quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Os instrumentos do ofício iii

Parte III
Comentários adicionais acerca de verdade e de validade
Já notámos que um argumento válido pode ter premissas falsas e não conseguir estabelecer a verdade da sua conclusão. Contudo, é igualmente essencial notar que um argumento que não seja sólido, embora não consiga estabelecer a verdade da sua conclusão, pode no entanto ter uma conclusão verdadeira. Por consequência, ao mostrar que um argumento não é sólido porque tem algumas premissas falsas, não se prova que a conclusão do argumento é falsa.
Para ilustrar estes pontos consideremos dois argumentos, sendo um, um argumento teísta e o outro, um argumento ateu, que, embora ambos válidos, têm conclusões contrárias. O argumento do teísta é o seguinte:
O mundo exibe provas conclusivas de desígnio.
Se o mundo exibe provas conclusivas de desígnio, então o mundo tem um autor, que é Deus.
LogoO mundo tem um autor, que é Deus.
O segundo argumento poderia ser usado por um ateu:
Se Deus existe, há um ser todo-poderoso, omnisciente, e perfeitamente bom que criou o mundo.
Se há um ser todo-poderoso, omnisciente, e perfeitamente bom que criou o
mundo, então não há mal no mundo.
Não é verdade que não há mal no mundo.
LogoDeus não existe.
Estes dois argumentos têm conclusões diametralmente opostas. A conclusão do primeiro é inconsistente com a conclusão do segundo; assim, um dos argumentos tem de ter uma conclusão falsa. Ambos são perfeitamente válidos. A sua conclusão tem de ser verdadeira se as premissas forem verdadeiras. Portanto, um dos argumentos, embora válido, não pode ser sólido. Pelo menos uma das premissas de um dos argumentos tem de ser falsa; ou ambos podem conter algumas premissas falsas, e nesse caso nenhum dos dois é sólido. Isto ilustra a ideia de que o facto de um argumento não ser sólido não mostra que a sua conclusão é falsa. Um dos argumentos pode ter uma conclusão verdadeira apesar de nenhum deles ser sólido. Ao atacar um argumento, podemos apenas estabelecer que não é sólido. Não podemos deste modo mostrar que a sua conclusão é falsa. Por outro lado, pela apresentação de um argumento que é sólido e não é uma petição de princípio, podemos estabelecer que a conclusão do argumento é verdadeira. Por esse motivo, construir argumentos sólidos, embora mais difícil que expor as falácias dos argumentos dos outros, é a tarefa que dá os melhores resultados.
Modalidade
Possibilidade, analiticidade e consistência
Ao definir a noção de validade, usámos frequentemente a palavra «impossível». Este termo tem muitos usos, mas até agora examinámos apenas um único uso do termo. Indicámos este uso ao falar de impossibilidade lógica. A ideia intuitiva de impossibilidade lógica é a seguinte: pode-se mostrar que algumas coisas são impossíveis recorrendo apenas à lógica e ao significado dos termos. Estas coisas são logicamente impossíveis. É logicamente impossível que Deus exista e não exista, visto que é uma mera verdade lógica que nada pode existir e não existir. Dizer que uma afirmação descreve algo logicamente impossível é equivalente a dizer que a afirmação é contraditória ou inconsistente. Eis alguns exemplos de afirmações contraditórias:
O João passa a Introdução à Filosofia e o João não passa a Introdução à Filosofia.
Todos os jogadores de futebol são atletas mas alguns jogadores de futebol não são atletas.
Qualquer irmão é uma mulher.
Tomada literalmente, nenhuma destas afirmações pode ser verdadeira. Mas para o mostrar são necessárias considerações ligeiramente diferentes para cada caso. A primeira afirmação é uma contradição perfeitamente explícita. A segunda frase conjunta (1) desta conjunção nega com a palavra «não» o que a primeira frase conjunta afirma. A segunda afirmação, embora obviamente contraditória, difere da primeira. Na segunda afirmação, o que é afirmado na primeira frase conjunta não é negado na segunda usando apenas a palavra «não». Para mostrar que a segunda afirmação é contraditória precisamos examinar o significado das palavras «algum» e «todos», assim como da palavra «não». Estas três palavras ocorrem no léxico do lógico e são consideradas "palavras lógicas" porque aparecem nas formas válidas de argumentação da lógica formal.
A terceira afirmação, embora igualmente contraditória, origina uma situação algo diferente. Para mostrar que é contraditória, para além de recorrer à lógica formal, temos também de examinar o significado ou definição do termo «irmão», isto é, devemos saber que uma pessoa a quem o termo se aplica é por definição do sexo masculino e não do feminino. Uma vez isto claro, poderemos ver que a afirmação enuncia que algumas pessoas são e não são do sexo feminino. Por razões puramente lógicas, isto é impossível. Contudo, o termo «irmão» não é um termo da lógica formal; é um termo descritivo. Alguns filósofos negam que possa resultar alguma coisa importante da distinção entre termos lógicos e termos descritivos, porque sustentam que, em última análise, a distinção é arbitrária e artificial. Para os nossos propósitos, é suficiente notar que, para mostrar que algumas afirmações são contraditórias, como as anteriores afirmações 2 e 3, temos de examinar o significado ou definição dos termos-chave dentro da afirmação.
Necessidade e analiticidade
As afirmações que descrevem algo logicamente impossível são contraditórias e por isso pode-se mostrar que são falsas recorrendo apenas à lógica e ao significado dos termos. Pode-se mostrar que outras afirmações são verdadeiras recorrendo apenas à lógica e ao significado dos termos. Estas afirmações descrevem algo logicamente necessário e são frequentemente chamadas «afirmações analíticas».
Por exemplo, é logicamente necessário que Deus exista ou não exista. A negação de uma afirmação logicamente impossível é uma afirmação logicamente necessária, e vice-versa. Por exemplo, a afirmação
1a. Não é verdade que o João passa a Introdução à Filosofia e o João não passa a Introdução à Filosofia.
é a negação da afirmação 1 e é logicamente necessária. Analogamente, as afirmações
2a. Não é verdade que todos os jogadores de futebol são atletas mas alguns jogadores de futebol não são atletas.3a. Não é o caso que qualquer irmão é uma mulher.
que são negações de 2 e 3, respectivamente, são ambas logicamente necessárias ou analíticas. A necessidade destas afirmações pode ser ainda mais evidente se as reformularmos. Por exemplo, 1a e 2a são equivalentes a
1b. Ou o João passa a Introdução à Filosofia ou o João não passa a Introdução à Filosofia.2b. Ou todos os jogadores de futebol são atletas ou alguns jogadores de futebol não são atletas.
respectivamente. É óbvio que todas estas afirmações são logicamente necessárias. A necessidade de afirmações como 2b e 3a pode tornar-se ainda mais explícita se considerarmos as definições dos termos «todos», «alguns», «irmão», e «feminino». Para compreender com exactidão como é que isto pode ser feito, temos de examinar o tópico das definições, o que faremos adiante. Antes disso, contudo, teremos de considerar um teste simples para determinar a necessidade e a impossibilidade.
Mundos possíveis: um teste de possibilidade e necessidade
Há um teste de possibilidade ou impossibilidade lógica que pode revelar-se útil e divertido. É imaginar mundos possíveis. Para decidir se algo é logicamente necessário, pergunta a ti próprio se podes imaginar um mundo possível no qual a afirmação pudesse ser falsa sem mudar o significado de qualquer das palavras que a compõem. Encontrar um mundo possível desses é como encontrar um contra-exemplo. É um caso possível que refuta a afirmação de que algo é logicamente necessário. Para vermos um exemplo, podes pensar que é obviamente verdade que todo o pensamento ocorre num cérebro. Talvez isto seja verdade no nosso mundo. É, contudo, fácil imaginar um mundo no qual há seres, almas não incarnadas, por exemplo, que pensam. Não precisas de admitir que há realmente um mundo desses, mas apenas a sua possibilidade, para refutar a asserção de que é logicamente necessário que todo o pensamento ocorra em cérebros. Por consequência, embora possa ser verdade no nosso mundo que todo o pensamento ocorre em cérebros, não é logicamente necessário que todo o pensamento ocorra em cérebros. Podemos imaginar mundos possíveis nos quais seres pensem sem terem cérebros. O Paraíso é um desses mundos imaginados, e, desgraçadamente, também o inferno.
Temos, assim, um teste, uma espécie de experiência mental, para testar a asserção de que uma afirmação é logicamente necessária. Se podes imaginar um mundo possível no qual a proposição é falsa, então não é logicamente necessária. Isto acontece porque a alegação de que algo é logicamente necessário é equivalente à alegação de que é verdadeiro em todos os mundos possíveis e falso em nenhum. O recurso a mundos possíveis é também útil quando examinamos se uma proposição é logicamente impossível. Tenta imaginar um mundo possível, que pode ser bastante diferente do mundo real, no qual a proposição seja verdadeira. Se podes pensar um tal mundo, então refutaste a alegação de que a proposição é logicamente impossível. Isso acontece porque a alegação de que uma proposição é logicamente impossível é equivalente à alegação de que não há nenhum mundo possível em que seja verdadeira. Por isso, encontrar um mundo possível no qual a proposição é verdadeira refuta a alegação de que é logicamente impossível. Considera a alegação de que é logicamente impossível aos gatos falar. Nenhum gato do mundo fala português, claro, mas podemos imaginar um mundo no qual os gatos evoluíram de modo a poderem aprender a falar, e que alguns deles falam português. Em vez de miarem queixosamente à porta, os gatos deste mundo dizem: "Eu gostaria de ir lá fora agora, por favor". Isto não acontece, mas é possível e divertido contemplar o mundo imaginado. Isso é suficiente para refutar a alegação de que é logicamente impossível que os gatos falem português.
Deste modo, podes testar se uma proposição é logicamente impossível perguntando a ti próprio se podes pensar num mundo possível no qual a proposição seja verdadeira. Se podes, então a proposição não é logicamente impossível. A alegação de que uma proposição é necessária ou impossível é implicitamente uma alegação acerca da verdade ou falsidade da proposição em todos os mundos possíveis. A alegação de que uma proposição é logicamente necessária é equivalente à alegação de que é verdadeira em todos os mundos possíveis, enquanto a alegação de que é logicamente impossível é equivalente à alegação de que é falsa em todos os mundos possíveis. É por esta razão que o teste funciona.
Pensar acerca de mundos possíveis pode dar-te um grande prazer porque podes dar livre curso à tua imaginação em vez de estar confinado à consideração do mundo como realmente é. Contudo, sê cuidadoso. A imaginação pode exceder tanto o mundo possível como o real. Se imaginas um mundo em que há quadrados redondos conversando com números, imaginas um mundo que não é possível. Não há nenhum mundo possível que contenha quadrados redondos porque esses objectos seriam ao mesmo tempo redondos e não redondos, quadrados e não quadrados. Se o mundo que imaginaste é desta forma implicitamente contraditório, não é um mundo possível. Portanto, o teste tem de ser usado com cuidado. No entanto, é útil aos filósofos como método-padrão para determinar aquilo a que se chama «a modalidade das proposições»; isto é, a sua necessidade, impossibilidade ou possibilidade.
Podemos recorrer aos mundos possíveis para mostrar que uma proposição é logicamente necessária, ou que uma proposição é logicamente impossível, em vez de tentar apenas refutar essas alegações? Se tentaste imaginar mundos possíveis nos quais uma proposição seja falsa, e após um esforço judicioso não encontraste nenhum, podes concluir a título experimental que a proposição é necessária. Analogamente, se tentaste imaginar mundos possíveis nos quais uma proposição seja verdadeira, e após deliberação cuidadosa não pudeste encontrar nenhum, podes concluir a título experimental, que a proposição é impossível. Como resultado da tua busca por um mundo possível, podes apenas concluir a título experimental que uma proposição é necessária ou impossível; porque a alegação de necessidade ou impossibilidade é uma alegação acerca de todos os mundos possíveis. Claro que na tua investigação podes não dar por alguns mundos possíveis. À medida que te tornares um explorador de mundos possíveis experiente, tornar-te-ás mais confiante na descoberta de mundos possíveis. Por consequência, o teu uso do teste tornar-se-á mais confiante, e tornar-te-ás um filósofo mais competente.
Para determinar se uma proposição é logicamente necessária ou logicamente impossível, é importante compreender o seu significado tão claramente quanto possível. Na verdade, para determinar se descreveste um contra-exemplo ou um mundo possível, tens frequentemente de reflectir no significado das palavras na tua descrição para garantir que não se esconde nela nenhuma contradição. As definições dizem-nos o que uma palavra significa, e portanto temos de virar-nos agora para o exame das definições.
Cornman, Lehrer e Pappas

