Dado que o ajustamento é uma relação simétrica, poderá parecer confuso que possam haver diferentes direcções de ajustamento. Se a se ajusta a b, b ajusta-se a a. Talvez alivie esta peocupação o considerarmos um caso não linguístico incontroverso: se a Cinderela vai a uma sapataria comprar um novo par de sapatos, ela tem o número que calça como já dado e procura sapatos que se ajustem (direcção de ajustamento sapato-pé). Mas, quando o príncipe procura a dona do sapato, ele tem o sapato como dado e procura um pé que se ajuste ao sapato (direcção de ajustamento pé-sapato).
segunda-feira, 12 de maio de 2008
John Searle
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Citações
O AJUSTAMENTO AO MUNDO
A distinção entre diferentes direcções de ajustamento, igualmente oriunda da teoria dos actos de fala, será transposta para os actos Intencionais. Supõe-se que os membros da classe assertiva de actos de fala - enunciados, descrições, asserções, etc. - se adequam, de alguma maneira, a um mundo de existência independente; e é na medida em que o fazem ou não, que dizemos que são verdadeiros ou falsos. Mas os membros da classe directiva de actos de fala - ordens, comandos, solicitações, etc. - e os membros da classe comissiva - promessas, juramentos, votos, etc. - não são supostos ajustarem-se a uma realidade de existência independente. Supõe-se sim que produzam mudanças no mundo para que o mundo se ajuste ao conteúdo proposicional do acto de fala; e na medida em que o fazem ou não, não dizemos que são verdadeiros ou falsos, mas sim, que são obedecidos ou desobedecidos, cumpridos, acedidos, mantidos ou quebrados. Assinalo esta distinção dizendo que a classe assertiva tem a direcção de ajustamento palavra-mundo e que as classes comissiva e directiva têm a direcção de ajustamento mundo-palavra. Se o enunciado não é verdadeiro, é ele que falha, não o mundo; se a ordem é desobedecida ou a promessa quebrada, não é a ordem ou a promessa que falham, mas o mundo, na pessoa daquele que desobedece ou que quebra a promessa. Intuitivamente, podemos dizer que a ideia de direcção de ajustamento é a da responsabilidade pelo ajustamento. Se o enunciado é falso, é o enunciado que está em falta (direcção de ajustamento palavra-mundo). Se a promessa é quebrada, é falha daquele que prometeu (direcção de ajustamento mundo-palavra). Existem também casos nulos, em que não há qualquer direcção de ajustamento. Se eu pedir desculpas por ter insultado alguém ou felicitar alguém por ter ganho o prémio, então, embora eu de facto pressuponha a verdade da proposição expressa, que insultei esse alguém, que esse alguém ganhou o prémio, o intuito do acto de fala não é asseverar esssas proposições nem ordenar que se cumpram os actos por elas nomeados, mas antes expressar a minha tristeza ou o meu prazer em relação ao estado de coisas especificado no conteúdo proposicional, cuja verdade pressuponho. SEARLE, John, Intencionalidade - um ensaio de filosofia da mente, 1999. Lisboa: Relógio D'Água Publicações, pp. 28-29.
PARADOXO DA OMNIPOTÊNCIA
O paradoxo da omnipotência é o problema trivial de determinar se Deus, que pode fazer tudo, pode criar uma pedra tão pesada que não a consiga levantar. Se não a pode criar, não é omnipotente (porque até criaturas tão fracas como nós podem criar coisas que não podem levantar), mas, se a pode criar, também não é omnipotente, já que ao criá-la estaria a dar origem a algo que não poderia fazer (levantar o que tinha criado). Na solução habitual deste paradoxo admite-se que a omnipotência de Deus não se estende à realização do que é logicamente impossível, e faz-se notar que para ele (mas não para nós) é logicamente impossível que exista tal pedra.
in BLACKBURN, Simon, Dicionário de Filosofia, 1997. Lisboa: Gradiva.
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10º ANO,
11º ANO,
FILOSOFIA da RELIGIÃO,
LÓGICA,
PARADOXOS
PARADOXO DE MOORE
Um paradoxo é um argumento aparentemente sólido que conduz a uma afirmação aparentemente falsa ou contraditória. Porque a afirmação é falsa ou contraditória, somos levados a recusá-la; mas, por outro lado, não é fácil ver como se pode fazê-lo, dado que há um argumento aparentemente sólido a seu favor.
Nem sempre é fácil ver que argumento é colocado em causa por um paradoxo. Resolve-se um paradoxo mostrando que o argumento em que se baseia não é sólido: porque é inválido ou porque depende de premissas falsas. Mais raramente, resolve-se um paradoxo afirmando que a conclusão que parecia falsa ou contraditória não o é.
