
WARBURTON, Nigel, O que é a Arte?, 1ª edição, 2007. Lisboa: Editorial Bizâncio, pp. 39-40

WARBURTON, Nigel, O que é a Arte?, 1ª edição, 2007. Lisboa: Editorial Bizâncio, pp. 39-40
Uma das objecções mais sérias feitas à teoria de Bell é a de que é viciosamente circular. A alegada circularidade ocorre na definição dos dois termos centrais: “forma significante” e “emoção estética”. Um é definido unicamente em função do outro. Não são introduzidos mais elementos no círculo, e assim temos uma teoria pouquíssimo informativa baseada em dois termos técnicos mutuamente definidos. Nada há de intrinsecamente errado com a circularidade dos argumentos e definições. Pensa-se num bom dicionário: qualquer palavra definida nesse dicionário está definida em função de palavras que também são definidas nesse dicionário e, por isso, a um certo nível todo o dicionário é circular. Este tipo de circularidade é perfeitamente aceitável. O que não é aceitável é o tipo de definição que define um termo unicamente em termos de outro e vice-versa. Assim, por exemplo, se procurarmos “sim” e a definição dada for “o contrário de não”; e depois formos ver “não” e a definição dada for “o contrário de sim”, teremos boas razões para nos sentirmos consternados. Aplicando isto à teoria de Bell, vemos que há uma explicação da forma significante: é um padrão de linhas, formas e cores. Contudo, uma vez que isto apenas serve para encontrar a forma e não a forma significante, não adianta muito na caracterização de uma teoria satisfatória da arte. A melhor maneira de definir a forma significante é aquilo que causa a emoção estética. Ora, esta é simplesmente a emoção sentida na presença da forma significante.
Há dois mil e quinhentos anos, no dealbar do pensamento filosófico ocidental, Sócrates tinha reputação de ser o homem mais sábio da Grécia. Um dia, Gláucon, um jovem ateniense abastado, desafiou-o a responder a uma questão sobre como havemos de viver. O desafio constitui um elemento-chave na República de Platão, uma das obras estruturantes da história da filosofia ocidental. É também uma formulação clássica de uma escolha última.
Ao contrário de outras espécies, que têm de se preocupar permanentemente com predadores à espreita e com a escassez de fontes de alimentos, os seres humanos trocam em larga medida essas preocupações por outras. O preço que a nossa espécie pagou pela segurança de viver em grandes grupos de comunicadores em interacção com diferentes projectos consiste em ter de monitorizar esses projectos complexos e relações instáveis. Em quem posso confiar? Quem confia em mim? Quem são os meus rivais e os meus amigos? A quem devo e que dívidas deveria eu perdoar ou cobrar? O mundo humano fervilha com essa informação estratégica, para usar o termo de Pascal Boyer. Será que ela sabe que eu sei que ela quer deixar o marido? Será que alguém sabe que eu roubei aquele porco? Todos os enredos de todas as grandes sagas, tragédias e romances, mas também de todas as séries de televisão e livros aos quadradinhos dependem das tensões e complexidades que surgem, devido ao facto de os agentes no mundo não partilharem todos a mesma informação estratégica.
Um sentido de “paradigma” é global, abarcando todos os empenhamentos partilhados por um grupo científico; o outro isola um género particularmente importante de empenhamento, e é assim um subconjunto do primeiro.
Até agora, restringi a minha atenção ao papel da medição na prática normal da ciência natural, o género de prática em que todos os cientistas estão principalmente empenhados e a maioria estão-no sempre. Mas a ciência natural também apresenta situações anormais – tempos em que os projectos de investigação se extraviam e em que nenhuma técnica habitual parece suficiente para os restaurar – e é através destas situações raras que a medição mostra os seus grandes pontos fortes. Em particular, é através de estados anormais de investigação científica que a medição acaba, ocasionalmente, por desempenhar um importante papel na descoberta e na confirmação.
O tipo de sentimento que, segundo alguns filósofos, só as obras de arte conseguem despertar em nós e que se distingue dos sentimentos provocados por quaisquer outros objectos. De acordo com esses filósofos, o que nos permite identificar uma verdadeira obra de arte é o facto de ela provocar em nós um tipo peculiar de emoção, a emoção estética. O filósofo e crítico de arte Clive Bell (1881-1964) considera que há nas obras de arte, e só nelas, uma certa propriedade que provoca em nós emoções estéticas. A essa propriedade dá o nome de forma significante. Nem todos os filósofos admitem a existência de emoções estéticas.