terça-feira, 9 de setembro de 2008

A LIBERDADE

Tal Ética (existencialista), como é evidente, assenta, antes de mais, num pressuposto de “liberdade”. Mas que significa a liberdade para Sartre?
Na possibilidade de dizer “não”. E é o homem aquele ser pelo qual o “não” veio ao mundo. Negar é com efeito, por um lado, possibilitar um “recuo” em face de um objecto, “deslocarmo-nos” dele, cercá-lo da negação que o determine, e paralelamente afirmarmo-nos como subjectividade, como autoconsciência, como indivíduos; e por outro lado é transcender o mesmo objecto, projectarmo-nos para além dele, visá-lo em significação e integrá-lo num complexo de significações. Assim, negando e porque negamos, recusamos a nós próprios a condição de “coisa”, afirmamos em nós a condição de um pour-soi contra um en-soi. Estou condenado a existir para sempre para além da minha “essência”. Daí a célebre afirmação de Sartre de que “estou condenado a ser livre”. A liberdade portanto não é uma qualidade que se acrescente às qualidades que já possuía como homem: a liberdade é o que precisamente me estrutura como homem, porque é uma designação específica da própria qualidade de ser consciente, de poder negar, de transcender. A liberdade é o que define estritamente a minha possibilidade de me recusar como en-soi (coisa), projectando-me para além disso ou, se se quiser, para além de mim.
Vergílio Ferreira
SARTRE, Jean-Paul; FERREIRA, Vergílio, O Existencialismo é um Humanismo, 2004. Lisboa: Bertrand Editora, pp. 111-112

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Os instrumentos do ofício ii

Parte II
Outras formas válidas de argumentação
Obtemos algumas formas válidas de argumentação inserindo expressões que não são proposições. Para vermos isto, reflecte no seguinte argumento:
Todas as acções correctas são acções que produzem boas consequências.
Todas as acções que produzem boas consequências são acções que maximizam a felicidade e minimizam o sofrimento.
Logo; todas as acções correctas são acções que maximizam a felicidade e minimizam o sofrimento.
A mais pequena reflexão convencer-te-á de que se as premissas deste argumento são verdadeiras, então a conclusão tem também de ser verdadeira. Este argumento não tem a forma de um Modus Ponens, ou qualquer das outras formas examinadas anteriormente. O argumento é válido em virtude de ser um argumento com a seguinte forma:
Todos os X são Y.
Todos os Y são Z.
LogoTodos os X são Z.
Todos os argumentos desta forma são válidos. Obtemos um argumento desta forma pela substituição das letras X, Y, e Z por expressões que descrevem classes de coisas. Se substituirmos X pela expressão «acção correcta», Y por «acções que produzem boas consequências», e Z por «acções que maximizam a felicidade e minimizam o sofrimento», obteremos o argumento agora apreciado. Outras formas válidas de argumentação deste género são as seguintes:
Nenhum X é Y.
Todos os Z são X.
Nenhum Z é Y.
Todos os X são Y.
Alguns X são Z.
Alguns Z são Y.
Todos os X são Y.
Alguns X não sãp Z.
Alguns Y não são Z.
Estes argumentos são conhecidos como silogismos categóricos.
Validade e verdade
Os argumentos com uma forma válida são válidos mesmo que sejam completamente absurdos. Por exemplo, o argumento seguinte é válido:
Todas as mulheres são tigres.
Todos os tigres são homens.
LogoTodas as mulheres são homens.

Este argumento tem premissas e conclusão falsas. O facto de ser válido revela o carácter hipotético da validade. A validade dum argumento destes significa que nos garante que a conclusão tem de ser verdadeira se as premissas são verdadeiras.
Se um argumento pode ser válido e no entanto ter uma conclusão disparatadamente falsa, para que serve a validade? Por que deveremos estar interessados na validade? A resposta é que um argumento válido preserva a verdade. A verdade das premissas de um argumento válido é preservada na conclusão. Claro que, se as premissas não são verdadeiras, então mesmo um argumento válido não pode garantir que a conclusão é verdadeira. Mas apenas os argumentos válidos preservam a verdade. Uma analogia pode ajudar a clarificar este ponto. Podemos mais ou menos dizer que os argumentos válidos preservam a verdade como os bons frigoríficos preservam a comida. Se a comida quando a colocas num frigorífico está estragada, então até um bom frigorífico não a pode preservar. Mas se a comida colocada num bom frigorífico é fresca, então o frigorífico preservá-la-á. Os bons frigoríficos e os argumentos válidos preservam respectivamente a comida fresca e a verdade. Mas, tal como os primeiros não podem preservar a comida quando a comida está estragada, também os últimos não podem preservar a verdade quando as premissas são falsas. Se é lixo que lá metemos, é lixo que recebemos. No entanto, merece a pena termos frigoríficos e argumentos válidos porque preservam algo bom quando o temos, e sem eles acabamos com algo estragado mesmo quando começámos com algo impecável. Portanto, devemos desejar a validade e evitar a invalidade.
O método dos contra-exemplos e os mundos possíveis
Examinámos várias formas válidas de argumento. Contudo, estas formas são apenas umas quantas entre muitas. Para os nossos propósitos, não é necessário, mesmo que fosse útil, saber todas as formas válidas de argumento. Em vez disso confiaremos num teste de validade mais intuitivo. Primeiro, precisamos de um teste de invalidade, isto é, um método para mostrar que a conclusão de um argumento não se segue validamente das premissas. A técnica que iremos adoptar é conhecida como «método dos contra-exemplos».
Encontrar um contra-exemplo para um argumento é uma questão de imaginar um mundo possível no qual as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. A possibilidade desse mundo mostra que o argumento é inválido. Podes pensar em mundos possíveis como variantes do nosso mundo actual. Por cada aspecto que o nosso mundo actual possa ser diferente do que é, há um mundo possível que é diferente do nosso mundo actual nesse aspecto. Por exemplo: a crise do Iraque poderia ter dado origem à terceira guerra mundial; portanto, há um mundo possível em que esta crise leva à guerra. O Benfica poderia não ter perdido o campeonato; portanto, há um mundo possível onde não perdeu. Os teus pais poderiam nunca se ter encontrado; portanto, há um mundo no qual nunca nasceste. A expressão «mundo possível» é apenas uma forma imaginativa de falar acerca do modo como as coisas poderiam ter sido mas que na realidade não são. É muito fácil construir mundos possíveis: sempre que imaginas uma alteração possível ao mundo real, constróis um mundo possível que difere a respeito dessa alteração do mundo real. Encontrar um contra-exemplo para um alegado argumento válido desinteressante é uma questão de construir um mundo possível no qual as premissas do argumento são verdadeiras e a conclusão falsa. Isto mostra que é possível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa.
Podes dar asas à imaginação ao pensar nestes mundos e nestes exemplos, mas não podes voar para além do possível. Um contra-exemplo não precisa de ser um exemplo de algo que tenha alguma vez acontecido ou de algo que possa acontecer. Desde que o contra-exemplo descreva claramente algo possível, um mundo claramente possível no qual a conclusão é falsa e as premissas verdadeiras, a pretensão do argumento à validade foi refutada. Podes refutar um argumento inválido pelo uso da tua imaginação. Tentemos fazê-lo. Examina o seguinte argumento:
Todos os comunistas se opõem ao capitalismo.
O Silva opõe-se ao capitalismo.
LogoO Silva é comunista.

É muito fácil descrever um contra-exemplo que mostre que a conclusão deste argumento não se segue das premissas. Imagina um mundo possível no qual o Silva é uma pessoa que acredita que todas as riquezas e propriedades devem ser possuídas e controladas pela sua família e passadas por herança. Portanto, ele rejeita o capitalismo e o comunismo a favor do Silvismo, uma doutrina económica até agora desconhecida que afirma que tudo deve pertencer aos Silvas. O que é descrito neste exemplo é um mundo possível, e, supondo que a primeira e a segunda premissas são verdadeiras, é um exemplo no qual as premissas são verdadeiras e a conclusão falsa. Este contra-exemplo mostra que é possível às premissas do argumento serem verdadeiras e à conclusão ser falsa. Mostrou-se que o argumento é inválido. A imaginação triunfa sobre a invalidade. O argumento é destruído.
As observações anteriores ilustram o método dos contra-exemplos tal como se aplica aos argumentos. É essencialmente um método para estabelecer a invalidade. Também temos alguns testes para a validade. Se um argumento tem uma das formas válidas de argumento citadas acima, então é um argumento válido. Além disso, pode-se mostrar que um argumento é válido pelo uso repetido das formas de argumento. Contudo, alguns argumentos são obviamente válidos, mesmo que não sejam de nenhumas das formas de argumento discutidas. Por exemplo, de uma afirmação como
A Joana é advogada criminal.
podemos obviamente concluir validamente que
A Joana é advogada.
Uma vez que há argumentos válidos que não pertencem a nenhuma das formas de argumento aqui enunciadas, precisamos de um procedimento que permita decidir se um argumento é válido. O nosso procedimento será como segue. Veremos um argumento como inocente até prova de que é culpado. Isto é, aceitaremos um argumento como válido até que pensemos nalgum contra-exemplo que prove que é inválido. Claro que este procedimento não deve ser aplicado irreflectidamente ou acriticamente. Deveremos perguntar a nós mesmos se é de todo possível mostrar que este argumento é inválido por intermédio de um contra-exemplo. Deveremos passear as nossas imaginações pelos mundos possíveis. Se, após uma reflexão cuidadosa, concluirmos que não se pode encontrar nenhum contra-exemplo, poderemos a título experimental aceitar o argumento como válido. Este será o procedimento que adoptaremos.
Petições de princípio
Outras características de um argumento, algumas das quais referimos já, podem levar-nos a rejeitar um argumento mesmo que o consideremos válido. Podemos saber, por exemplo, que as premissas de um argumento são falsas. Outra razão importante para rejeitar um argumento é que podemos ver que o argumento é uma petição de princípio. Um argumento é uma petição de princípio quando uma premissa do argumento é meramente a reafirmação da conclusão.
Supõe que um filósofo está a afirmar que nenhum acto involuntário deve ser punido. O argumento seguinte é manifestamente uma petição de princípio:
Todos os actos que devem ser punidos são voluntários.
LogoTodos os actos que devem ser punidos não são involuntários.
Neste argumento, a conclusão e a premissa são diferentes formas de dizer a mesma coisa. Assim, se a conclusão do argumento é o que está em discussão, então o argumento é uma petição de princípio.
Às vezes a premissa que reafirma a conclusão numa petição de princípio está melhor disfarçada. Considera o argumento seguinte:
Um acto sem a volição do agente não deve ser punido.
Um acto involuntário é um acto sem a volição do agente.
LogoUm acto involuntário não deve ser punido.

