quarta-feira, 21 de abril de 2010

O ESTADO DE NATUREZA


Como seria a vida num “estado de natureza”, num mundo sem governo?
Tomamos como adquirido o facto de vivermos num mundo de instituições políticas: o governo central, o governo local, a polícia, os tribunais. Estas instituições distribuem e administram o poder político. Colocam pessoas em cargos de responsabilidade e estas pessoas podem reivindicar o direito a mandar-nos a agir de determinadas formas.
É claro que não poderíamos abolir o estado apenas para descobrir como seria a vida sem ele e, por isso, na prática, o melhor que podemos fazer é uma experiência mental. Imaginamos um “estado de natureza”, uma situação na qual o estado não existe e ninguém detém o poder político. Em seguida, tentamos determinar como seria viver nestas condições.
Alguma vez existiu um estado de natureza? Muitos filósofos parecem relutantes em comprometer-se relativamente a este assunto. Jean-Jacques Rosseau (1712-1778), por exemplo, pensava que levaria tanto tempo a passar de um estado de natureza para a “sociedade civil” (uma sociedade governada por um estado formal), que se tornava blasfemo supor que as sociedades modernas teriam surgido dessa forma. Afirmava que o tempo necessário à transição seria superior à idade do mundo, tal como registada nas escrituras.
Mas mesmo que nunca tenha existido um verdadeiro estado de natureza, podemos ainda assim, considerar como seria a vida se, hipoteticamente, nos víssemos sem um estado. Thomas Hobbes (1558-1679) em Leviatã, traçou um quadro negro desta situação hipotética, esperando convencer os leitores das vantagens do governo.
Mas é possível um estado de natureza? Por vezes, diz-se que não só os seres humanos sempre viveram sob um estado, como essa é a única forma de eles conseguirem viver. De acordo com esta perspectiva, o estado existe naturalmente, no sentido de ser natural para os seres humanos. Talvez não fôssemos seres humanos se vivêssemos numa sociedade sem estado. Talvez fôssemos uma forma inferior de vida animal. Se os seres humanos existem, também existe o estado.

WOLFF, Jonahan, Introdução à Filosofia Política, 1ª edição, 2004. Lisboa: Gradiva, pp. 18-19

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A INTOLERÂNCIA


O tolerante deve tolerar a intolerância?

Há, como sugere, qualquer coisa de paradoxal da tolerância. No entanto, esta aparência de paradoxo dissipa-se se distinguirmos duas coisas diferentes que as pessoas poderão ter em mente quando se discute o que é “tolerar” algo. Há uma acepção de “tolerância” que significa “ser indiferente a”, como por exemplo em “Não percebo porque toleram aqueles pais aquele tipo de comportamento dos seus filhos”. Esta é a acepção que penso que as pessoas terão em mente quando dizem, plausivelmente, que ninguém devia tolerar o racismo, o sexismo, ou, já agora, a intolerância.

Mas esta não é a acepção em que a “tolerância” é uma virtude. O tipo de tolerância que se exige a uma sociedade civil é aquele que reconhece a cada pessoa o direito a decidir por ela própria e a formar as suas próprias opiniões, e que torna ilegítima qualquer tentativa no sentido de coagir a mudar de opinião. Neste sentido, não há incompatibilidade entre tolerar uma crença racista e procura, recorrendo a todos os meios de persuasão legítimos, fazer a pessoa que assim pensa mudar de opinião. É nesta acepção que um indivíduo tolerante deve “tolerar” a intolerância; ao indivíduo tolerante cumpre reconhecer o direito que assiste a outra pessoa de discordar dele sobre o valor da tolerância, ou sobre o direito de outros defenderem determinadas opiniões. Todavia, o indivíduo tolerante não está obrigado a ignorar ou a aceitar a intolerância, e pode fazer o seu melhor para argumentar contra ela sempre que isso se proporciona.

GEORGE, Alexander (org), Que Diria Sócrates, 1ª edição, 2008. Lisboa: Gradiva, pp.103-104

quarta-feira, 14 de abril de 2010

ÉTICA E ESTUPIDEZ


É moralmente errado lucrar com os erros ou a estupidez de outras pessoas?

