica informal é o estudo dos aspectos lógicos da argumentação que não dependem exclusivamente da forma lógica, contrastando assim com a lógica formal, que estuda apenas esses aspectos. Os aspectos lógicos em causa são os que contribuem para a validade e a força da argumentação, distinguindo-se dos aspectos psicológicos, históricos, sociológicos ou outros.
A argumentação é um encadeamento de argumentos. Um argumento é um conjunto de proposições em que se pretende que uma delas (a conclusão) seja justificada ou sustentada pela outra ou outras (a premissa ou premissas). “Argumento”, “inferência” e “raciocínio” são termos aproximados, pois em todos os casos se trata de procurar chegar a uma afirmação com base noutras. Contudo, um argumento é diferente de um raciocínio ou inferência porque envolve a persuasão de alguém (incluindo nós mesmos), ao passo que um raciocínio ou inferência não envolve tal aspecto.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

TAUTOLOGIAS E CONTRADIÇÕES

Há diferentes modos de as afirmações serem verdadeiras ou falsas. Vejamos os seguintes exemplos:
1.    Sócrates era grego.
2.    Sócrates era egípcio.
3.    Se Sócrates era grego, era grego.
4.    Sócrates era e não era grego.
As afirmações 1 e 3 são verdadeiras; 2 e 4 são falsas. Mas há uma diferença crucial entre as afirmações 1 e 3. Essa diferença é a seguinte: a afirmação 1 é verdadeira, mas a sua verdade não pode ser determinada logicamente, ao passo que a verdade da afirmação 3 pode ser determinada logicamente. Isto acontece porque 3 é verdadeira em qualquer circunstância logicamente possível, ao passo que 1 só é verdadeira nas circunstâncias em que Sócrates era grego; diz-se por isso que 3 é uma verdade lógica, ao passo que 1 não o é; chama-se “tautologias” às verdades lógicas.
O mesmo acontece relativamente a 2 e 4; a afirmação 2 é falsa, mas a sua falsidade não pode ser determinada logicamente. Isto acontece porque 4 é falsa em qualquer circunstância logicamente possível, ao passo que 2 só é falsa nas circunstâncias em que Sócrates não era egípcio; diz-se por isso que 4 é uma falsidade lógica, ao passo que 2 não o é; chamam-se “contradições” às falsidades lógicas.
Às afirmações cuja verdade cuja verdade ou falsidade não pode ser determinada unicamente por meios lógicos, como é o caso das afirmações 1 e 2, chama-se “proposições logicamente contingentes”.
MURCHO, Desidério, O Lugar da Lógica na Filosofia, 2003. Lisboa: Plátano Editora, pp. 53-54

sábado, 15 de outubro de 2011

O QUE É UM ARGUMENTO?

Os filósofos procuram resolver problemas. É por isso que apresentam teorias, ideias ou teses. Estas três coisas não são exactamente o mesmo, mas para simplificar iremos falar apenas de teorias. A diferença é a seguinte: ao passo que uma teoria é uma forma completamente articulada de resolver um problema, uma ideia ou uma tese é algo mais vago. Mas o que há de comum entre as ideias, as teorias e as teses é que todas elas procuram resolver problemas.
Ora, sempre houve boas e más teorias, seja qual for o problema que procuram resolver. As teorias dos filósofos não podem constituir excepção. Assim, também há boas e más teorias filosóficas. Mas, como é óbvio, apenas estamos interessados nas boas teorias filosóficas. Por isso se torna crucial saber distinguir as boas das más teorias. Há duas maneiras de avaliarmos teorias, para procurarmos saber se são boas ou más: 1) podemos procurar saber se a teoria resolve o problema que pretendia resolver, e se essa solução é aceitável; 2) podemos procurar saber quais são os argumentos em que essas teorias se apoiam e verificar se tais argumentos constituem boas razões a favor daquilo que nelas se defende. Assim, 2 obriga-nos a pensar deste modo: «Que razões me dá o autor para aceitar a teoria dele?». E 1 obriga-nos a pensar assim: «Se eu aceitar a teoria dele, consigo explicar melhor o que a teoria procurava explicar, ou consigo resolver o problema que a teoria queria resolver? Será que há alternativas melhores a esta teoria?». Ora, tanto no primeiro como no segundo caso, temos de saber avaliar argumentos. Temos de saber se os argumentos que apoiam a teoria são bons ou não, e temos de saber se são bons ou não os argumentos que mostram que a teoria explica o que queria explicar e resolve o problema que queria resolver.