Descobre-se que este argumento é uma petição de princípio quando perguntamos o que significa dizer que um acto é "sem a volição do agente", porque se tivermos reflectido nessa curiosa expressão, tornar-se-á óbvio que significa mais ou menos "involuntário". Assim, quando compreendemos o que a primeira premissa do argumento significa, percebemos que afirma precisamente a mesma coisa que a conclusão.
Um exemplo de um argumento que não é uma petição de princípio e que tem a mesma conclusão é o seguinte:
Nenhum acto involuntário é errado.
Um acto não deve ser punido a menos que seja errado.
LogoNenhum acto involuntário deve ser punido.
Nenhuma destas premissas é uma reformulação disfarçada da conclusão. Dizer que um acto é voluntário é muito diferente de dizer que é errado, porque muitos actos voluntários são perfeitamente correctos. As premissas deste argumento válido podem ser desafiadas. Mas esta é a única forma que um contendor tem para escapar à conclusão.
Cornman, Lehrer e Pappas
Retirado de www.criticanarede.com

domingo, 7 de setembro de 2008

Os instrumentos do ofício

Parte I
Às vezes diz-se que a filosofia é uma disciplina dialéctica, querendo com isso dizer que a filosofia procede através de argumentos e contra-argumentos. É claro que, num certo sentido, todas as disciplinas dependem de argumentos, mas o raciocínio lógico tem na filosofia um papel proeminente. A explicação está em que a filosofia procura responder a questões tão fundamentais que raramente os factos empíricos as podem resolver. Quando duas pessoas discordam acerca de um assunto filosófico, a única forma de poderem avançar é examinando e avaliando os argumentos e objecções de ambos os lados. Portanto, para que haja algum ganho a investigação filosófica tem de ser crítica e lógica. Para facilitar esta investigação, temos de aprender a fazer perguntas críticas acerca dos argumentos que encontramos, e a examinar as respostas com argúcia lógica. Estas perguntas são questões de lógica e semântica. Apresentaremos uma introdução breve à lógica e à semântica, de modo a podermos abordar os difíceis problemas da filosofia com as competências necessárias a uma investigação inteligente e rigorosa.
Lógica dedutiva
Chama-se «lógica» ou «lógica formal» ao campo que tem por objecto os argumentos. A primeira questão a responder neste campo é: O que é um argumento? Para os nossos fins, um argumento é um grupo de afirmações das quais uma, a conclusão, se segue das outras. Por exemplo, atenta no seguinte argumento: «Tudo é causado e, por isso, ninguém age de forma livre». Este argumento, cujos méritos examinaremos no capítulo três, pode ser apresentado de forma mais formal como se segue:
1. Se tudo é causado, então ninguém age livremente.
2. Tudo é causado.
3. Logo Ninguém age livremente.
A palavra «Logo» por cima da afirmação 3 indica que o que se encontra abaixo é a conclusão que se segue das afirmações acima. As afirmações 1 e 2 são razões dadas para concluir 3, e a essas afirmações chama-se premissas. Assim, todo o argumento consiste numa conclusão e numa ou mais premissas de que a conclusão se segue.
Solidez e validade
Em geral, há dois géneros de argumentos, indutivos e dedutivos. Examinaremos os argumentos indutivos mais tarde, mas primeiro concentrar-nos-emos nos argumentos dedutivos, de que apresentámos agora mesmo um exemplo. Diz-se que um argumento dedutivo é sólido quando as premissas do argumento são verdadeiras e o argumento é válido. Dizer que um argumento é válido é equivalente a dizer que é logicamente impossível que as premissas do argumento sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Uma forma menos precisa mas intuitivamente clara de pôr o assunto é dizer que, num argumento válido, se as premissas são verdadeiras, então a conclusão tem de ser verdadeira. Por esta definição, é fácil ver que o argumento anterior é válido, e, se as premissas são verdadeiras, então tem de ser igualmente sólido. Porque se as premissas
1. Se tudo é causado, então ninguém age livremente.
2. Tudo é causado.
são ambas verdadeiras, então tem também de ser verdade que
3. Ninguém age livremente.
Por razões meramente lógicas, é impossível que as premissas 1 e 2 sejam ambas verdadeiras e a conclusão 3 seja falsa. É importante notar que o facto de que este argumento é válido não prova que a conclusão seja verdadeira. A validade é uma característica condicional ou hipotética; garante-nos que a conclusão do argumento é verdadeira se as premissas o forem.
Pode-se também dizer que o argumento é válido devido à sua forma. Podemos representar a forma do argumento anterior pelo esquema seguinte:
Se P, então Q
P
Logo Q
Chama-se aos argumentos com esta forma «Modus Ponens». Qualquer argumento com esta forma é válido, e portanto podemos dizer que a própria forma do argumento é válida. Reflecte acerca do argumento seguinte:
Se Deus existe, então não há mal.
Deus existe.
Logo Não há mal.
Este argumento, como o anterior, é válido porque tem a forma do Modus Ponens. Podemos obter estes argumentos a partir do Modus Ponens pela substituição das letras P e Q na forma do argumento pelas proposições portuguesas apropriadas. Se substituirmos a letra P pela proposição «Deus existe» e a letra Q pela proposição «Não há mal» na forma do argumento, obteremos o argumento válido citado agora mesmo. Quando a forma de um argumento é válida e fazemos este tipo de substituições obtemos um argumento válido.
Estas são outras formas válidas de argumentos: Esta lista de formas de argumentos não é completa nem definitiva. Contudo, examinando vários argumentos que têm estas formas, podemos obter uma ideia intuitiva de como é um argumento válido. Fazendo as substituições adequadas nas formas de argumentos anteriores pode-se mostrar que muitos argumentos são válidos. Nalguns casos, teremos de recorrer a mais do que a uma forma de argumento para mostrar que um argumento é válido. Por exemplo, pensa no argumento seguinte:
Se Deus não existe, então tudo é permitido.
Se o homicídio não é permitido, então nem tudo é permitido.
O homicídio não é permitido.
Logo Não se dá o caso que Deus não exista.
Para mostrar que este argumento é válido, repara primeiro que de
Se o homicídio não é permitido, então nem tudo é permitido.
O homicídio não é permitido.
Podemos concluir por Modus Ponens que
Nem tudo é permitido.
Podemos agora pegar nesta afirmação, que é a conclusão do argumento anterior, e usá-la como uma premissa noutro argumento. Da premissa
Se Deus não existe, então tudo é permitido.
e da nova premissa
Nem tudo é permitido.
podemos concluir por Modus Tollens que
Não se dá o caso que Deus não exista.
Isto mostra que a partir das premissas originais podemos validamente deduzir a conclusão do argumento original fazendo apelo às formas de argumentação antes apresentadas. Uma lição a tirar do argumento agora examinado é que qualquer coisa deduzida validamente de um conjunto de premissas, tal como a afirmação
Nem tudo é permitido.pode ser acrescentada às premissas originais com o objectivo de fazer mais deduções.
Cornman, Lehrer e Pappas
Retirado de http://www.criticanarede.com/

sábado, 6 de setembro de 2008

A MORTE vi

Existe para mim, de facto, a morte dos “outros”. Não a minha – nem como “experiência” (que a si mesma se destrói como experiência) nem como “espera”. Mas posso “vivê-la” como pura possibilidade – e a tonalidade afectiva da “angústia” é disso prova.
Sarte, jogando com um conceito de morte como de algo exterior a nós, adopta um “truque” do género do de Epicuro quando este reflectiu que o medo da morte era absurdo, já que enquanto vivos (não estando pois mortos…) a morte nos não atingiu ainda, e não devemos consequentemente temê-la; e quando mortos (porque estamos mortos) já a não podemos recear. Ao que, aliás poderíamos responder que não vale a pena pensarmos no futuro dos filhos, porque enquanto estamos vivos, podemos sustentá-los e depois de termos morrido já não constituem problema. Epicuro e Sartre, com efeito esquecem ou subestimam que é de dentro da vida que nós podemos pensar-nos para depois da morte, que é do lado de cá que nós podemos pensar seja o que for, e portanto também o lado de lá, que um raciocínio para o depois da morte tem de ser estabelecido paradoxalmente embora, enquanto estamos vivos, precisamente porque é o nosso raciocínio, que em suma, toda a reflexão sobre a morte é ambígua, porque nos implica a nós vivos para quando estivermos mortos. Não estaremos mortos: haverá apenas mortos. Assim sendo, é de um ponto de vista vida-morte que o limite da vida e a tragédia da morte se esclarecem.
Porque a morte não encerra a vida, já que o homem é constante pró-jecto, Sartre conclui pelo “absurdo” da morte e simultaneamente da vida que é uma “paixão inútil”: “se nós temos de morrer, a nossa vida não tem sentido, porque os seus problemas não recebem qualquer solução e porque até a significação dos problemas permanece indeterminada”. A que viria, pois, um problema de “autenticidade”? Para um critério ético da valoração, Sartre dir-se-ia apontar a um radical “pessimismo” que num Heidegger não é visível. No entanto sob outros aspectos, nós poderíamos concluir pela inversa. Dir-se-ia que, dada a in-significação da morte, Sartre faz reverter à vida, e só a ela, toda a problemática da vida-morte.
Vergílio Ferreira
SARTRE, Jean-Paul; FERREIRA, Vergílio, O Existencialismo é um Humanismo, 2004. Lisboa: Bertrand Editora, pp. 75-77