O paradoxo de Moore consiste em afirmar que não há contradição entre acreditar que p e afirmar que não-p. "Está chovendo mas eu não acredito que está". Esta afirmação é aparentemente falsa porque quando declaro que p, expresso uma crença que p. Se afirmo conhecer x, creio que x; se prometo fazer y, expresso uma intenção de fazer y. Por isso não se pode dizer que “está a chover mas eu não acredito que está”. Esta afirmação é estranha em termos lógicos mas não é auto-contraditória, e é dessa forma que se resolve o paradoxo. Eu posso realizar um acto de fala e negar a presença do seu estado intencional correspondente. Assim eu posso afirmar “é meu dever informar que p, mas realmente não acredito que p”, pois posso emitir um acto de fala em nome de outro. Ou então, pode estar a chover e posso afirmar que acredito que não está a chover porque posso ter a crença de que aquilo não é chuva.
Nem sempre é fácil ver que argumento é colocado em causa por um paradoxo. Resolve-se um paradoxo mostrando que o argumento em que se baseia não é sólido: porque é inválido ou porque depende de premissas falsas. Mais raramente, resolve-se um paradoxo afirmando que a conclusão que parecia falsa ou contraditória não o é.
O paradoxo de Moore consiste em afirmar que não há contradição entre acreditar que p e afirmar que não-p. "Está chovendo mas eu não acredito que está". Esta afirmação é aparentemente falsa porque quando declaro que p, expresso uma crença que p. Se afirmo conhecer x, creio que x; se prometo fazer y, expresso uma intenção de fazer y. Por isso não se pode dizer que “está a chover mas eu não acredito que está”. Esta afirmação é estranha em termos lógicos mas não é auto-contraditória, e é dessa forma que se resolve o paradoxo. Eu posso realizar um acto de fala e negar a presença do seu estado intencional correspondente. Assim eu posso afirmar “é meu dever informar que p, mas realmente não acredito que p”, pois posso emitir um acto de fala em nome de outro. Ou então, pode estar a chover e posso afirmar que acredito que não está a chover porque posso ter a crença de que aquilo não é chuva.
sábado, 10 de maio de 2008
O QUE É A INTENCIONALIDADE?
A Intencionalidade é a propriedade de muitos estados e eventos mentais pela qual eles são dirigidos para ou acerca de objectos e estados de coisas no mundo. Se, por exemplo, tenho uma crença, deve ser uma crença de que tal ou qual coisa é o caso; se tenho um medo, deve ser um medo de algo ou de que algo vai acontecer; se tenho um desejo, deve ser um desejo de fazer algo ou de que algo aconteça ou seja o caso; se tenho uma intenção, deve ser uma intenção de fazer algo. (...) Mas, em muitos aspectos, o termo é equívoco(...). Por isso quero já de início clarificar o modo como tenciono usá-lo.
Em primeiro lugar, na minha concepção, só alguns e não todos estados e eventos mentais têm Intencionalidade. Crenças, medos, esperanças e desejos são Intencionais; mas há formas de nervosismo, exaltação e ansiedade não direccionada que não são Intencionais. (...) As minhas crenças e desejos têm sempre que ser acerca de alguma coisa. Mas o meu nervosismo e ansiedade não dirigida não precisam de ser acerca de algo. Tais estados são caracteristicamente acompanhados por crenças e desejos, mas estados não dirigidos não são idênticos a crenças ou desejos. (...)
Em segundo lugar, Intencionalidade não é o mesmo que consciência. Muitos estados conscientes não são Intencionais, como uma sensação súbita de exaltação, e muitos estados Intencionais não são conscientes, como eu ter muitas crenças sobre as quais não estou a pensar no presente e nas quais posso nunca ter pensado (...), são apenas crenças que se têm e nas quais, normalmente, não se pensa.
Em terceiro lugar, tencionar e intenções são apenas uma forma entre outras de Intencionalidade; não têm qualquer estatuto especial. O trocadilho óbvio entre "Intencionalidade" e "intenção" sugere que, no sentido comum do termo, as intenções têm algum papel especial na teoria da Intencionalidade; mas, na minha abordagem, tencionar fazer algo é apenas uma forma de Intencionalidade, juntamente com crença, esperança, medo, desejo, e muitas outras; e não quero com isto sugerir que, por as crenças, por exemplo, serem Intencionais, contenham de alguma maneira a noção de intenção ou tencionem algo, ou que alguém que tenha uma crença deva por meio dela tencionar fazer algo acerca dela. A fim de manter esta distinção totalmente clara, usarei maiúsculas para o sentido técnico de "Intencional" e "Intencionalidade". Intencionalidade é direccionalidade; tencionar fazer algo é apenas um tipo de Intencionalidade entre outros.
SEARLE, John, Intencionalidade - um ensaio de filosofia da mente, 1999. Lisboa: Relógio D'Água Editores, pp.21-23
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10º ANO,
FILOSOFIA da ACÇÃO
John Searle

Do meu ponto de vista, os fenómenos mentais têm base biológica: eles são causados por operações do cérebro e realizados na estrutura do cérebro. Nesta perspectiva, a consciência e a Intencionalidade são tanto uma parte da biologia humana como o são a digestão e a circulação do sangue.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
O PROBLEMA DO MAL NATURAL
O principal argumento contra a existência de Deus é a existência do mal. O argumento resume-se assim: se Deus é omnipotente poderia ter criado um mundo onde não existisse o mal. Se Deus é bom deveria querer criar um mundo onde não existisse o mal. Mas o mal existe. Logo, ou Deus quis criar um mundo sem o mal mas não pôde - e neste caso não é omnipotente -, ou pôde mas não quis - e neste caso não é sumamente bom. Logo, o tal Deus teísta não existe.