Argumento usado por Moore nos Principhia Ethica (1903) para mostrar que não podemos definir um termo valorativo de maneira que seja equivalente ao conjunto das características que usamos como critério para a sua aplicação. Suponhamos que uma pessoa valoriza todas as coisas que criam felicidade, e só essas coisas. Ainda assim, Moore procura mostrar que isso não é o que a palavra “bem” significa na boca dessa pessoa. O argumento diz-nos que, mesmo que esse seja o critério dessa pessoa, ela terá de reconhecer que faz sentido perguntar se todas as coisas que criam felicidade, e só elas, são boas. Esta é uma questão substancial ou “em aberto”, mas, segundo Moore, não o seria se os dois termos tivessem o mesmo significado.
Alegada falácia identificada por Moore nos Principhia Ethica (1903), que consiste em identificar um conceito ético com um conceito “natural”, ou com uma descrição das características das coisas que as tornam, hipoteticamente, boas ou más. Assim, se formos utilitaristas, dizer que uma acção é boa significa exactamente o mesmo que dizer que essa acção gera mais felicidade do que uma acção rival. É quase certo que esta identidade de significado é incorrecta, mas os estudos posteriores não confirmaram se os opositores de Moore, particularmente J. S. Mill, a estabeleceram realmente ou se cometeram qualquer erro de raciocínio baseado nela.
Se quisermos tratar a teoria de Bell como mais do que um mero manifesto e levar a sério as suas pretensões de responder à questão “o que é a arte?”, então teremos de enfrentar algumas objecções bastantes sérias. Algumas destas objecções surgem da sua tendência intuicionista. Apesar de não ser um filósofo profissional, Bell foi profundamente influenciado pelo filósofo G. E. Moore. No seu livro Principia Ethica (1903) Moore, defendeu que “bom”, quando usado num sentido moral, era indefinível. Não poderia ser dividido em partes constituintes mais pequenas. A forma como distinguimos boas das más acções ou de acções perversas é através da intuição. Qualquer teoria que tentasse explicar de uma forma geral o que tornava uma acção moralmente boa ou má era afastada por cometer a “falácia naturalista”: o alegado erro de tentar dividir juízos de valor unicamente a partir de factos. Se, por exemplo alguém declarasse que uma acção particular, como dar dinheiro a instituições de caridade, era moralmente boa porque maximizava a felicidade; Moore diria que isto era um non sequitur. Uma vez demonstrada que uma acção maximiza a felicidade, continuaria a ser uma questão em aberto saber se era ou não uma acção moralmente boa. Moore argumentou que não poderíamos deduzir conclusões valorativas de descrições factuais, mas que deveríamos simplesmente reconhecer a virtude moral de certos tipos de acções.
A teoria de Bell pode ser resumida na expressão “A arte é forma significante”. A teoria é essencialmente a seguinte: alguns objectos, criados por mãos humanas, foram, por algum motivo, dotados com o poder de produzir uma emoção estética nos espectadores sensíveis. Estes objectos estão por todo o lado; e quando estamos interessados neles enquanto obras de arte é irrelevante quando foram feitos, quem os fez ou porquê. O poder para produzir uma emoção estética é inerente à forma significante. A forma significante é uma combinação de linhas, formas e cores em certas relações. Nem toda a forma é significante; mas se um objecto tem uma forma significante, tem-na por causa das relações entre essas linhas, formas e cores. A forma significante, defendeu Bell, é “a única qualidade comum a todas as obras de arte visual”. A representação – o que uma pintura pinta – é irrelevante para a nossa apreciação das obras de arte como arte. Não se trata de Bell achar que existe algo de intrinsecamente errado com a representação; mas antes que o valor artístico da arte visual se encontra noutro lado.Talvez o leitor ou a leitora acreditem que a sua religião passou a existir, quando a verdade fundamental foi revelada por Deus a alguém, que em seguida a transmitiu a outras pessoas. Continua a prosperar actualmente, porque o leitor ou a leitora e as outras pessoas da sua fé sabem que é a verdade e que Deus vos abençoa e anima a manterem a vossa fé. É tão simples como isso para si. E por que é que todas as religiões existem? Se estas pessoas estão simplesmente erradas, por que será que as suas crenças não se desmoronam tão prontamente como as falsas ideias sobre métodos de cultivo ou as práticas de construção obsoletas? Desmoronar-se-ão a seu tempo, pensa talvez, e deixarão de pé somente a verdadeira religião, a sua religião. Indubitavelmente, tem alguma razão em pensar assim. A acrescentar às principais religiões do mundo actual – aqueles cujos fiéis atingem as centenas ou milhares de milhões – existem milhares de religiões reconhecidas com um número inferior de fiéis. Surge duas ou três religiões todos os dias e o seu prazo de duração é, tipicamente, de menos de uma década. Não existe qualquer forma de saber quantas religiões distintas se desenvolveram durante algum tempo, nos últimos dez ou quinze mil anos, e cujos vestígios se perderam para sempre, mas talvez o seu número ascenda aos milhões.