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Lógica informal iii

Parte III
Quando é que um argumento é bom?
Em termos gerais, um argumento é bom quando as suas premissas nos oferecem boas razões para aceitar a conclusão. Mas isto pode não ser inteiramente esclarecedor.
Já vimos que há argumentos válidos inaceitáveis e que há argumentos que não são válidos mas são aceitáveis. Temos, portanto, maus argumentos válidos e bons argumentos não válidos. Sabemos também que todos os argumentos inválidos são maus. Mas nós não estamos apenas interessados em argumentos válidos; estamos, principalmente, interessados em bons argumentos. Ou seja, estamos interessados em todos os argumentos que nos conseguem persuadir de forma racional. O que não se verifica apenas com os argumentos válidos. Verifica-se também com argumentos de outros tipos, sejam eles por analogia, indutivos, sobre causas ou de autoridade. Em conclusão: nem todos os argumentos válidos são bons e nem todos os argumentos não válidos são maus.
Vejamos novamente o caso dos argumentos válidos, procurando, desta vez, distinguir os bons dos maus.
Ninguém estaria disposto a deixar-se convencer por um argumento com premissas falsas, mesmo que tal argumento fosse válido. Frequentemente rejeitamos, como maus, argumentos válidos, simplesmente porque discordamos de alguma das suas premissas. Exigimos, pois, que um bom argumento válido tenha premissas verdadeiras. Sem premissas verdadeiras, um argumento não pode ser sólido. Por exemplo, o seguinte argumento é válido mas não é sólido:
A eutanásia deve ser permitida.
A eutanásia não deve ser permitida.
Logo, deus existe.
Por estranho que pareça, o argumento anterior é válido. Neste argumento nunca ocorre aquilo que não pode ocorrer num argumento válido: premissas verdadeiras e conclusão falsa. Não sabemos qual o valor de verdade da conclusão e nem é preciso. Basta-nos saber que as premissas não podem ser ambas verdadeiras. Se a primeira é verdadeira, a segunda tem de ser falsa e vice-versa. Isto significa que as premissas são inconsistentes. Mas não há aqui nada de novo em relação ao que disse atrás acerca da solidez dos argumentos, pois podemos rejeitá-lo como mau por ter obrigatoriamente uma premissa falsa. Daí os argumentos com premissas inconsistentes serem maus, apesar de serem sempre válidos.
Veja-se agora um outro exemplo, também ele de um argumento válido:
Se a minha teoria é verdadeira, então deus existe.
Se a tua teoria é verdadeira, então deus não existe.
Mas as nossas teorias são ambas verdadeiras.
Logo, deus existe e não existe.
Não há qualquer circunstância possível em que a conclusão seja verdadeira; ela é obrigatoriamente falsa porque é uma proposição inconsistente. Mas dado que o argumento é válido, pelo menos uma das premissas tem de ser falsa. Caso contrário, teríamos premissas verdadeiras e conclusão falsa, o que não é permitido num argumento válido. É fácil de ver que, neste caso, a premissa falsa é a terceira: «as nossas teorias são ambas verdadeiras». Concluímos, então, que a inconsistência, quer entre premissas quer da conclusão, torna qualquer argumento válido num mau argumento.
Mas vejamos agora outro argumento também ele válido, desta vez sem premissas nem conclusão inconsistentes:
Portugal é um país europeu.
Portimão fica no Algarve.
Logo, o diabo existe ou não existe.
Mais uma vez, parece estranho que este argumento seja válido. E agora nem sequer temos premissas inconsistentes, até porque são ambas verdadeiras. Mas nem sequer precisamos de saber se as premissas são verdadeiras ou falsas. Basta verificar que a conclusão em circunstância alguma pode ser falsa. Diz-se, nesse caso, que a conclusão é uma tautologia. E se a conclusão é tautológica, isto é, se é verdadeira em todas as circunstâncias possíveis, também não pode acontecer as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. Eis a razão pela qual este argumento tem de ser válido. Ainda assim, ninguém terá dúvidas em considerá-lo um mau argumento.
Note-se que não só é válido como tem premissas verdadeiras. Qual é, então, o defeito deste argumento? O defeito é que as suas premissas são irrelevantes para a conclusão. Como tal, não oferecem boas razões para aceitar a conclusão inferida. Temos, pois, um problema de irrelevância das premissas. A conclusão não se segue das premissas, ainda que as premissas sejam verdadeiras e o argumento válido. A conclusão é verdadeira por si mesma, por isso é que se trata de uma tautologia. Por mais disparatadas que sejam as premissas, a verdade da conclusão está sempre garantida independentemente delas.
Estamos agora em condições de acrescentar que um bom argumento válido tem de ser sólido. Só que, para além do que foi dito atrás, a solidez de um argumento implica que a sua conclusão não seja tautológica. Uma conclusão tautológica torna as premissas irrelevantes.
Proponho que se verifique se um argumento é sólido respondendo às seguintes três perguntas:
É válido?
Todas as suas premissas são verdadeiras?
A conclusão é tautológica?
A resposta esperada num argumento sólido é «sim» para as primeira e segunda perguntas e «não» para a terceira. O «sim» da primeira garante-nos que o argumento apresenta uma forma lógica correcta; o «sim» da segunda (juntamente com o «sim» da primeira) garante-nos que a conclusão não se segue de falsidades e que não há premissas nem conclusão inconsistentes; o «não» da terceira garante-nos que as premissas não são irrelevantes. Se alguma das respostas não for a esperada, então o argumento não é sólido. E se não é sólido, também não é bom.
Mas, como já referi, há outros argumentos bons que não são válidos. Esses são os argumentos fortes, sejam eles argumentos por analogia, indutivos, sobre causas ou de autoridade. Resumindo o que disse atrás, as analogias fortes são aquelas em que as semelhanças apontadas dizem respeito a aspectos relevantes para a conclusão que se quer inferir; as induções fortes são aquelas em que a força das premissas torna altamente improvável, embora não logicamente impossível, que a conclusão seja falsa; os argumentos sobre causas são fortes se a sua conclusão sugere não apenas causas possíveis mas a causa mais provável, ao mesmo tempo que explica como a causa conduz ao efeito; os argumentos de autoridade são fortes se se referem a domínios de conhecimento muito especializados, se a autoridade invocada é reconhecida como tal entre os seus pares, se os especialistas não discordam entre si, e se a autoridade e a fonte onde a informação foi colhida estiverem devidamente identificadas.
Podemos agora concluir que os argumentos bons são todos os argumentos sólidos e todos os argumentos fortes.
De que serve, afinal, estudar lógica?
Será que as pessoas que não estudam lógica não conseguem argumentar nem pensar consequentemente? É óbvio que o conseguem, tal como muitas pessoas analfabetas falam o português, aplicando correctamente muitas das regras gramaticais que elas próprias desconhecem. O mesmo se passa em relação à matemática. Há muitas pessoas que nunca estudaram aritmética e que dificilmente se deixam enganar nas contas. Se, com relativo sucesso, somos intuitivamente capazes de pensar de forma lógica e consequente, porquê então estudar lógica?
Penso que há três razões principais:
O estudo metódico e sistemático da lógica desenvolve uma técnica que, na medida em que o fazemos de maneira explícita e consciente, nos permite pôr à prova muitos dos nossos juízos intuitivos.
O treino do uso explícito das regras da lógica dá-nos a possibilidade de aperfeiçoar o raciocínio.
O domínio da lógica permite avaliar a racionalidade de algumas das nossas opiniões, na medida em que as premissas dos nossos argumentos exprimem opiniões nossas e as suas conclusões aquilo que tais opiniões nos levam a afirmar (novas opiniões).
Aires Almeida
Retirado de http://www.criticanarede.com/

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

A MORTE v

Mas antecipando-se a si, o homem descobre a morte como limite, e pode antecipar o vivê-la, o enfrentá-la. A morte surge assim como o último possível numa sequência de possíveis. E como a morte, sendo a última possibilidade, verdadeiramente única, em que o homem está só, ela representa a melhor prova de autenticidade. O homem é, pois, um ser-para-a-morte, por ser a morte o limite de uma cadeia de possíveis, e ainda porque o futuro nos esclarece o presente, nos determinamos não de hoje para amanhã, mas ao invés, já que o homem é antecipação de si. Como pode a morte encerrar-me as possibilidades, sendo eu uma possibilidade? Como atingir um limite, se o homem é o não limite? Mas independentemente da antecipada e secundária experiência que eu da morte possa fazer através dos conhecidos que morrem eu não vivo a morte como um dado, um traço que peça uma soma (porque eu não sou bem uma “soma”) mas justamente como possibilidade.
O homem inautêntico disfarça a morte, recolhendo-se à indiferença do “se”: morre-se. Morrem os outros, morrerei eu um dia, sim, mas não agora ainda. A certeza da morte é em tal caso uma pseudocerteza. A morte torna possível uma radical impossibilidade da realidade humana, porque o próprio da realidade humana é o “poder ser” e a morte anula esse “poder ser”, torna possível o impossível. Assumi-la, pois, é sermos autênticos. E porque essa autenticidade não importa ao facto exclusivo de morrermos, mas a tudo o que retrospectivamente daí se desencadeia, é no dia-a-dia que o homem autêntico enfrenta essa possibilidade.
A morte não é, portanto, algo de exterior a nós. É um limite que nos define em totalidade acabada. Que eu não saiba quando morrerei, que eu possa esperar não morrer nesta ou naquela situação, ainda que desesperada, nem por isso me é impossível conceber-me nos limites de uma totalidade finda.
Vergílio Ferreira
SARTRE, Jean-Paul; FERREIRA, Vergílio, O Existencialismo é um Humanismo, 2004. Lisboa: Bertrand Editora, pp. 71-74

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Lógica informal ii

Parte II
Que tipos de argumentos há?
Os argumentos de que tenho falado até aqui são também conhecidos como argumentos dedutivos. O melhor que se pode dizer dos argumentos dedutivos é que se trata daquele tipo de argumentos cuja forma garante a verdade da conclusão, no caso de as premissas serem também verdadeiras. A sua forma lógica é, portanto, decisiva. O mesmo não se pode dizer de outros tipos de argumentos, residindo aí a diferença entre lógica formal e lógica informal. Para além dos argumentos dedutivos temos então os argumentos:
Por analogia
Indutivos (generalizações a partir de exemplos)
Sobre causas
De autoridade
Juntamente com os argumentos dedutivos, os argumentos por analogia são os mais utilizados pelos filósofos. Os argumentos por analogia costumam apresentar a seguinte forma:
Os x têm as propriedades A, B, C, D.
Os y, tal como os x, têm as propriedades A, B, C, D.
Os x têm ainda a propriedade E.
Logo, os y têm também a propriedade E.
Podemos resumir e dizer:
Os x, como os y, têm as propriedades A, B, C, D.
Os x têm ainda a propriedade E.
Logo, os y têm a propriedade E.
Resumindo ainda mais:
Os x são E.
Os y são como os x.
Logo, os y são E.
Os argumentos por analogia partem da ideia de que se diferentes coisas são semelhantes em determinados aspectos, também o serão noutros. Veja-se o exemplo seguinte:
Os soldados de um batalhão têm de obedecer às decisões de um comandante para atingir os seus objectivos.
Uma equipa de futebol é como um batalhão.
Logo, os jogadores de uma equipa de futebol têm de obedecer às decisões de um comandante (treinador) para atingir os seus objectivos.
O termo «como» na segunda premissa está destacado. Esse termo indica que estamos a estabelecer uma comparação entre situações análogas, característica dos argumentos por analogia. Mas será que apenas pela forma do argumento ficamos a saber se é aceitável ou não? Para tornar clara a resposta a esta pergunta, compare-se o argumento anterior com o seguinte:
Os soldados de um batalhão andam armados quando treinam.
Uma equipa de futebol é como um batalhão.
Logo, os jogadores de futebol andam armados quando treinam.
A primeira coisa que se torna evidente é que, ainda que o primeiro argumento possa ser aceitável, este último não o é com toda a certeza. Acontece, porém, que ambos exibem exactamente a mesma forma. Concluímos, assim, que a mera inspecção da sua forma não nos permite classificar os argumentos por analogia como bons ou maus. Portanto, a qualidade destes argumentos não depende da sua forma lógica. Encontramos com a mesma forma bons e maus argumentos por analogia. Por isso é que tais argumentos não fazem parte da lógica formal. Por isso também não dizemos que um argumento por analogia é válido ou inválido, coisa que só se aplica aos argumentos dedutivos. Recordo a definição de validade, segundo a qual é logicamente impossível obter conclusões falsas de premissas verdadeiras, o que não acontece nos argumentos por analogia. Nos argumentos por analogia nunca podemos garantir logicamente que de premissas verdadeiras se obtêm sempre conclusões verdadeiras. Isto é, os argumentos por analogia não possuem a característica de preservar logicamente a verdade. Assim, não temos outro remédio senão olhar para aquilo que as premissas e a conclusão afirmam, de pouco servindo a análise do seu aspecto formal. Repare-se no seguinte argumento:
Os bombeiros dividem-se em batalhões, obedecem a uma hierarquia e têm um quartel, como os polícias.
Os polícias usam farda.
Logo, os bombeiros usam farda.