sábado, 8 de outubro de 2011

O que é a filosofia?

As nossas capacidades analíticas estão muitas vezes já altamente desenvolvidas antes de termos aprendido muita coisa acerca do mundo, e por volta dos catorze anos muitas pessoas começam a pensar por si próprias em problemas filosóficos — sobre o que realmente existe, se nós podemos saber alguma coisa, se alguma coisa é realmente correta ou errada, se a vida faz sentido, se a morte é o fim. Escreve-se acerca destes problemas desde há milhares de anos, mas a matéria-prima filosófica vem directamente do mundo e da nossa relação com ele, e não de escritos do passado. É por isso que continuam a surgir uma e outra vez na cabeça de pessoas que não leram nada acerca deles.

ALEGORIA DA CAVERNA

Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos "robertos" colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

ARGUMENTOS SÓLIDOS

Um argumento válido pode ter uma conclusão falsa desde que pelo menos uma das suas premissas seja falsa. Dado que o que interessa na argumentação é chegar a conclusões verdadeiras, os argumentos meramente válidos não têm interesse. É por isso importante compreender a noção de argumento sólido.
Um argumento sólido obedece a duas condições: é válido e as suas premissas são verdadeiras. É impossível que um argumento dedutivo sólido tenha uma conclusão falsa. Vejamos o seguinte exemplo:

Todos os animais ladram.
Os pardais são animais.
Logo, os pardais ladram.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

OPERADORES VEROFUNCIONAIS

A lógica proposicional estuda os argumentos cuja validade depende exclusivamente dos cinco operadores de formação de frases: negação, conjunção, disjunção, condicional e bicondicional. Um operador de formação de frases, a que também se pode chamar “operador proposicional”, é um dispositivo linguístico que serve para gerar frases a partir de outras frases. Por exemplo, pode-se acrescentar o operador de negação à frase “Sócrates é mortal”, obtendo-se assim a frase “Sócrates não é mortal”. A negação é um operador unário: aplica-se a uma só frase. A condicional (“se P, então Q”), bicondicional (“P se, e só se, Q”), conjunção (“P e Q”) e disjunção (“P ou Q”) são operadores binários: aplicam-se a duas frases. Por exemplo, para se poder aplicar o operador “se…, então…” são necessárias duas frases (que podem ser iguais); tomem-se as frases “O João é alto” e “O João é saudável”. Pode-se aplicar o operador a estas duas frases e obtém-se a frase “Se o João é alto, então o João é saudável” (ou sem a repetição desnecessária “Se o João é alto, é saudável”).

domingo, 2 de outubro de 2011

A filosofia não é "adversarial"