Os teístas acabaram por conseguir responder à existência do mal moral. Deus criou um mundo com livre arbítrio. Um mundo com livre arbítrio é um mundo preferível a um mundo sem livre arbítrio. Logo, o mal moral não é da responsabilidade de Deus, mas do livre arbítrio.
Mas e o mal natural, que não depende do livre arbítrio do ser humano? Encontraremos uma resposta a este problema sem pôr em causa a existência de Deus?
Por exemplo, Deus nunca teria tencionado que uma pessoa morresse esmagada por um pedregulho. Mas se as erupções vulcânicas acontecerem de acordo com as leis da geofísica, que Deus quer que existam (caso contrário o mundo seria diferente do que é, e nós seríamos igualmente diferentes, o que seria um mal), algumas pessoas podem ser esmagadas por pedregulhos. Deus não pode suster as leis e preservar todas as pessoas do mal, excepto através de uma série de contínuos milagres, e isto prejudicaria a estrutura da lei. O que é benéfico para o todo será, por vezes, prejudicial para as partes. Perceberemos melhor esta objecção a partir de um exemplo mundano. Se quisermos um jardim muito bonito, por oposição a um caos de ervas daninhas, muitas plantas terão de ser arrancadas e outras fortemente podadas. Poderíamos dizer que o benefício de um todo requer o sacrifício de algumas das partes.
Podemos encontar esta objecção ao mal natural em Keith Ward, Deus, Fé e o Novo Milénio.
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10º ANO,
FILOSOFIA da RELIGIÃO
FALÁCIA GENÉTICA
Falácia genética. Erro de pensamento em que mostrar como algo que se desenvolveu é mostrar o que é. Assim, uma falácia genética é um argumento mau que parece bom pois pressupõe que uma vez que a origem de uma crença ou prática esteja errada, sem considerar o seu desenvolvimento, ela ainda estaria errada hoje. Podemos esquematizar a falácia genética da seguinte forma: recusamos x, porque x teve uma dada origem que consideramos errado, mas não tivemos em conta a evolução de x. Por exemplo, as Testemunhas de Jeová que recusam festejar aniversários natalícios ou outras festividades por terem origem pagã, sem terem em conta a evolução destas práticas, incorrem na falácia genética.
terça-feira, 6 de maio de 2008
Keith Ward

Assim como é errado pensar que a vasta dimensão do Universo reduz os humanos à insignificância, também é errado pensar que o facto de que toda a vida sensível chegará ao fim retira por completo a importância a essa vida. Uma vida não tem de durar eternamente para adquirir significado e valor. Tem significado enquanto durar, e a ideia de vir acabar pode até conferir-lhe maior significado.
THE BEGINNING
Em Busca de Sophia, vai ser o blog de Filosofia da Escola EB2,3/S de Oliveira de Frades.
O principal objectivo do presente blog é ser um precioso auxiliar nas aulas de Filosofia e um lugar de interactividade aluno-professor-saber. Com o blog é igualmente nossa pretensão diminuir o gasto da escola em papel, pois todos os documentos de apoio aos manuais adoptados irão estar sempre disponíveis on-line. Por essa razão o blog irá iniciar a sua actividade, de uma forma mais pujante, apenas no próximo ano lectivo, o que não impede que não se inicie já a postagem de algumas mensagens.
Mas não pretendemos que o blog se enclausure dentro da sala de aula de Filosofia. Queremos que ele seja uma janela aberta para a discussão de ideias em toda a comunidade escolar. Por essa razão, no próximo ano lectivo iremos periodicamente lançar temas para debate, principalmente na área da Ética Aplicada, esperando que as pessoas não se sintam constrangidas a manifestar a sua opinião fundamentada, publicando os seus comentários neste blog, que pretendemos ser de toda a escola.
O principal objectivo do presente blog é ser um precioso auxiliar nas aulas de Filosofia e um lugar de interactividade aluno-professor-saber. Com o blog é igualmente nossa pretensão diminuir o gasto da escola em papel, pois todos os documentos de apoio aos manuais adoptados irão estar sempre disponíveis on-line. Por essa razão o blog irá iniciar a sua actividade, de uma forma mais pujante, apenas no próximo ano lectivo, o que não impede que não se inicie já a postagem de algumas mensagens.
Mas não pretendemos que o blog se enclausure dentro da sala de aula de Filosofia. Queremos que ele seja uma janela aberta para a discussão de ideias em toda a comunidade escolar. Por essa razão, no próximo ano lectivo iremos periodicamente lançar temas para debate, principalmente na área da Ética Aplicada, esperando que as pessoas não se sintam constrangidas a manifestar a sua opinião fundamentada, publicando os seus comentários neste blog, que pretendemos ser de toda a escola.
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