Vimos que um argumento por analogia não é válido ou inválido, mas que nem todos os argumentos por analogia são maus. Costuma-se dizer que os argumentos por analogia são fortes ou fracos. Como distinguimos uns dos outros? O argumento anterior é constituído por premissas e conclusão verdadeiras. Aparentemente é um argumento forte por analogia. Mas veja-se agora um outro argumento por analogia (com a mesma forma do anterior, claro) com premissas também verdadeiras, mas cuja conclusão é manifestamente falsa:
Os bombeiros dividem-se em batalhões, obedecem a uma hierarquia, têm um quartel e usam farda, tal como os polícias.
Os polícias usam arma.
Logo, os bombeiros usam arma.
Este argumento é, sem dúvida, fraco. Até porque a conclusão é falsa. Ao avaliar um argumento por analogia no sentido de saber se é forte ou fraco, temos de estar atentos a três critérios, os quais se manifestam nas seguintes perguntas:
As semelhanças apontadas nos casos que estão a ser comparados são relevantes para a conclusão que se quer inferir?
A comparação tem por base um número razoável de semelhanças?
Apesar das semelhanças apontadas, não haverá diferenças fundamentais entre os casos que estão a ser comparados?
Aplicando os critérios patentes nas perguntas anteriores, podemos verificar se uma analogia é forte ou fraca. No caso do argumento anterior, por exemplo, verificamos que falha os critérios 1e 3. As semelhanças entre os bombeiros e os polícias são muitas, mas não são relevantes para a conclusão que se quer tirar. Nenhuma delas está sequer relacionada com o uso de arma, falhando assim o critério 1. Mas também falha o critério 3 porque existe uma diferença fundamental entre os bombeiros e os polícias. Estes fazem parte de uma força da ordem, necessitando por isso dos meios para a restabelecerem quando é perturbada; aqueles são membros de uma força de paz, não necessitando de quaisquer meios de coacção.
A seguinte analogia também é claramente fraca:
Os franceses, como os ingleses, têm vários filósofos famosos.
Os franceses estudam filosofia no ensino secundário.
Logo, os ingleses estudam filosofia no secundário.
É discutível se a semelhança referida é ou não relevante para a conclusão, mas não há qualquer dúvida que o critério (ii) não é satisfeito. Não podemos inferir seja o que for sobre o ensino da filosofia em Inglaterra baseados apenas numa semelhança com o caso francês.
Um famoso argumento por analogia a favor da existência de Deus é o seguinte:
Todas as máquinas têm um criador que as põe a funcionar de forma precisa, regular e inteligível.
O mundo é como uma máquina.
Logo, o mudo tem um criador.
Será um argumento forte? Não é difícil admitir que as semelhanças são relevantes para a conclusão, passando satisfatoriamente o critério 1. Também não é difícil admitir que as semelhanças entre as máquinas e a natureza são numerosas, passando também no critério 2. E quanto ao critério 3? Será que há diferenças fundamentais? Parece-me que há uma diferença que não pode ser desprezada: enquanto as máquinas não se modificam nem evoluem com o tempo, a não ser pela intervenção de alguém, os seres naturais modificam-se e aperfeiçoam-se constantemente por si próprios. Esta diferença é determinante para pôr em causa a necessidade de um criador para a natureza. O argumento falha, portanto, o critério 3. Por isso é um argumento fraco.
Se os argumentos dedutivos e por analogia são muito utilizados na filosofia, o mesmo já não acontece com os argumentos a partir de exemplos — mais conhecidos como «argumentos indutivos» ou «generalizações». Contudo, são os argumentos mais utilizados fora da filosofia. Grande parte das opiniões das pessoas resulta de processos indutivos de raciocínio. É o que se verifica em afirmações comuns como «os alentejanos são preguiçosos», «os alemães são racistas», «todos os seres humanos morrem», «o Sol vai nascer amanhã», «as mulheres são mais sensíveis do que os homens», etc. A forma dos argumentos indutivos é a seguinte:
Alguns A são B.
Logo, todos os A são B.
Neste caso a premissa é apenas o resumo de um conjunto mais ou menos extenso de casos particulares. Mas por muito extenso que seja o número de exemplos de que se parte num argumento indutivo, nunca temos a garantia lógica de que a conclusão seja verdadeira. Também aqui corremos o risco de encontrar premissas verdadeiras e conclusão falsa. Portanto, os argumentos indutivos, como já acontecia com os analógicos, não são válidos ou inválidos. Veja-se o seguinte exemplo:
Os cisnes observados até agora são brancos.
Logo, todos os cisnes são brancos.
Note-se que a premissa, ao referir todos «os cisnes observados até agora», está a referir apenas alguns cisnes e não todos os que existem. Apesar disso, dificilmente diremos que não constitui uma boa razão para concluir que todos os cisnes são brancos. De facto, durante muito tempo se pensou que todos os cisnes eram brancos até ao dia em que se descobriu um lugar até então desconhecido (a Austrália) em que os cisnes são pretos. Bastava, aliás, que um só cisne fosse de outra cor para tornar falsa a conclusão anterior. Mas será que alguém considera fraco o argumento seguinte?
Até agora todas as esmeraldas encontradas são verdes.
Logo, todas as esmeraldas são verdes.
É claro que este é um bom argumento. Não é logicamente impossível que a conclusão seja falsa. Mas é improvável. Assim, uma indução é forte se, e só se, for improvável, mas não logicamente impossível, que a sua conclusão seja falsa. Caso contrário a indução é fraca. Tudo depende, como é óbvio, da força com que as premissas apoiam a conclusão. Os argumentos indutivos não são, de resto, invulgares nas ciências empíricas. Algumas das descobertas científicas são o resultado de generalizações fortemente apoiadas em observações e experiências realizadas. O que não significa que essas generalizações não tenham de ser constantemente testadas pelos próprios cientistas. Uma vez que sabem que não é logicamente impossível que as suas conclusões sejam falsas, ainda que apoiadas em numerosas observações, os cientistas procuram testá-las procurando os contra-exemplos que as podem tornar falsas. No caso dos cisnes o contra-exemplo acabou por aparecer, mas isso não significa que todos os argumentos indutivos sejam maus. Tudo o que devemos evitar é fazer generalizações apressadas sem procurar avaliar se as premissas que sustentam as nossas conclusões são suficientemente fortes para isso.
Também frequentes nas ciências empíricas são os argumentos sobre causas. Neste tipo de argumentos o que se faz é procurar conexões entre fenómenos de modo a estabelecer uma relação causal entre eles. A célebre experiência do cão de Pavlov, a qual levou à descoberta do reflexo condicionado, é um exemplo deste tipo de argumento. Pavlov submeteu o cão a determinados estímulos, estudando as suas reacções. Dessa forma Pavlov conseguiu explicar a relação que existia entre o estímulo produzido e o salivar do cão. Apesar de este tipo de argumento não ser habitual em filosofia, há, ainda assim, um cuidado a ter: não concluir que um fenómeno é causado por outro porque a este se segue sempre aquele. Este é um raciocínio muito frequente mas incorrecto. Trata-se, pois, de uma falácia. Essa falácia é conhecida como post hoc. Um exemplo disso é:
O trovão vem sempre depois do relâmpago.
Logo, o relâmpago é a causa do trovão.
Mesmo sendo verdade que o relâmpago antecede o trovão, é falso que este seja causado por aquele. De facto, tanto o relâmpago como o trovão são causados pelo mesmo fenómeno: uma descarga eléctrica.
Resta-me falar dos argumentos de autoridade. Este tipo de argumento é principalmente utilizado quando queremos apresentar resultados que não são do domínio geral e que dependem de alguma forma de competência técnica ou de conhecimento especial. Nesses casos, nada melhor do que invocar o que os especialistas na matéria em causa afirmam. A sua forma costuma ser:
X afirma que P.
Logo, P.
Estes argumentos nem sempre são maus. Mas são frequentemente utilizados de forma abusiva. Eis um exemplo de um bom argumento de autoridade:
Carl Sagan diz que há mais estrelas do que grãos de areia em todas as praias da Terra. Logo, há mais estrelas do que grãos de areia em todas as praias da Terra.
Por que razão é este um bom argumento de autoridade? Porque obedece aos dois critérios seguintes:
A autoridade invocada é reconhecida como tal pelos seus pares; os especialistas não divergem entre si.
São estes mesmos critérios que tornam falaciosos os argumentos de autoridade em filosofia. Como se sabe, seja qual for o assunto, os filósofos discordam entre si. Por isso, ainda que o critério 1 fosse satisfeito, o critério 2 nunca o seria. Utilizar argumentos de autoridade em filosofia é incorrer numa falácia: a falácia do apelo à autoridade. Contudo, quando, por exemplo, os filósofos enfrentam determinados problemas cuja discussão depende de informação científica disponível, não só podem mas devem apoiar-se naquilo que os especialistas nessa matéria dizem. Mas sempre com o cuidado de referir claramente quando e onde é que o especialista afirmou tal coisa.
Gostaria ainda de referir uma outra falácia que de alguma forma está relacionada com a autoridade de quem argumenta. Só que, neste caso, para a desvalorizar. Essa falácia é conhecida como ad hominem. Em vez de se discutir o argumento, critica-se a pessoa que o produz. Assim se procura combater as ideias atingindo as pessoas que as defendem. Atacar as pessoas em vez das suas ideias é uma falácia, infelizmente muito frequente. Na verdade, mesmo as piores pessoas do mundo podem utilizar bons argumentos. E os argumentos não são bons ou maus consoante as pessoas que os produzem.