Porque em filosofia argumentamos uns com os outros sobre questões filosóficas é natural pensar que a filosofia é um processo "adversarial" [antagónico] como dois advogados (o de acusação e o de defesa) que argumentam um contra o outro num tribunal. Contudo, há duas razões pelas quais esta comparação dos filósofos com os advogados não é boa. Em primeiro lugar, o objectivo de cada advogado é ganhar a causa do seu cliente — quer o seu cliente esteja inocente quer não. Pelo contrário, o objectivo de dois filósofos que se encontrem a argumentar um com o outro é chegar à verdade — seja ela qual for e seja quem for que tenha razão. Como um estudante afirmou, eloquentemente, o objectivo de cada advogado é ganhar a causa, quer ele tenha a verdade quer não, ao passo que o objectivo de cada filósofo é chegar à verdade, quer ele ganhe o argumento quer não. (Sendo os filósofos seres humanos, nem sempre são assim tão imparciais, mas o ideal é este.)
Em segundo lugar, num julgamento há uma autoridade (o juiz ou o júri) que os advogados tentam persuadir, e que em última análise determina se o acusado está ou não inocente. Em filosofia, pelo contrário, não há qualquer juiz ou júri com autoridade para tornar uma posição incorrecta e a outra correcta. Só existimos nós. Claro que alguns de nós sabem mais do que outros sobre questões filosóficas, e o mais sábio é ficar atento e aprender com quem sabe mais do que nós, mas quando chega o momento de tomar decisões relativamente a um tema filosófico somos todos igualmente responsáveis pelas nossas crenças e devemos por isso tomar, cada um de nós, as suas próprias decisões.
Richard E. Creel
Tradução de Desidério Murcho
Thinking Philosophically, Blackwell, Oxford, 2001, p. 88

terça-feira, 27 de setembro de 2011

LÓGICA E ARGUMENTAÇÃO

A argumentação é um instrumento sem o qual não podemos compreender melhor o mundo nem intervir nele de modo a alcançar os nossos objectivos; não podemos sequer determinar com rigor quais serão os melhores objectivos a ter em mente. Os seres humanos estão sós perante o universo; têm de resolver os seus problemas, enfrentar dificuldades, traçar planos de acção, fazer escolhas. Para fazer todas estas coisas precisamos de argumentos. Será que a Terra está imóvel no centro do universo? Que argumentos há a favor desta ideia? E que argumentos há contra ela? Será que Bin-Laden é responsável pelo atentado de 11 de Setembro? Que argumentos há a favor desta ideia? E que argumentos há contra? Será que foi o réu que incendiou propositadamente a mata? Será que o aborto é permissível? Será que Cristo era um deus? Será que criamos mais bem-estar se o Estado for o dono da maior parte da economia? Será possível curar o cancro? E a Sida? O que é a consciência? Será que alguma vez houve vida em Marte? Queremos respostas a todas estas perguntas, e a muitas mais. Mas as respostas não nascem nas árvores nem dos livros estrangeiros; temos de ser nós a procurar descobri-las. Para descobri-las temos de usar argumentos. E quando argumentamos podemos enganar-nos; podemos argumentar bem ou mal. É por isso que a lógica é importante. A lógica permite-nos fazer o seguinte:

O que é estudar filosofia?

A filosofia é diferente de muitas outras disciplinas das Letras porque para estudar filosofia é necessário fazer filosofia. Para ser um historiador de arte, não é necessário pintar; para estudar poesia, não é necessário ser um poeta; e podemos estudar música sem tocar um instrumento. Contudo, para estudar filosofia é necessário que nos entreguemos à argumentação filosófica (argumentar é apresentar razões ou indícios que conduzem a uma conclusão). Não se trata de operar ao nível dos grandes filósofos do passado; mas quando se estuda filosofia faz-se o mesmo tipo de coisa que eles fizeram. Podemos jogar futebol sem chegar ao nível do Pelé, e podemos obter muita satisfação intelectual filosofando sem a originalidade ou o brilhantismo de Wittgenstein. Mas em ambos os casos será necessário desenvolver algumas das competências usadas pelos grandes praticantes. Essa é uma das razões pelas quais a filosofia pode ser uma área de estudos imensamente compensadora.

terça-feira, 21 de junho de 2011

MENTE E CONSCIÊNCIA

Na biologia humana há poucas coisas aparentemente tão triviais como este bem a que chamamos consciência, a fantástica capacidade de ter uma mente equipada com um dono, um protagonista da existência, um eu que analisa o mundo interior e exterior, um agente que parece a postos para a acção.