Depende de se estar a lucrar passiva ou activamente. Lucrar passivamente não é, em geral, moralmente errado. Aproveitar-se de é, em geral, moralmente errado, especialmente quando, ao explorar a estupidez de outrem, leva essa pessoa a cometer o erro, ou a laborar em erro (por exemplo, ao levar alguém a aceitar uma aposta impossível de ganhar). As situações em certo sentido menos activas são aquelas em que não desempenhamos qualquer papel na causa do erro, mas em que, ainda assim, o exploramos de algum modo. Isto pode ser errado – como quando apanhamos um maço de notas que alguém deixou cair ao chão e ficamos com ele em vez de tentarmos devolvê-lo a quem o deixou cair. Ou pode não ser errado, em casos menores, como quando ficamos com o troco que encontramos na calha de devolução de moedas de uma cabina telefónica pública.
A situação moral altera-se no contexto de jogos de competição, nos quais lucrar com as circunstâncias é entendido como parte do jogo. Num jogo de competição (xadrez, póquer, boxe) não é errado enganar o adversário levando-o a cometer um erro e depois explorar esse erro o melhor que pudermos e soubermos. O mesmo se aplica à competição entre empresas ou estados. Todavia, existem três restrições a observar: a primeira, podemos explorar os erros do adversário somente na medida em que essa exploração for permitida pelas regras do jogo – não podemos, por exemplo, oferecer ao adversário de xadrez um sonífero que (esperamos) ele confunda com uma drageia de hortelã-pimenta, tal como não podemos valer-nos de um erro do adversário numa competição de luta livre para o asfixiar até à morte; a segunda, a entrada do adversário no jogo tem de ser voluntária, e não uma consequência de o termos aliciado a entrar no jogo explorando a estupidez dele; e a terceira, as regras do jogo têm, elas mesmas, de ser moralmente aceitáveis.

GEORGE, Alexander (org), Que Diria Sócrates, 1ª edição, 2008. Lisboa: Gradiva, pp.79-80

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A EXISTÊNCIA NA MENTE


O facto de uma coisa existir na imaginação de alguém não dá a essa coisa pelo menos um mínimo de realidade?

Ora bem, estou neste momento a imaginar que tenho no bolso uma cautela de lotaria premiada. Deixe-me verificar. (Pausa) Bolas. Nem perto de ser premiada. Na verdade, nem sequer tenho uma cautela de lotaria no bolso.

Podemos falar de um vaso de diamantes que exista na “imaginação de alguém”. Mas isto não significa que o vaso de diamantes esteja realmente, de um modo difuso, ou de outro modo qualquer, na mente dessa pessoa. Se existe alguma coisa na mente dessa pessoa, é a ideia do vaso de diamantes, ou talvez uma imagem dele. Mas não o vaso ele mesmo.

Achamo-nos contudo perigosamente perto de uma Grande Dor de Cabeça Filosófica: perceber o que faz essa ideia ou imagem ser acerca da coisa à qual diz respeito. Esta questão torna-se especialmente intrigante quando a coisa da qual é imagem não existe, de facto, de forma alguma.

GEORGE, Alexander (org), Que Diria Sócrates, 1ª edição, 2008. Lisboa: Gradiva, pp.19-20

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O NADA É ALGUMA COISA?


Existe uma coisa que seja o Nada? Podemos dizer que as meias estão na gaveta, ou que nada lá está. Mas, se é possível que nada esteja na gaveta, então o Nada terá, de algum modo de existir. Mas, se assim for, ocupa ao mesmo tempo o mesmo espaço que as coisas que não são nada?

Quantas mãos tem? Duas? Ou será três? A sua mão esquerda, a sua mão direita, e a terceira mão, não existente, que está agarrada à sua cabeça?

É óbvio que esta última “mão” não deve contar. Dizer que não tem uma terceira mão não é dizer que possui uma mão que tem a propriedade da não existência. Estaremos metidos numa grande embrulhada se entendermos afirmações de não existência como significando que existem objectos que têm a propriedade da não existência. Isto porque, se assim não fosse, tais objectos teriam de existir e não existir simultaneamente, o que não pode ser. Assim, quando dizemos que ninguém veio à festa, queremos deste modo negar que alguém tenha vindo à festa – e não afirmar que pelo menos uma pessoa apareceu (a saber, “ninguém”, a “não pessoa”)

Esta confusão torna-se inevitável quando se parte do princípio de que todos os substantivos de uma linguagem referem, necessariamente, coisas. Se partir deste princípio, ao deparar com uma frase como “Nada bate um

às de trunfo”, vê-se forçado a concluir que afinal existe algo que bate o às de trunfo, a saber, nada. Contudo, nem todos os substantivos contribuem da mesma maneira para o sentido de uma frase. Nomeadamente, existem substantivos (como por exemplo”nada”) que não referem coisa alguma, existindo outros (como por exemplo “Manhattan”) que referem.

Concluindo, pensar que nada é algo que compete com uma coisa pelo mesmo espaço denota confusão. Em qualquer espaço dado, ou há uma coisa, ou não há uma coisa. Se não há coisa alguma, se nada lá está, isto não quer dizer que haja lá uma coisa, a saber, uma coisa chamada “Nada”.

GEORGE, Alexander (org), Que Diria Sócrates, 1ª edição, 2008. Lisboa: Gradiva, pp.19-20