Aires Almeida
Retirado de http://www.criticanarede.com/

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Lógica informal

Parte I
Os filósofos procuram resolver problemas. É por isso que apresentam teorias, ideias ou teses. Estas três coisas não são exactamente o mesmo, mas para simplificar iremos falar apenas de teorias. A diferença é a seguinte: ao passo que uma teoria é uma forma completamente articulada de resolver um problema, uma ideia ou uma tese é algo mais vago. Mas o que há de comum entre as ideias, as teorias e as teses é que todas elas procuram resolver problemas.
Ora, sempre houve boas e más teorias, seja qual for o problema que procuram resolver. As teorias dos filósofos não podem constituir excepção. Assim, também há boas e más teorias filosóficas. Mas, como é óbvio, apenas estamos interessados nas boas teorias filosóficas. Por isso se torna crucial saber distinguir as boas das más teorias. Há duas maneiras de avaliarmos teorias, para procurarmos saber se são boas ou más: 1) podemos procurar saber se a teoria resolve o problema que pretendia resolver, e se essa solução é aceitável; 2) podemos procurar saber quais são os argumentos em que essas teorias se apoiam e verificar se tais argumentos constituem boas razões a favor daquilo que nelas se defende. Assim, 2 obriga-nos a pensar deste modo: «Que razões me dá o autor para aceitar a teoria dele?». E 1 obriga-nos a pensar assim: «Se eu aceitar a teoria dele, consigo explicar melhor o que a teoria procurava explicar, ou consigo resolver o problema que a teoria queria resolver? Será que há alternativas melhores a esta teoria?». Ora, tanto no primeiro como no segundo caso, temos de saber avaliar argumentos. Temos de saber se os argumentos que apoiam a teoria são bons ou não, e temos de saber se são bons ou não os argumentos que mostram que a teoria explica o que queria explicar e resolve o problema que queria resolver.
No caso dos filósofos, conhecer os argumentos que sustentam as suas teorias é ainda mais importante do que noutros casos. Isso é assim porque os problemas da filosofia são problemas de carácter conceptual e não empírico. Dificilmente acontece, com base em factos empíricos, mostrar que uma teoria filosófica é verdadeira ou falsa, ao contrário do que se verifica com muitas teorias científicas. Não há factos empíricos que mostrem que Deus existe ou não existe; mas a teoria segundo a qual existe vida em Marte pode ser refutada ou confirmada pelos factos. Daí que o valor de uma teoria filosófica, mais do que qualquer outro tipo de teoria, dependa essencialmente dos argumentos que a sustentam.
Não podemos, pois, saber se uma teoria é boa se não soubermos avaliar a qualidade dos seus argumentos. Esse é, precisamente, o nosso objectivo ao estudar lógica. Eis, então, a nossa primeira pergunta:
O que é um argumento?
Podemos começar por dizer que um argumento é um conjunto de frases. Só que não se trata de um qualquer conjunto de frases. O seguinte conjunto de frases, por exemplo, não é um argumento:
Gosto do Algarve por causa do clima, do Alentejo por causa do silêncio e do Alto Douro por causa da paisagem. E se nas próximas férias desse uma volta pelo país?
Para que um conjunto de frases constitua um argumento tem de haver entre elas uma certa relação, de tal modo que uma, e só uma, se apresente como conclusão e que todas as outras sirvam como razões para obter essa conclusão. Às frases, ou afirmações, que oferecemos como razões chamamos «premissas», podendo haver uma ou mais premissas num argumento; à afirmação que daí obtemos, fazendo apelo às premissas, chamamos, como se viu, «conclusão». Eis um exemplo de um conjunto de frases que é um argumento:
Se os filósofos têm sempre razão, então não vale a pena discutir o que dizem, porque se têm sempre razão não temos nada para criticar e se não temos nada para criticar não vale a pena discutir o que dizem.
Neste conjunto de frases há uma delas que é a conclusão e duas outras que são premissas. Perante um argumento, a primeira coisa a fazer é um trabalho de interpretação, identificando a conclusão e as premissas (ou premissa, caso haja apenas uma).
O que quero defender com o argumento anterior? É claro que estou a defender que «se os filósofos têm sempre razão, então não vale a pena discutir o que dizem». Esta frase, por sinal a primeira, é a conclusão. E que razões adianto para isso? Duas: «se têm sempre razão não temos nada para criticar» e «se não temos nada para criticar não vale a pena discutir o que dizem». Se quisermos, podemos reformular o argumento de modo a tornar as suas premissas e conclusão ainda mais claras. Podemos, por exemplo, destacar em primeiro lugar as suas premissas e depois a conclusão, de modo a exibir claramente cada uma delas:
Se os filósofos têm sempre razão, não temos nada para criticar. Se não temos nada para criticar, não vale a pena discutir o que dizem. Logo, se têm sempre razão, não vale a pena discutir o que dizem.
Torna-se, deste modo, mais fácil não apenas identificar premissas e conclusão como também verificar se a conclusão se segue das premissas, isto é, se as premissas apoiam a conclusão. Não podemos, contudo, esperar que os argumentos sejam apresentados sempre de modo a tornar completamente claras as suas premissas e conclusões. Na linguagem comum, e nos textos filosóficos, as premissas e conclusões dos argumentos são frequentemente difíceis de detectar, pois nem sempre se dispõem segundo uma ordem fixa. Por vezes surgem até intercaladas com outras frases que nem sequer fazem parte do argumento. Veja-se o seguinte exemplo:
Para quê discutir o que os filósofos dizem? Não vale a pena discutir o que dizem se não temos nada para criticar e não temos nada para criticar se têm sempre razão. Não me interessa perder tempo assim! Não vale a pena discutir o que dizem se têm sempre razão.
Como se vê, este é ainda o mesmo argumento, só que apresentado de maneira menos acessível. Convém, neste momento, dizer que há, mesmo assim, palavras ou expressões que costumam acompanhar quer as premissas, quer a conclusão e que facilitam a sua identificação. Trata-se de termos e de expressões que muitas vezes anunciam ou introduzem as premissas e a conclusão de um argumento. Termos e expressões como «logo», «daí que», «assim», «portanto» e «por isso» costumam servir para anunciar a conclusão inferida; termos e expressões como «porque», «pois», «uma vez que», «posto que», «tendo em conta que», «em virtude de», «devido a» e «dado que» indicam que se irão oferecer razões (premissas) para concluir algo. Frequentemente as premissas aparecem ligadas entre si por termos como «e», «ora» e «mas», ou por uma vírgula (uma pausa breve, no discurso oral) e também por um ponto final (uma pausa mais longa, no discurso oral). Com esta informação, torna-se relativamente fácil identificar as premissas e conclusão do seguinte argumento:
Tenho estudado lógica, uma vez que se não tivesse estudado lógica não seria bem sucedido em filosofia. Mas eu tenho sido bem sucedido em filosofia.
As premissas são (i) «se não tivesse estudado lógica não seria bem sucedido em filosofia» e (ii) «eu tenho sido bem sucedido em filosofia». A conclusão aparece logo no início e é «tenho estudado lógica». Qualquer pessoa, ainda que não tenha estudado lógica, consegue ver que se trata de um argumento válido, na medida em que intuitivamente se dá conta que aquelas premissas conduzem àquela conclusão. Mas repare-se agora no seguinte argumento:
O Luís Figo já comeu bacalhau porque todos os portugueses já comeram bacalhau.
Temos apenas uma premissa, que é «todos os portugueses já comeram bacalhau», sendo a conclusão «o Luís Figo já comeu bacalhau». Mas será que esta conclusão se segue daquela premissa? Muitos serão os que imediatamente respondem que sim. Outros dirão que não; que aquela premissa, por si só, não constitui uma boa razão para concluir que o Luís Figo já comeu bacalhau. Perguntariam estes: e se o Luís Figo for brasileiro? É preciso que se diga que o Luís Figo é português para, então sim, se poder concluir que ele já comeu bacalhau. Se não acrescentarmos a premissa «o Luís Figo é português», também não poderemos inferir que o Luís Figo já comeu bacalhau. Ao que possivelmente responderiam os primeiros: nem sequer é preciso dizê-lo, todos sabemos que o Luís Figo é português. A verdade é que, sem essa segunda premissa, o argumento não é válido. Assim, a única maneira de reparar o argumento, de forma a torná-lo válido, é introduzir tal premissa. O único cuidado que devemos ter é o de verificar que a premissa não está lá apenas porque quem apresentou o argumento achou desnecessário referir aquilo que lhe parecia ser óbvio para toda a gente. A uma premissa destas chama-se «premissa suprimida» e a um argumento que tem premissas suprimidas chama-se «entimema». Saber isto é importante porque muitas vezes nos deparamos com argumentos com premissas suprimidas e nem todos eles são casos fáceis de identificar. Disso pode depender a nossa decisão de aceitar um argumento como válido ou de o rejeitar como inválido.
Voltando ao início, afirmei que um argumento é um conjunto de frases; mas procurei também mostrar que nem todo o conjunto de frases é um argumento. Devo agora acrescentar que um argumento não é constituído por qualquer tipo de frases. Só as frases que exprimem proposições podem fazem parte dos argumentos.
O que é uma proposição?
Acabei de dizer que só um certo tipo de frases exprime proposições. Embora talvez todas as proposições se possam exprimir por meio de frases, há frases que não exprimem proposições. As frases seguintes não exprimem proposições:
Que horas são?
Tira os pés da mesa!
Ser sempre corajoso.
Quem me dera saber lógica.
Prometo que amanhã vou à praia contigo.
Estas frases não exprimem proposições porque não são frases declarativas. Ou seja, não afirmam nada; exprimem apenas promessas, desejos, ordens e perguntas. Por isso não estamos em condições de dizer se são verdadeiras ou falsas. Diz-se que não têm condições de verdade. Assim, as frases declarativas são todas as frases, e só essas, que têm condições de verdade. Donde se excluem todas as frases que, como acontece nos exemplos anteriores, exprimem promessas, desejos, ordens e perguntas. As seguintes frases podem ser verdadeiras ou falsas, e portanto têm condições de verdade:
São seis horas da tarde.
Alguém disse ao Paulo para tirar os pés da mesa.
Nós somos sempre corajosos.
Gosto de aprender lógica.
Prometi à Carla que amanhã vou à praia com ela.
Saber se uma frase é declarativa ou não torna-se fácil, embora haja frases muito semelhantes em que uma é declarativa e outra não. Eis um exemplo, em que a primeira é uma frase declarativa e a segunda não é:
Rui está na sala.
O Rui está na sala?
É claro que podemos ter dúvidas ou nem sequer saber se algumas daquelas frases são verdadeiras ou falsas. Mas, apesar das nossas dúvidas, e quer saibamos ou não, elas hão-de ser verdadeiras ou falsas. Quer dizer, elas têm um valor de verdade. A frase «são seis horas da tarde» proferida às nove da manhã é falsa e proferida às seis da tarde é verdadeira. Não deixa, contudo, de ter um valor de verdade. Assim como a frase «gosto de aprender lógica», proferida por umas pessoas pode ser verdadeira e por outras falsa. Mas tem de ser verdadeira ou falsa. Eis alguns exemplos de frases declarativas claramente verdadeiras:
A Lua não é feita de queijo.
Três vezes nove é igual a vinte e sete.
Portugal é um país europeu.
Nenhuma galinha fala português.
Eis agora algumas frases declarativas claramente falsas:
As bananas têm caroço.
Faro não fica no Algarve.
Portugal é o país mais poderoso da Europa.
Nenhum italiano fala português.
Sabemos agora o que é uma frase declarativa e que só as frases declarativas são proposições. Mas, ainda assim, há diferenças entre frases declarativas e proposições. Tanto que o número de frases declarativas é superior ao número de proposições. O que acontece porque há diferentes frases declarativas que, apesar disso, exprimem a mesma proposição. As frases são entidades linguísticas e as proposições são aquilo que tais frases exprimem, isto é, o seu conteúdo. As seguintes frases declarativas exprimem todas a mesma proposição:
A Lua inspira os poetas.
Os poetas são inspirados pelo satélite natural da Terra.
Os poetas deixam-se inspirar pela Lua.
Poets are inspired by the moon.
La luna inspira los poetas.
Mas por que precisamos nós de saber o que são proposições? Porque, recordando o que disse acima, as frases que constituem os argumentos têm de exprimir proposições. Assim, todas as premissas e conclusões de todos os argumentos exprimem proposições, por isso têm de ter um valor de verdade. Só que, ao contrário das frases de um argumento, os próprios argumentos nunca são verdadeiros ou falsos. Verdade e falsidade são propriedades das proposições e não dos argumentos. Dos argumentos diz-se que são válidos ou inválidos.
O que é a validade?
Dizemos frequentemente que uma ideia, uma pessoa ou uma iniciativa são válidas. Com isso queremos dizer que tal pessoa, tal ideia ou tal iniciativa são boas ou úteis, ou que têm um certo valor. Isso é o que acontece na linguagem comum. Em lógica e filosofia, porém, o termo «validade» tem um significado diferente e muito preciso, que já veremos qual é. Antes disso, há uma ideia que tem de ficar bem clara. Essa ideia é a da distinção entre verdade e validade; distinção fundamental em lógica e filosofia.
De uma proposição dizemos que é verdadeira ou falsa. Mas de um argumento, que é formado por várias proposições, já não podemos dizer que é verdadeiro ou falso. Isso seria um erro enorme. Algumas pessoas pensam que se um argumento é um conjunto de proposições e como as proposições são verdadeiras ou falsas, assim também os argumentos podem ser verdadeiros ou falsos. Isso seria o mesmo que dizer que um conjunto de pessoas é alto porque é formado por pessoas altas. As pessoas podem ser altas ou baixas, mas os conjuntos (sejam eles de pessoas ou de outra coisa qualquer) não são altos nem baixos. Se, como se verá, o mesmo argumento pode conter proposições verdadeiras e falsas, por que razão afirmaríamos que esse argumento é verdadeiro em vez de falso, ou vice-versa? Aquilo que, primeiramente, nos interessa num argumento é saber se a conclusão se segue das premissas. No caso de isso acontecer estamos perante um argumento válido. Caso contrário, estamos perante um argumento inválido. O seguinte argumento é claramente válido:
Todos os espanhóis são toureiros.
Bill Clinton é espanhol.
Logo, Bill Clinton é toureiro.
Ao analisar este argumento, a diferença entre verdade e validade torna-se clara. É fácil verificar que tanto as premissas como a conclusão são falsas. Contudo, a conclusão segue-se das premissas. Por isso o argumento é válido. Falamos de verdade e falsidade quando referimos as premissas e a conclusão e falamos de validade ou invalidade quando referimos o próprio argumento. Veja-se agora o seguinte argumento claramente inválido:
Todos os portugueses são europeus.
Luís Figo é europeu.
Logo, Luís Figo é português.
É muito fácil verificar que se trata de um argumento inválido, bastando substituir o nome de Luís Figo por outro nome como, digamos, Tony Blair, mas mantendo tudo o resto. E, apesar de ser um argumento inválido, todas as proposições que o constituem são verdadeiras. Só que a conclusão não é sustentada pelas premissas.
Mais uma vez se diz que um argumento é válido ou inválido consoante a sua conclusão se segue ou não das premissas, sejam elas verdadeiras ou falsas. Mas esta é ainda uma forma imprecisa de dizer o que é a validade. Existe, contudo, uma definição explícita de «argumento válido». Assim, diz-se que «um argumento é válido se, e só se, é logicamente impossível ter premissas verdadeiras e conclusão falsa». Sabemos agora exactamente o que procurar num argumento para saber se é válido ou não. Tudo pode acontecer com um argumento válido, menos uma coisa: ter premissas verdadeiras e conclusão falsa. Mas isto não significa que o argumento é válido desde que não tenha premissas verdadeiras e conclusão falsa. Não basta que não tenha as premissas verdadeiras e a conclusão falsa; é necessário que isso seja impossível de acontecer. Repare-se no meu último exemplo: não acontece ele ter as premissas verdadeiras e a conclusão falsa, até porque premissas e conclusão são todas verdadeiras. Mas se no mesmo argumento substituirmos, como atrás sugeri, o nome de Luís Figo pelo de Tony Blair, o que acontece? Acontece que as premissas continuam verdadeiras mas a conclusão é falsa. E essa é a única coisa que não pode acontecer num argumento válido. Portanto, é inválido.
Para tornar mais clara a noção de validade, podemos mesmo prescindir de qualquer nome, seja ele Luís Figo ou Tony Blair, e construir um argumento com a seguinte forma:
Todo o A é B.
C é A.
Logo, C é B.
Seja o que for que A, B e c signifiquem, este argumento é claramente válido. Admitindo que as premissas são verdadeiras, a sua conclusão não pode ser falsa. Mas como sabemos que este argumento é válido se não sabemos ainda o que significam A, B e c? Sabemos isso porque a validade de um argumento não depende daquilo que nele se afirma, isto é, do seu conteúdo, mas da sua forma lógica. Para sabermos se um argumento é válido nada mais temos de fazer senão atender à forma como está estruturado. É por isso que um argumento pode ser válido mesmo que nele se afirmem as coisas mais inverosímeis do mundo. Um bom exemplo disso é o seguinte:
Se as bananas têm asas, o ouro é um fruto seco.
Acontece que as bananas têm asas.
Logo, o ouro é um fruto seco.
Também aqui a conclusão terá de ser verdadeira, caso as premissas o sejam. Contudo, dificilmente alguém estaria disposto a aceitar um argumento destes. O que acontece é que não é suficiente um argumento ser válido para termos de o aceitar, mostrando assim que nem todos os argumentos válidos são bons. Não estamos interessados em aceitar a conclusão de um argumento válido quando essa conclusão é inferida de falsidades. Queremos também que um argumento seja sólido. Ou seja, que, além de ser válido, tenha premissas verdadeiras. Assim, se um argumento for válido e tiver premissas verdadeiras, somos, racionalmente, obrigados a aceitar a sua conclusão. Se não quisermos aceitar a conclusão de um argumento válido, só nos resta, então, mostrar que alguma das premissas é falsa.
Pelo que disse até aqui, dir-se-ia que apenas existem argumentos válidos e inválidos. E que os inválidos, ao contrário dos válidos, apresentam uma forma que não permite preservar sempre na conclusão a verdade das premissas. Assim, a lógica seria apenas o estudo da forma dos argumentos, ocupando-se exclusivamente dos argumentos válidos. Só que isso não corresponde à verdade. Há outros tipos de argumentos cuja aceitabilidade não depende da forma que apresentam. Tais argumentos fazem, por isso, parte da chamada «lógica informal».
Aires Almeida
Retirado de http://www.criticanarede.com/