terça-feira, 24 de maio de 2011

DIREITOS DOS ANIMAIS E ERROS HUMANOS

Há limites para o modo como os seres humanos podem tratar legitimamente os animais não-humanos? Ou podemos tratá-los de qualquer maneira que nos agrade? Se há limites, quais são eles? São suficientemente fortes, como algumas pessoas supõem, para nos levarem a ser vegetarianos e a diminuir, se não mesmo eliminar, o nosso uso de animais não-humanos em experiências "científicas" pensadas para nos beneficiar?
Para avaliar completamente esta questão, vou contrastá-la com duas questões diferentes: há limites para o modo como podemos tratar legitimamente as pedras? E: há limites para o modo como podemos tratar legitimamente outros seres humanos? A resposta à primeira questão é, presumivelmente, "Não". Bem, isso não está muito certo. Há alguns limites para o que podemos legitimamente fazer com ou às pedras. Se a Paula tem uma pedra de estimação, então a Susana não pode justificadamente tirá-la da Paula ou esmagá-la com uma marreta. Afinal de contas, é a pedra da Paula.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

ARGUMENTO DA CAUSA PRIMEIRA

Vários argumentos estreitamente relacionados para a existência de Deus baseiam-se na aparente necessidade de o universo como um todo ter uma causa. Parecem existir três possibilidades. Ou o universo começou a existir por si só ou existiu desde sempre ou, então, foi trazido para a existência por alguma força ou ser extremamente poderoso. Geralmente, aqueles que acreditam em Deus acham incrível que o universo possa ter chegado à existência apenas por si mesmo e igualmente incrível que ele possa ter já existido durante uma quantidade infinita de tempo. Acreditam que um ser extremamente poderoso, Deus, o deve ter criado. Esta é uma das razões que as pessoas dão com mais frequência para acreditar em Deus.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O ARGUMENTO DO APOSTADOR: A APOSTA DE PASCAL

O argumento [do apostador] parte da posição de um agnóstico, isto é, alguém que acredita que não existem dados suficientes para decidir se Deus existe ou não. Um agnóstico acredita que é genuinamente possível que Deus exista, mas que não há dados suficientes para decidir a questão com toda a certeza. Um ateu, pelo contrário, acredita geralmente que existem dados conclusivos a favor da inexistência de Deus.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A ÉTICA DA CRENÇA

Um armador estava prestes a enviar para o mar o seu navio com emigrantes. Ele sabia que o navio era velho e que não tinha uma boa construção; que já tinha visto muitos mares e climas, e que precisava de reparações constantes. Foi-lhe sugerido que o navio não tinha condições de navegabilidade. Estas dúvidas assombravam-lhe o espírito e faziam-no infeliz; pensava que talvez devesse mandar inspeccionar e reparar o navio, apesar de isto lhe sair muito caro. Antes de o navio zarpar, todavia, conseguiu ultrapassar estas reflexões melancólicas. Disse de si para si que o navio tinha feito já tantas viagens em segurança e tinha aguentado tantas tempestades que era uma perda de tempo supor que não regressaria em segurança de mais esta viagem. Confiaria na Providência, que dificilmente deixaria de proteger todos aquelas infelizes famílias que abandonavam a sua terra natal para procurar um melhor futuro noutro lado. Afastaria do seu espírito todas as suspeitas mesquinhas sobre a honestidade dos estaleiros. E deste modo adquiriu uma convicção sincera e confortável de que o seu navio era inteiramente seguro e tinha condições de navegabilidade; assistiu à sua partida de coração ligeiro e com votos benevolentes pelo sucesso dos exilados no que seria o seu novo lar; e recebeu o dinheiro do seguro quando o navio se afundou no meio do oceano sem deixar sobreviventes.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O SENTIDO DA VIDA