A história confirmada de algumas religiões remonta a vários milénios – mas somente se formos generosos na definição de fronteira. A Igreja Mórmon tem menos de duzentos anos, como o seu nome oficial nos recorda: Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. O Protestantismo tem menos de quinhentos anos, a religião islâmica menos de mil e quinhentos, o Cristianismo menos de dois mil. O Judaísmo nem chega a ter o dobro dessa idade e os Judaísmos dos nossos dias sofreram uma evolução significativa desde o Judaísmo mais antigo identificável, embora as suas variedades não sejam nada, quando comparadas com o crescimento disparado de variações originadas pelo Cristianismo, nos dois últimos milénios.
Biologicamente falando, estes períodos de tempo são curtos. Nem sequer são longos, quando comparados com a idade de outras características da cultura humana. A escrita tem mais de cinco mil anos, a agricultura mais de dez mil e a linguagem – quem sabe? – talvez tenha “somente” quarenta mil anos ou seja dez ou vinte vezes mais velha do que isso. Será a linguagem mais antiga que a religião? Independentemente da forma como datemos o seu início, a linguagem é muito, muito mais antiga do que qualquer religião existente ou até mesmo do que qualquer religião da qual tenhamos qualquer conhecimento histórico ou arqueológico. Os indícios arqueológicos de religião mais antigos são os cemitérios Cro-Magnon na República Checa, altamente estruturados e com cerca de vinte e cinco mil anos.
DENNET, Daniel, Quebrar o Feitiço – a religião como fenómeno natural, 1ª edição, 2008. Lisboa: Esfera do Caos Editores, pp. 93-94

As acções “complexas” é que constituem um problema. Entendemos por acções complexas as que produzem efeitos sobre coisas (deslocação, manipulação, transformação, etc.). É o sentido ordinário de agir; actua-se sobre algo: diz-se então que agir é causar uma mudança. Na medida em que uma acção é idêntica às suas consequências, diz-se que o agente é o autor não só dos seus gestos imediatos, mas dos seus efeitos mais longínquos. A atribuição constitui então um problema porque o autor não está nas consequências longínquas como está no seu gesto imediato. De algum modo a acção separa-se do seu autor como a escrita separa o discurso da palavra e dá-lhe um destino distinto do seu autor.
Dizemos que alguém é responsável pelas consequências dos seus actos: dizemo-lo de todas as acções que têm um grau de complexidade suficiente para que se possam distinguir fases (a, b, c, …, n) ou partes e considera a fase inicial como causa da fase terminal (no sentido da atribuição da causalidade) pode então descrever-se a acção de duas maneiras: pode descrever-se como um todo e nomeá-la como tal – diz-se então “A fez X” (matar); mas pode também descrever-se a acção nomeando a parte inicial da acção (“a” = disparar um tiro) e chamar efeito à parte terminal (“n” = fazer morrer); diz-se então “a” causou “n” (causou a morte); assim a estrutura complexa da acção permite adscrever a responsabilidade em termos de causalidade.
RICOEUR, Paul, O Discurso da Acção, 1ª edição, 1988. Lisboa: Edições 70, pp.62-70