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

PORQUÊ ARGUMENTAR?

Algumas pessoas pensam que argumentar é apenas expor os seus preconceitos de uma forma nova. É por isso que muita gente considera que argumentar é desagradável e inútil confundindo argumentar com discutir. Dizemos, por vezes, que discutir é uma espécie de luta verbal. Contudo, argumentar não é nada disso.
“Argumentar” quer dizer oferecer um conjunto de razões a favor de uma conclusão ou oferecer dados favoráveis a uma conclusão. Argumentar não é apenas a afirmação de um determinado ponto de vista nem uma discussão. Os argumentos são tentativas de sustentar certos pontos de vista com razões. Neste sentido, os argumentos não são inúteis; na verdade, são essenciais.
Os argumentos são essenciais, em primeiro lugar, porque constituem uma forma de tentarmos descobrir quais os melhores pontos de vista. Nem todos os pontos de vista dão iguais. Algumas conclusões podem ser defendidas com boas razões e outras com razões menos boas. No entanto, na maioria das vezes não sabemos quais são as melhores conclusões. Precisamos, por isso, de apresentar argumentos para sustentar diferentes conclusões e depois avaliar tais argumentos para ver se são realmente bons.
Neste sentido, um argumento é uma forma de investigação.
Os argumentos também são essenciais por outra razão. Uma vez chegados a uma conclusão baseada em boas razões, os argumentos são a forma pela qual a explicamos e defendemos. Um bom argumento não se limita a repetir as conclusões. Em vez disso, oferece razões e dados suficientes para que as outras pessoas possam formar a sua própria opinião. Se o leitor ficar convencido de que devemos mudar a forma como criamos e usamos os animais, por exemplo, terá de usar argumentos para explicar como chegou a essa conclusão: é assim que convencerá as outras pessoas. Ofereça as razões e os dados que o convenceram a si. Ter razões fortes não é um erro. O erro é não ter mais nada.
WESTON, Anthony, A Arte de Argumentar, 2ª edição, 2005. Lisboa: Gradiva, pp. 13-15

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

COMO ESCREVER UM ENSAIO FILOSÓFICO

Um ensaio filosófico é um texto argumentativo em que se defende uma posição sobre um determinado problema filosófico. Uma vez que a melhor maneira de formular um problema é fazer uma pergunta, o objectivo de um ensaio filosófico é responder a uma pergunta e defender essa resposta, oferecendo argumentos e refutando as objecções.
Artur Polónio
Para ver o resto do documento clique AQUI.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