O sentido da vida é um tema obscuro, e no entanto central para a filosofia. Frequentemente associada à questão de os seres humanos fazerem parte de um desígnio mais vasto ou divino, a pergunta «qual é o sentido da vida?» parece pedir uma resposta religiosa. No entanto, grande parte das discussões filosóficas questiona a necessidade desta associação. A atenção dedicada à inevitabilidade da morte parece muitas vezes tornar a questão do sentido da vida problemática, mas não é óbvio que a imortalidade pudesse fazer a diferença entre o sentido e a sua ausência. O tema do absurdo é recorrente nas discussões entre quem pensa que o universo é indiferente aos nossos destinos. Embora as nossas vidas não tenham sentido, defendem que devemos viver como se tivessem. Perante este absurdo, alguns propõem o suicídio, outros a rebelião, outros ainda a ironia. Também é possível virar as costas à questão do sentido cósmico e procurar um sentido para a vida noutro lugar.

quinta-feira, 24 de março de 2011

OBJECÇÕES À TEORIA DE J. RAWLS

A teoria de Rawls não compensa as desigualdades naturais
A concepção comum de igualdade de oportunidades não limita a influência dos talentos naturais. Rawls tenta resolver essa falha através do princípio da diferença. Assim, os mais talentosos não merecem ter um rendimento maior e só o têm se com isso beneficiarem os menos favorecidos. Mas talvez Rawls não tenha resolvido o problema. Talvez a sua teoria da justiça deixe ainda demasiado espaço para a influência das desigualdades naturais. E nesse caso o destino das pessoas continua a ser influenciado por factores arbitrários.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A TEORIA DA JUSTIÇA DE JOHN RAWLS

Problema
Há crianças vendidas por pais extremamente pobres a quem tem dinheiro e falta de escrúpulos para as comprar; pessoas cujo rendimento não permite fazer mais do que uma refeição por dia; jovens que não têm a menor possibilidade de adquirir pelo menos a escolaridade básica; cidadãos que estão presos por terem defendido as suas ideias. Perante casos destes sentimos que as nossas intuições morais de justiça e igualdade não são respeitadas. Surge assim a pergunta: Como é possível uma sociedade justa? Este problema pode ter formulações mais precisas. Uma delas é a seguinte: Como deve uma sociedade distribuir os seus bens? Qual é a maneira eticamente correcta de o fazer? Trata-se do problema da justiça distributiva. A pergunta que o formula é a seguinte: Quais são os princípios mais gerais que regulam a justiça distributiva? A teoria da justiça de John Rawls é a resposta mais influente a este problema. Esta lição irá sujeitar à tua avaliação crítica os argumentos em que se apoia e algumas objecções que enfrenta.

sexta-feira, 11 de março de 2011

DO ESTADO DE NATUREZA AO GOVERNO CIVIL

 O estado de natureza, diz Locke, é, em primeiro lugar, um estado de perfeita liberdade; em segundo lugar, um estado de igualdade; e, em terceiro lugar, é regido por uma Lei da Natureza. O princípio da igualdade de Hobbes consistia numa afirmação das capacidades mentais e físicas de todas as pessoas. Para Locke, trata-se de uma afirmação moral relativa a direitos: nenhuma pessoa tem o direito natural de subordinar outra. Esta afirmação visava explicitamente aqueles que, incluindo Filmer, aceitavam a perspectiva feudal de uma hierarquia natural, encabeçada por um soberano que governava por nomeação divina. Para Locke, é evidente que ninguém tem naturalmente o direito de governar, no sentido em que ninguém foi nomeado por Deus com essa finalidade.

quinta-feira, 3 de março de 2011

A JUSTIFICAÇÃO DO ESTADO E O ESTADO DE GUERRA

A maior obra de Hobbes, Leviatã (publicada em 1651), trata um assunto que o obcecou durante mais de vinte anos: os males da guerra civil e a anarquia que a acompanharia. Nada podia ser pior do que a vida sem a protecção do estado, afirma Hobbes, e, portanto, o governo forte é essencial para assegurar que não caímos na guerra de todos contra todos.
Mas por que razão pensava Hobbes que o estado de natureza seria tão desesperado, um estado de guerra, um estado de medo constante e risco de morte violenta? A essência da perspectiva de Hobbes é que, na ausência de governo, a natureza humana conduzir-nos-ia, inevitavelmente, ao conflito grave. Assim, para Hobbes, a filosofia política começa com o estado da natureza humana.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O IMPERATIVO CATEGÓRICO

A ideia de que as regras se aplicam sem excepções é difícil de defender. É bastante simples explicar por que razão se deve aceitar excepções a uma regra – podemos simplesmente sublinhar que, em algumas circunstâncias, seguir a regra teria consequências terríveis. Mas como podemos explicar a razão pela qual não se deve fazer excepções à regra em tais circunstâncias? É uma missão intimidante. Uma explicação possível seria afirmar que as regras morais são os mandamentos invioláveis de Deus. Fora isso, que mais pode dizer-se?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Por que razão havemos de ser morais?

Por que razão havemos de ser morais? Esta pergunta exige razões para agirmos moralmente. Quem faz esta pergunta pode aceitar que é incorrecto matar crianças por prazer, por exemplo. Essa pessoa não quer saber o que é correcto ou incorrecto; o que ela quer saber é se há alguma razão para fazer o que é correcto (e para não fazer o que é incorrecto). Do mesmo modo, uma pessoa pode aceitar que, quando se vai à praia, se deve levar toalha; mas essa pessoa pode perguntar que razões há para ir à praia. Analogamente, pode aceitar-se que, se agirmos moralmente, não devemos matar crianças por prazer; mas ao mesmo tempo pode perguntar-se que razões há para agir moralmente.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

ÉTICA E RELATIVISMO CULTURAL

Relativismo Cultural (RC): "Bem" significa "socialmente aprovado." Escolhe os teus princípios morais segundo aquilo que a tua sociedade aprova.
O relativismo cultural (RC) defende que o bem e o mal são relativos a cada cultura. O "bem" coincide com o que é "socialmente aprovado" numa dada cultura. Os princípios morais descrevem convenções sociais e devem ser baseados nas normas da nossa sociedade.
Começaremos por ouvir uma figura ficcional, a que chamarei Ana Relativista, e que nos explicará a sua crença no relativismo cultural. Ao ler o que se segue, ou explicações semelhantes, proponho-lhe que reflicta até que ponto esta é uma perspectiva plausível e se se harmoniza com o seu ponto de vista. Depois de ouvirmos o que Ana tem para dizer, consideraremos várias objecções ao RC.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Determinismo e liberdade na acção humana

Determinismo, livre-arbítrio e ainda a responsabilidade moral. Irei basear-me no filme “Rope” de Alfred Hitchcock para poder falar sobre estes três conceitos. Este filme fala de dois jovens que decidem matar um colega para poderem pôr em prática aquilo que tinham aprendido nas aulas de um dos seus professores, querendo mostrar assim que eram seres superiores pertencendo a uma minoria de seres que vivem acima dos conceitos morais. Para isto decidiram cometer o crime perfeito.
Comecemos então pelo conceito de livre-arbítrio. No filme, quando os dois rapazes decidem matar o seu colega, para porem em prática o que tinham aprendido nas aulas, dá-nos a ideia de que tanto o poderiam ter feito como simplesmente poderiam ter decidido não o fazer. Eles tinham liberdade de escolha. Não tinham ninguém a obrigá-los a fazerem isso, nem nada lhes aconteceria caso não tivessem feito, logo foram livres de o fazer, tiveram livre-arbítrio.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

OBJECÇÕES AO SUBJECTIVISMO ÉTICO

A Ana Subjectivista deu-nos uma formulação clara de uma maneira importante de abordar a moral. Concordo com a sua ênfase na liberdade moral e com a sua rejeição do relativismo cultural (e de qualquer outra perspectiva que exclua a liberdade moral). Mas discordo da sua análise do "bem". Além disso, necessita de aprofundar as suas ideias sobre o pensamento moral.
O maior problema consiste no subjectivismo fazer o bem depender completamente do que gostamos. Se "X é um bem" e "Gosto de X" significam a mesma coisa, o seguinte raciocínio é válido:
Gosto de X.
X é um bem.