VER PARA LÁ DOS NOSSOS PONTOS DE VISTA

Quando éramos crianças fazíamos perguntas como as crianças as fazem, com total abertura. De onde viemos? Qual o objectivo da nossa vida? Qual a natureza do Universo em que vivemos? O que nos acontece quando morremos?
Sabíamos que não sabíamos as respostas, e queríamos sabê-las. Não pressupúnhamos que as perguntas fossem irrespondíveis ou que estivessem para lá da nossa compreensão.
Enquanto crianças, estávamos cheios de espanto. O mundo espantava-nos. Como adultos pusemos de lado a nossa curiosidade infantil e vivemos numa estrutura de respostas que silencia as questões fundamentais que agora perderam o poder de nos agitar. Achámos as respostas, mas perdemos o mistério. Como é que isto aconteceu?
O problema não reside nas respostas práticas. Precisamos delas para viver bem. Muitas vezes, essas respostas são pressupostos profundamente escondidos que são tão basilares para as convicções que temos de nós próprios e do mundo que se torna até difícil de perceber que estamos a tomar algo como garantido. Muitas vezes esses pressupostos são respostas a perguntas que nem sequer chegámos a perguntar. No entanto, tais respostas metafísicas, imobilizadas pelo nosso anseio de segurança, acabam por nos imobilizar a nós.
O principal obstáculo do estudo da filosofia não é ainda não sabermos o suficiente; longe disso. O principal obstáculo é já sabermos de mais. Este livro tem por objectivo ultrapassar tal obstáculo trazendo o leitor para o domínio da filosofia como o faria Sócrates se ainda estivesse entre nós: afastando-o das respostas durante o tempo suficiente, para que possa ter a experiência da sabedoria do desconhecedor.
A filosofia é uma actividade e não um corpo de conhecimentos. Como todas as actividades requer perícia. Que tipo de perícia? Em poucas palavras: a habilidade para nos vermos a nós próprios e ao mundo de muitas perspectivas diferentes.
O que é uma “perspectiva”? Uma perspectiva é, em termos aproximados, uma interpretação que vai para lá dos factos e que se apoia nos pressupostos, convicções ou valores da pessoa que faz a interpretação.
No nosso dia-a-dia, desenvencilhamo-nos perfeitamente bem ao apoiarmo-nos apenas nas nossas perspectivas. Mas mesmo no dia-a-dia, especialmente em alturas de conflito, a capacidade de abandonar as nossas perspectivas em prol de outras pode ser extremamente útil. Em filosofia, esta habilidade não é apenas útil, é essencial. Sem ela não podemos resolver problemas que são insolúveis no interior das nossas perspectivas habituais.
No fundo, sabemos que as nossas perspectivas não são as únicas válidas. Mas tendemos a expulsar esse acontecimento para a periferia da nossa consciência. Isto deixa-nos com um sentimento ameaçador e inconfortável, quando somos confrontados com pontos de vista contrários aos nossos. Quando admitimos que os nossos pontos de vista assentam, em última análise, em pressupostos questionáveis e baixamos os nossos escudos contra pontos de vista alheios, sentimo-nos inseguros. E assim deixamo-nos convencer a nós próprios de que os nossos pontos de vista são a única janela válida para a verdadeira realidade. E depois, quando precisamos de ver para lá das limitações dos nossos pontos de vista, ficamos confusos.
Obviamente, a solução é dissolver a cola que nos prende aos nossos pontos de vista familiares. Essa cola é a ligação emocional.
Kolak, Daniel e MARTIN, Raymond, Sabedoria sem Respostas – uma breve introdução à filosofia, 1ª edição, 2004. Lisboa: Temas e Debates Lda.,pp. 13-15

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

ALGUMAS NOÇÕES DE LÓGICA ii

Parte II
Validade e verdade
A verdade é uma propriedade das proposições. A validade é uma propriedade dos argumentos. É incorrecto falar em proposições válidas. As proposições não são válidas nem inválidas. As proposições só podem ser verdadeiras ou falsas. Também é incorrecto dizer que os argumentos são verdadeiros ou que são falsos. Os argumentos não são verdadeiros nem falsos. Os argumentos dizem-se válidos ou inválidos.
Quando é que um argumento é válido? Por agora, referirei apenas a validade dedutiva. Diz-se que um argumento dedutivo é válido quando é impossível que as suas premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Repara que, para um argumento ser válido, não basta que as premissas e a conclusão sejam verdadeiras. É preciso que seja impossível que sendo as premissas verdadeiras, a conclusão seja falsa.
Considera o seguinte argumento:
Premissa 1: Alguns treinadores de futebol ganham mais de 100000 euros por mês.
Premissa 2: O Mourinho é um treinador de futebol.
Conclusão: Logo, o Mourinho ganha mais de 100000 euros por mês.
Neste momento (Julho de 2004), em que o Mourinho é treinador do Chelsea e os jornais nos informam que ganha muito acima de 100000 euros por mês, este argumento tem premissas verdadeiras e conclusão verdadeira e, contudo, não é válido. Não é válido, porque não é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Podemos perfeitamente imaginar uma circunstância em que o Mourinho ganhasse menos de 100000 euros por mês (por exemplo, o Mourinho como treinador de um clube do campeonato regional de futebol, a ganhar 1000 euros por mês), e, neste caso, a conclusão já seria falsa, apesar de as premissas serem verdadeiras. Portanto, o argumento é inválido.
Considera, agora, o seguinte argumento, anteriormente apresentado:
Premissa: O João e o José são alunos do 11.º ano.
Conclusão: Logo, o João é aluno do 11.º ano.
Este argumento é válido, pois é impossível que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa. Ao contrário do argumento que envolve o Mourinho, neste não podemos imaginar nenhuma circunstância em que a premissa seja verdadeira e a conclusão falsa. Podes imaginar o caso em que o João não é aluno do 11.º ano. Bem, isto significa que a conclusão é falsa, mas a premissa também é falsa.
Repara, agora, no seguinte argumento:
Premissa 1: Todos os números primos são pares.
Premissa 2: Nove é um número primo.
Conclusão: Logo, nove é um número par.
Este argumento é válido, apesar de quer as premissas quer a conclusão serem falsas. Continua a aplicar-se a noção de validade dedutiva anteriormente apresentada: é impossível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. A validade de um argumento dedutivo depende da conexão lógica entre as premissas e a conclusão do argumento e não do valor de verdade das proposições que constituem o argumento. Como vês, a validade é uma propriedade diferente da verdade. A verdade é uma propriedade das proposições que constituem os argumentos (mas não dos argumentos) e a validade é uma propriedade dos argumentos (mas não das proposições).
Então, repara que podemos ter:
· Argumentos válidos, com premissas verdadeiras e conclusão verdadeira;
· Argumentos válidos, com premissas falsas e conclusão falsa;
· Argumentos válidos, com premissas falsas e conclusão verdadeira;
· Argumentos inválidos, com premissas verdadeiras e conclusão verdadeira;
· Argumentos inválidos, com premissas verdadeiras e conclusão falsa;
· Argumentos inválidos, com premissas falsas e conclusão falsa; e
· Argumentos inválidos, com premissas falsas e conclusão verdadeira.
Mas não podemos ter:
· Argumentos válidos, com premissas verdadeiras e conclusão falsa.
Como podes determinar se um argumento dedutivo é válido? Podes seguir esta regra:
Mesmo que as premissas do argumento não sejam verdadeiras, imagina que são verdadeiras. Consegues imaginar alguma circunstância em que, considerando as premissas verdadeiras, a conclusão é falsa? Se sim, então o argumento não é válido. Se não, então o argumento é válido.
Lembra-te: num argumento válido, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão não pode ser falsa.
Argumentos sólidos e argumentos bons
Em filosofia não é suficiente termos argumentos válidos, pois, como viste, podemos ter argumentos válidos com conclusão falsa (se pelo menos uma das premissas for falsa). Em filosofia pretendemos chegar a conclusões verdadeiras. Por isso, precisamos de argumentos sólidos.
· Um argumento sólido é um argumento válido com premissas verdadeiras.
Um argumento sólido não pode ter conclusão falsa, pois, por definição, é válido e tem premissas verdadeiras; ora, a validade exclui a possibilidade de se ter premissas verdadeiras e conclusão falsa.
O seguinte argumento é válido, mas não é sólido:
Todos os minhotos são alentejanos.
Todos os bracarenses são minhotos.
Logo, todos os bracarenses são alentejanos.
Este argumento não é sólido, porque a primeira premissa é falsa (os minhotos não são alentejanos). E é porque tem uma premissa falsa que a conclusão é falsa, apesar de o argumento ser válido.
O seguinte argumento é sólido (é válido e tem premissas verdadeiras):
Todos os minhotos são portugueses.
Todos os bracarenses são minhotos.
Logo, todos os bracarenses são portugueses.
Também podemos ter argumentos sólidos deste tipo:
Sócrates era grego.
Logo, Sócrates era grego.
(É claro que me estou a referir ao Sócrates, filósofo grego e mestre de Platão, e não ao Sócrates, candidato a secretário geral do Partido Socialista. Por isso, a premissa e a conclusão são verdadeiras.)
Este argumento é sólido, porque tem premissa verdadeira e é impossível que, sendo a premissa verdadeira, a conclusão seja falsa. É sólido, mas não é um bom argumento, porque a conclusão se limita a repetir a premissa.
· Um argumento bom (ou forte) é um argumento válido persuasivo (persuasivo, do ponto de vista racional).
Fica agora claro por que é que o argumento "Sócrates era grego; logo, Sócrates era grego", apesar de sólido, não é um bom argumento: a razão que apresentamos a favor da conclusão não é mais plausível do que a conclusão e, por isso, o argumento não é persuasivo.
Talvez recorras a argumentos deste tipo, isto é, argumentos que não são bons (apesar de sólidos), mais vezes do que imaginas. Com certeza, já viveste situações semelhantes a esta:
— Pai, preciso de um aumento da "mesada".
— Porquê?
— Porque sim.
O que temos aqui? O seguinte argumento:
Preciso de um aumento da "mesada".
Logo, preciso de um aumento da "mesada".
Afinal, querias justificar o aumento da "mesada" (conclusão) e não conseguiste dar nenhuma razão plausível para esse aumento. Limitaste-te a dizer "Porque sim", ou seja, "Preciso de um aumento da 'mesada', porque preciso de um aumento da 'mesada'". Como vês, trata-se de um argumento muito mau, pois com um argumento deste tipo não consegues persuadir ninguém.
Mas não penses que só os argumentos em que a conclusão repete a premissa é que são maus. Um argumento é mau (ou fraco) se as premissas não forem mais plausíveis do que a conclusão. É o que acontece com o seguinte argumento:
Se a vida não faz sentido, então Deus não existe.
Mas Deus existe.
Logo, a vida faz sentido.
Este argumento é válido, mas não é um bom argumento, porque as premissas não são menos discutíveis do que a conclusão.
Para que um argumento seja bom (ou forte), as premissas têm de ser mais plausíveis do que a conclusão, como acontece no seguinte exemplo:
Se não se aumentarem os níveis de exigência de estudo e de trabalho dos alunos no ensino básico, então os alunos continuarão a enfrentar dificuldades quando chegarem ao ensino secundário.
Ora, não se aumentaram os níveis de exigência de estudo e de trabalho dos alunos no ensino básico.
Logo, os alunos continuarão a enfrentar dificuldades quando chegarem ao ensino secundário.
Este argumento pode ser considerado bom (ou forte), porque, além de ser válido, tem premissas menos discutíveis do que a conclusão.As noções de lógica que acabei de apresentar são elementares, é certo, mas, se as dominares, ajudar-te-ão a fazer um melhor trabalho na disciplina de Filosofia e, porventura, noutras.
António Padrão
Retirado de www.criticanarede.com